Prossegue Kardec: Há, por vezes, no extático, mais exaltação que verdadeira lucidez, ou melhor, a exaltação lhe prejudica a lucidez, razão por que suas revelações são com freqüência uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e outras ridículas. (Idem) Bem, felizmente, a nossa Regina tem a cabeça no lugar e jamais cuidou de formular qualquer doutrina ou fantasia acerca de sua experiência; limitou-se a observar atentamente o que ocorreu e subitamente deslocada, em espírito, para uma realidade transcendental porque incomparável em relação a tudo quanto antes ou depois tenha experimentado.
Como cada experiência dessas é um caso à parte, prefiro transcrever o relato que a meu pedido ela própria escreveu a respeito. Ei-lo: "Entre todos os fenômenos que me aconteceram" - diz ela - "classifico este como o mais fantástico, o mais gratificante e, ao mesmo tempo, o mais estranho.
"Durante algum tempo, envolvi-me em uma atividade excessiva. Tinha três empregos e várias tarefas dentro do movimento espírita. Cheguei aos extremos da exaustão. A conselho médico, vi-me forçada a reduzir a atividade profissional para recuperar a saúde afetada. Nessa época, eu ouvira dizer que a prática da Hata Yoga era um método que muito contribuía para um estado de relaxamento muscular e nervoso.
Entrei para uma das academias especializadas em busca desse recurso. Antes disso, contudo, quis saber exatamente do que se tratava para ter uma idéia do que me esperava na prática da Yoga. Para obter essa informação, comprei alguns livros a respeito do assunto e pude observar, logo de início, que se tratava de algo sério. Muito mais do que as aulas faziam parecer, quando comecei a freqüentá-las. Por isso, limitei minha permanência na academia a seis meses apenas, o suficiente para aprender a dominar a técnica da respiração conjugada às posturas físicas correspondentes.
"Depois disso, passei a realizar as sessões de Yoga em minha própria casa, seguindo a orientação dos livros. Como já possuía certa experiência de desdobramento, era fácil fazê-lo com a Yoga. Desdobrava-me fácil e constantemente. Isto porque, ao colocar o corpo em posição de relaxamento profundo, afrouxavam-se os vínculos de ligação espírito/corpo, como no sono comum. Tornou-se até necessário ter cuidado especial com certas posturas que pareciam facilitar ainda mais o desligamento. Percebi logo o risco de desligar-me em pleno esforço para uma postura e deixar o corpo tombar.
"A primeira observação quanto aos exercícios foi a de que, além dos desdobramentos, eu passava a ter um controle mais efetivo sobre o corpo que ficou mais sensível aos comandos da mente. Em pouco tempo me foi possível, por exemplo, localizar uma contração muscular que estava provocando dor e ordenar o relaxamento correspondente. A dor passava como por encanto. Por essa época, andava eu com muitos problemas de saúde: baixa pressão arterial, enxaquecas, engurgitamento do fígado e coisas assim. Tudo isso eu ia curando com os exercícios. Bastava relaxar, dirigir-me aos diversos órgãos com ordens explícitas para que cessassem tais disfunções.
"Certa tarde, após executar a seqüência regular de posturas - que eu vinha praticando diariamente há dois anos - entreguei-me ao relaxamento profundo na chamada 'posição do cadáver'. A técnica é conhecida por todos os praticantes da Hata Yoga: começar o relaxamento pelos pés e, gradativamente chegar até a cabeça, expedindo os comandos necessários a cada grupo de músculos. Nesse ponto era como se o corpo não existisse, ou pelo menos eu não o sentia. Normalmente, eu parava nesse ponto, isto é, ia aos poucos reassumindo os controles orgânicos e integrando-os de volta à consciência, até o total despertamento do estado de torpor.
Naquela tarde específica, em vez de prosseguir com a rotina, e despertar, resolvi avançar a partir daquele ponto para ver o que aconteceria. A curiosidade de sempre ...
"Continuei, portanto, a aprofundar o estado de relaxamento, até que me senti fora do corpo. Percebi, porém, certas diferenças. Usualmente era capaz de ver, ao mesmo tempo, meu duplo perispírito e o corpo físico. Desta vez, não. Sentia como se todo o meu ser se concentrasse na cabeça ou, mais propriamente, no meio da testa. Em outras palavras: era como se eu fosse apenas 'olho'. Não um olho comum, com a sua conformação conhecida. Era um olho semelhante ao que se vê nas esculturas e pinturas egípcias; profundo e alongado. A visão desse olho parecia não ter limites. E, de repente, aquele olhei que era eu, começou a ficar cada vez mais independente e cada vez mais forte. Com ele eu via tudo.
"Percorri todo o meu corpo com esse olho e via os órgãos internos mais nitidamente do que se estivesse diante de uma aparelho de radioscopia. Os ovários me chamaram a atenção, em particular, pois se mostravam iluminados por uma luz fosforescente. Podia observar as veias, o sangue a circular, o coração pulsando no ritmo que eu lhe determinava. O grande espetáculo, contudo, era o cérebro. Parecia uma usina elétrica, uma casa de força, pulsando todo iluminado e cujo ritmo de funcionamento produzia um fenômeno que eu interpretava como um 'som' característico. De repente, eu saí do cérebro. Aí é que experimentei uma sensação fantástica.
"Todo o meu eu era aquele olho e era tudo luz e vida. Em seguida, transpus as últimas limitações - as daquele olho. Isto é, eu era. Eu sabia, e que como me dizia, ou melhor, tinha o conhecimento: 'eu sou Vida, eu sou Força, eu sou Tudo. Aquele corpo ali nada é!'
"E sentia aquela força expandir-se a tal ponto que me senti parte do universo, um com tudo o que nele havia, como se tudo fosse um e eu parte dessa unidade. E ali eu sabia que era Vida, eu era imortal, indestrustível, nada tinha a temer. Eu era parte de Deus e Deus era parte de mim. Uma sensação indescritível em linguagem humana. É como seu eu estivesse abraçando o universo, a natureza, tudo; e ao mesmo tempo em que Eu, era EU uma Individualidade, era parte daquele Todo, daquela Unidade, daquele Um.
"Quanto tempo durou, eu não sei. Aos poucos, porém, a sensação de expansão parece ter atingido os extremos limites possíveis à minha condição e começou a diminuir como se encolhesse e, aos poucos, fui ficando menor, menor, até unir-me novamente ao corpo. Quando isto se deu, já no corpo, fiquei ali deitada no chão envolvida em emoções e sensações literalmente indescritíveis, irreproduzíveis em linguagem humana. Lembro palavras soltas, pobres e vazias que nada dizem: alegria, felicidade, gratidão, paz, serenidade, confiança, certeza. Eu sabia. E não me sentia triste nem frustrada por ter voltado às minhas limitações, à exigüidade do meu pequeno mundo.
Agora eu sabia quem eu era e me sentia, de volta ao corpo, como o gênio da lâmpada, novamente preso dentro da minha garrafa. Mas eu sabia que aquilo era temporário, que um dia alguém viria abrir a garrafa e eu sairia de novo e, então, o universo não teria fronteiras para mim, porque eu era parte dele.
"Teria sido a visão cósmica de que falam os místicos orientais? Não sei. Seja o que for, foi maravilhoso."
Termina aqui o relato dessa curiosa experiência pessoal. Não há o que comentar.
Quando o Cristo disse que somos deuses ou que ele e o Pai são uma só realidade, com toda certeza tinha essa experiência em mente. Não quis dizer com isso que ele é Deus, mas que todos nós somos, dado que somos todos dotados do mesmo potencial divino, não destinados a rivalizar com o Pai, mas a participar do seu pensamento e das suas emoções, da sua sabedoria e do seu amor. Toda partícula de luz é luz também.