Capítulo 9
Assim que, há cerca de meio século, todo um encadeamento de fatos se produziu, desde os mais inferiores e vulgares, até os mais transcendentes, conforme o grau de elevação das inteligências que intervinham. Toda uma ordem de manifestações se desdobrou sob as vistas de observadores atentos. Por isso, a despeito das dificuldades de experimentação, a despeito dos casos de impostura e das formas de exploração a que esses fenômenos algumas vezes serviram de pretexto, a apreensão e a desconfiança diminuíram pouco a pouco; o número dos verificadores foi crescendo sempre. De cinqüenta anos para cá, em todos os países o fenômeno espírita tem sido objeto de freqüentes investigações, empreendidas e dirigidas por comissões científicas. Cépticos sábios, professores célebres, de todas as universidades do mundo, têm submetido esses fatos a um exame profundo e rigoroso. Sua intenção era, a princípio, fazer luz sobre o que acreditavam resultado de fraudes ou alucinações. Todos, porém, incrédulos como eram, após anos de consciencioso estudo e repetidas experimentações, abriram mão das suas prevenções e se inclinaram perante a realidade dos fatos. Quanto mais se tem examinado e escrutado o problema, tanto mais numerosos è expressivos se têm revelado os casos de identidade, as provas da persistência da personalidade humana no além-túmulo. As manifestações espíritas, verificadas aos milhares em todos os pontos do globo, demonstraram que um mundo invisível se agita em torno de nós, ao nosso alcance, um mundo em que vivem em estado fluídico todos os que nos precederam na Terra, que aqui lutaram e sofreram, e constituem, para além da morte, uma segunda humanidade. O novo espiritualismo apresenta-se hoje com um cortejo de provas, um conjunto de testemunhos tão imponente, que já não é possível à dúvida para os investigadores de boa fé. Era o que, nestes termos, externava o professor Challis, da Universidade de Cambridge: “Os atestados têm sido tão abundantes e completos, os testemunhos têm vindo de tantas fontes independentes entre si e de um número tão considerável de assistentes, que é forçoso, ou admitir as manifestações tais como no-las representam, ou renunciar à possibilidade de certificar um fato, qualquer que seja, mediante um depoimento humano.”(xcvii) Por isso o movimento de propagação se acentuou cada vez mais. Na hora atual, assistimos a uma verdadeira expansão da idéia espírita. A crença no mundo invisível se espalhou por toda a superfície da Terra. Em toda parte o Espiritismo possui as suas sociedades de experimentação, os seus vulgarizadores, os seus jornais. * Insistamos num ponto essencial. O erro ou o cepticismo do homem, relativamente à existência do mundo invisível, era devido a uma causa única: a incapacidade da sua organização para lhe fornecer uma idéia completa das formas e possibilidades da vida. Perdemos de vista que os nossos sentidos, posto que se tenham desenvolvido e apurado, desde a origem da Humanidade, ainda não percebem senão as mais rudimentares formas da matéria; seus estados sutis lhes escapam absolutamente. Daí a opinião, geralmente divulgada, de que a vida não era possível senão sob formas e com organismos semelhantes aos que nos afetam a vista. Daí a idéia falsa de que a vida não era, por toda parte, mais que uma imitação, uma reprodução do que vemos ao redor de nós. No dia em que, com o auxílio de poderosos instrumentos de óptica, o infinitamente grande e o infinitamente pequeno se patentearam, foi realmente necessário reconhecer que os nossos sentidos, reduzidos a si mesmos, não abrangiam senão um círculo muito restrito do domínio das coisas, um limitadíssimo campo da Natureza; que, em definitivo, quase nada sabíamos da vida universal. Em época muito mais recente, ainda não conhecíamos da matéria senão os seus três modos mais elementares: os sólidos, os líquidos e os gases. Nada sabíamos das inúmeras transformações de que é suscetível. Foi somente há uns trinta anos que o quarto estado da matéria, o estado radiante, se tornou conhecido dos sábios. W Crookes, o acadêmico inglês, foi o primeiro que verificou a sua existência e as suas experiências espíritas, continuadas por espaço de três anos, não foram estranhas a essa descoberta. Ele conseguiu demonstrar que a matéria, tornada invisível, reduzida a quantidades infinitesimais, adquire energias e potencialidades incalculáveis, e que essas energias aumentam sem cessar, à medida que a matéria se rarefaz. Mais recentemente, investigações de numerosos sábios vieram confirmar essas descobertas. Pouco a pouco a Ciência abordou o domínio do invisível, do intangível, do imponderável. Forçoso foi reconhecer que o estado radiante não é o último que a matéria possa revestir; além desse, ela se apresentou sob aspectos cada vez mais sutis e quintessenciados, rarefazendo-se quase ao infinito, sem deixar de ser a forma possível, a forma necessária da vida. O que a Ciência começa apenas a entrever, os espíritas sabiam-no há muito pela revelação dos Espíritos. Eles tinham vindo assim a saber que o mundo visível não é mais que ínfima porção do Universo; que fora do que incide sob os nossos sentidos, a matéria, a força e a vida se apresentam sob formas variadas, sob inúmeros aspectos; que nós estamos rodeados, envolvidos de radiações invisíveis para nós, em razão da grosseria dos nossos órgãos. As experiências científicas vêm hoje demonstrar todas essas noções. A comprovação desses modos de energia, a existência dessas formas sutis da matéria fornecem, ao mesmo tempo, a explicação racional dos fenômenos espíritas. É aí que os invisíveis haurem as forças de que se servem em suas manifestações físicas; é com elementos da matéria imponderável que são formados os seus invólucros, os seus organismos. Os investigadores de boa fé não tardaram a reconhecê-lo. Depois da descoberta da matéria radiante, a Ciência avançou passo a passo nesse vasto império do desconhecido. Todos os dias vem-na confirmar, mediante novas experiências, o que o espírito humano, mais clarividente que os nossos sentidos, há muito pressentira. A Ciência havia começado por fotografar os raios invisíveis do espectro solar, os raios ultravioleta e infravermelho, que não nos impressionam a retina. Obteve, depois, a reprodução, na placa sensível, de grande número de mundos estelares, de estrelas longínquas, de astros perdidos nas profundezas do espaço, a uma distância tal que as suas irradiações luminosas escapam, não só à nossa vista, mas, às vezes, mesmo ao telescópio. Sabe-se que as sensações de luz, como as de som, calor, etc., são produzidas por determinada quantidade de vibrações do éter. A retina, órgão da vista, percebe, em certos limites, as ondas luminosas.(xcviii) Além desses limites, escapa-lhe grande número de vibrações. Ora, essas vibrações, inapreciáveis para nós, podem ser percebidas pela placa fotográfica, que é mais sensível que a vista humana, o que permite dizer que a objetiva fotográfica é como um olhar projetado ao invisível. Temos disso ainda urna prova na aplicação dos raios X, dos raios obscuros de Roentgen, à fotografia. Esses raios, posto que invisíveis, têm o poder de atravessar certos corpos opacos, tais como o tecido, a carne, a madeira, e permitem reproduzir objetos ocultos a todos os olhos, como o conteúdo de uma bolsa, de unia carta, etc. Penetram nas profundezas do organismo humano, e as mínimas particularidades da nossa anatomia não são mais segredo para eles. A utilização dos raios X tende a generalizar-se cada vez mais e nos mostra que considerável partido a Ciência do futuro poderá tirar das formas sutis da matéria, quando as souber acumular e dirigir. A descoberta da matéria luminosa e de suas aplicações é de um alcance incalculável. Não somente prova que além dos nossos sentidos se desdobram, gradualmente, formas da matéria unicamente perceptíveis mediante aparelhos que as registram, mas, também, que essas formas e radiações, à medida que aumentam de sutileza, adquirem mais força e maior penetração. Habituamo-nos, assim, a estudar a Natureza sob os seus recônditos aspectos, que são os do seu maior poder. Nessas manifestações ainda mal definidas da energia encontramos a explicação científica de inúmeros fenômenos como as aparições, a passagem dos Espíritos através dos corpos sólidos, etc. A aplicação dos raios Roentgen à fotografia nos faz compreender o fenômeno da vista dupla dos médiuns e o da fotografia espírita. Efetivamente, se placas podem ser influenciadas por invisíveis raios, por irradiações da matéria imponderável, que penetram os corpos, com mais forte razão os fluidos quintessenciados, de que se compõe o invólucro invisível dos Espíritos, podem, em certas condições, impressionar a retina dos médiuns, aparelho delicado e complexo como não o é a placa de vidro. Assim é que, a cada dia, mais se fortifica o Espiritismo pelo acréscimo de argumentos tirados das descobertas da Ciência e que terminarão por abalar os mais obstinados cépticos. A fotografia das irradiações do pensamento vem descerrar novo campo aos investigadores. Numerosos experimentadores(xcix) conseguiram fixar na placa sensível as radiações do pensamento e as vibrações da vontade. Suas experiências demonstraram que existe em cada ser humano um centro de radiações invisíveis, um foco de luzes que escapam à vista, mas podem impressionar as placas fotográficas. Quer apoiando os dedos na face que tem a gelatina, quer aplicando no alto do cérebro e na obscuridade, a face vítrea da placa, nesta se obtêm ondas, vibrações que variam de aspecto e intensidade sob a influência das disposições mentais do operador. Uniformes, regulares no estado normal, essas ondas se formam em turbilhões, em espirais, sob o influxo da cólera; estendem-se em lençóis, em largos eflúvios no êxtase, e se elevam em colunas majestosas durante a prece, como vapores de incenso.
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Título A Nova Revelação – o Espiritismo e a Ciência