2ª Parte - Cap. 1: Rumo ao deserto
Quando a criatura entra no período mais perigoso da existência, depois da matinal infância e antes da noite da velhice; qua ndo a vida exubera energias, Deus lhe envia os filhos, para que, com os tra balhos, se lhe enterneça o coração. Pelo que me hás confessado, é possível não venhas a ser pai, mas terás os filhos do Calvário em toda parte. Não viste Simão Pedro, em Jerusalém, rodeado de infelizes? Natural mente, encontrarás um lar maior na Terra, onde serás chamado a exercer a fraternidade, o amor, o perdão... É preciso morrer para o mundo, para que o Cristo viva em nós... Aquelas observações tão sadias e tão mansas pene traram o espírito do exrabino como bálsamo de con solação de horizontes mais vastos. Suas palavras carinhosas fizeram-no recordar alguém que o amava muito. De cérebro cansado pelos embates do dia, Saulo esfor çava-se por fixar melhor as idéias. Ah!... agora se lembrava perfeitamente. Esse alguém era Gamaliel. Veio -lhe de súbito o desejo de se avistar com o velho mestre. compreendia a razão daquela lembrança. É que, tam bém ele, pela última vez, lhe falara da necessidade que sentia dos lugares ermos, para medi tar as sublimes verdades novas. Sabia-o em Palmira, na companhia de um irmão. Como não se recordara ainda do antigo mestre, que lhe fora quase um pai? Certamente, Gamaliel recebê-lo-ia de braços abertos, regozijar -se-ia com as suas conquistas recentes, dar-lhe-ia conselhos generosos quan to aos rumos a seguir. Engolfado em recordações cariciosas, agradeceu a Ananias com um olhar significativo, acrescentando sen sibilizado: — Tendes razão... Buscarei o deserto em vez de voltar a Jerusalém precipitadamente, sem forças, talvez, para enfrentar a incompreensão dos meus confrades. Tenho um velho amigo em Palmira, que me acolherá de bom grado. Ali repousarei algum tempo, até que possa internar -me pelas regiões ermas, a fim de meditar as lições recebidas. Ananias aprovou a idéia com um sorriso. Ainda ficaram conversando longo tempo, até que a noite mer gulhou a alma das coisas no seu velário de sombras espessas. O velho pregador conduziu, então, o novo adepto para a humilde reunião que se realizava nesse sábado de grandes desilusões para o ex -rabino. Damasco não tinha propriamente uma igreja; en tretanto, contava numerosos crentes irmanados pelo ideal religioso do “Caminho”. O núcleo de orações era em casa de uma lavadeira humilde, companheira de fé, que alugava a sala para poder acudir a um filho paralítico. Profundamente admirado, o moço tarsense enxergou ali a miniatura do quadro observado pela primeira vez, quando tivera a curiosidade invencível de assistir às célebres pregações de Estevão em Jerusalém. Em torno da mesa rústica, juntavam -se míseras criaturas da plebe, que ele sempre mantivera separada da sua esfera social. Mulheres analfabetas com crianças ao colo, velhos pe dreiros rudes, lavadeiras que não conseguiam conjugar duas palavras certas. Anciães de mãos trêmulas, amparando -se a cajados fortes, doentes misérrimos que exibiam a marca de enfermidades dolorosas. A cerimônia parecia ainda mais simples que as de Simão Pedro e seus com panheiros galileus. Ananias chefiava e presidia o ato. Sentando -se à mesa, qual patriarca no seio da família, rogou as bênçãos de Jesus para a boa -vontade de todos. Em seguida, fez a leitura dos ensinos de Jesus, respi gando algumas sentenças do Mestre Divino nos pergaminhos esparsos. Depois de comentar a página lida, ilustrando-a com a exposição de fatos significativos, do seu conhecimento, ou da sua experiência pessoal, o velho discípulo do Evangelho deixava o lugar, percorria as filas de bancos e impunha as mãos sobre os doentes e necessitados. Comumente, segundo o hábito das primeiras células cristãs do primeiro século, ao memorar as alegrias de Jesus quando servia o repasto aos discípulos, fazia-se modesta distribuição de pão e água pura, em nome do Senhor. Saulo serviu-se do bolo simples, enternecidamente. Para sua alma, o cibo mesquinho tinha o sabor divino da fraternidade universal. A água clara e fresca da bilha grosseira soube -lhe a fluído de amor que partia de Jesus, comunicando-se a todos os seres. Ao fim da reunião, Ananias orava fervorosamente. Depois de contar a vi são de Saulo e a sua própria, nos comentários singelos daquela noite, pedia ao Salvador prote gesse o novo servo em demanda a Palmira, a fim de meditar mais demoradamente na imensidão de suas mise ricórdias. Ouvindo-lhe a rogativa que o calor da amizade revestia de amavio singular, Saulo chorou de reconheci mento e gratidão, comparando as emoções do rabino que fora, com as do servo de Jesus que agora queria ser. Nas reuniões suntuosas do Sinédrio, jamais ouvira um companheiro exorar ao Céu com aquela sincer idade superior. Entre os mais afeiçoados só encontrara elogios vãos, prontos a se transformarem em calúnias torpes, quando lhes não podia conceder favores materiais. Em toda parte, admiração superficial, filha do jogo dos interesses inferiores. Ali, a situação era outra. Nenhuma daquelas criaturas desfavorecidas da sorte viera pedir-lhe fácilidades; todos pareciam satisfeitos ao serviço de Deus, que assim os congregava a termo de trabalhos exaustivos e penosos. E, por fim, ainda rogavam a Jesus lhe concede sse paz de espírito para o seu empreendimento. Terminada a reunião, Saulo de Tarso tinha lágri mas nos olhos. Na igreja do “Caminho”, em Jerusalém, os Apóstolos galileus o trataram com especial deferência, atentos à sua posição social e política, senhor da s regalias que as convenções do mundo lhe conferiam; mas os cristãos de Damasco impressionaram-no mais vivamente, arrebataram -lhe a alma, conquistando -a para uma afeição imorredoura, com aquele gesto de confiança e cari nho, tratando-o como irmão. Um a um, apertaram-lhe a mão com votos de feliz viagem. Alguns velhos mais humildes beijaram -lhe as mãos. Tais provas de afeto davam -lhe novas forças. Se os amigos do judaísmo lhe desprezavam a palavra, acintosos e hostis, começava agora a encontrar no seu camin ho os filhos do Calvário. Trabalharia por eles, consagraria ao seu consolo as energias da mocidade. Pela primeira vez na vida, revelou interesse pelo sor riso das criancinhas. Como se desejasse retribuir as demonstrações de carinho recebidas, tomou nos braços um menino doente. Diante da pobre mãe sorridente e agradecida, fez lhe festas, acariciou-lhe os cabelos desajeitadamente. Entre os acúleos agressivos de sua alma apaixonada, começavam a desabrochar as flores de ternura e gratidão. Ananias estava satisfeito. Junto dos irmãos de mais confiança, acompanhou o neófito até à pensão de Judas. Aquele modesto grupo desconhecido percorreu as ruas banhadas de luar, estreitamente unido e reconfortando-se em comentários cristãos. Saulo admirava -se de haver encontrado tão depressa aquela chave de harmonia que lhe proporcionava segura confiança em todos. Teve a impressão de que nas genuínas comunidades do Cristo a amizade era diferente de tudo que lhe dava expressão nos agrupamentos mundanos. Na diversidade das lutas sociais o traço dominante das relações cifrava -se agora, a seus olhos, nas vantagens do interesse individual; ao passo que, na unidade de esforços da tarefa do Mestre, havia um cunho divino de confiança, como se os com promissos tivessem o ascendente divino, original. Todos falavam, como nascidos no mesmo lar. Se expunham uma idéia digna de maior ponderação, faziam -no com serenidade e geral compreensão do dever; se versavam assuntos leves e simples, os comentários timbravam franca e confortadora alegria. Em nenhum deles notava a preocupação de parecer menos sincero na defesa dos seus pontos de vista; mas, ao invés, lhaneza de trato sem laivos de hipocrisia, porque, em regra, sentiam -se sob a tutela do Cristo, que, para a consciência de cada um, era o amigo i nvisível e presente, a quem ninguém deveria enganar. Consolado e satisfeito de haver encontrado amigos na verdadeira acepção da palavra, Saulo chegou à estalagem de Judas, despedindo -se de todos profundamente comovido. Ele próprio surpreendia -se com o sabor de Intimidade com que as expressões lhe afloravam aos lábios. Agora compreendia que a palavra “irmão”, lar gamente usada entre os adeptos do “Caminho”, não era fútil e vã. Os companheiros de Ananias conquistaram -lhe o coração. Nunca mais esqueceria os ir mãos de Damasco. No dia imediato, contratando um serviçal indicado pelo estalajadeiro, Saulo de Tarso, ao amanhecer, em bora surpreendesse o dono da casa com o seu ânimo resoluto, pôs-se a caminho da cidade famosa, situada num oásis em pleno deserto. Nas primeiras horas da manhã, saíam das portas de Damasco dois homens modestamente trajados, à fren te de pequeno camelo carregado das necessárias provisões. Saulo fizera questão de partir assim, a pé, de modo a iniciar a vida com rigores que lhe seriam sumam ente benéficos mais tarde. Não viajaria mais na qualidade de doutor da Lei, rodeado de servos, sim como discípulo de Jesus, adstrito aos seus programas. Por esse motivo, considerou preferível viajar como beduíno, para apren der a contar, sempre, com as pró prias forças. Sob o calor calcinante do dia, sob as bênçãos refrigeradoras do crepúsculo, seu pensamento estava fixo naquele que o chamara do mundo para uma vida nova. As noites do deserto, quando o luar enche de sonho a desolação da paisagem morta, são tocadas de misteriosa beleza. Sob as frondes de alguma tamareira solitária, o convertido de Damasco aproveitava o silêncio para profundas meditações. O firmamento estrelado tinha, agora, para seu espírito, confortadoras e permanentes mensagens. Estava convi cto de que sua alma havia sido arrebatada a novos horizontes, porque, através de todas as coisas da Natureza, parecia receber o pensamento do Cristo que lhe falava carinhosamente ao coração.
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Capítulo 1
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