Conseguiu-se, mesmo, reproduzir nas placas o duplo fluídico do homem, centro de tais radiações. O coronel de Rochas e o Doutor Barlemont obtiveram, na oficina fotográfica de Nadar, a fotografia simultânea do corpo de um médium e do seu duplo, momentaneamente separados.(c)
Como prelúdio de tantas outras provas objetivas, que adiante assinalaremos, a fotografia vem, portanto, revelar a existência desse corpo fluídico que duplica e mantém o nosso corpo físico, desse invólucro sutil que é a forma radiante do Espírito, dele inseparável durante a vida, como depois da morte.
As placas fotográficas não são unicamente impressionadas pelas vibrações fluídicas do ser humano; igualmente o são por formas pertencentes ao mundo invisível, seres que existem, vivem e se movem em torno de nós, presidindo a todo um conjunto de manifestações que vamos passar em revista e que se não podem explicar de outro modo, que não pela sua presença e ação.
Tais seres, pela morte libertados das necessidades e misérias da natureza humana, continuam a agir, graças a esse corpo fluídico imperecível, formado de elementos muitíssimo sutis da matéria, dos quais acabamos de falar e que até agora escapavam aos nossos sentidos, em seu estado normal.
A questão do corpo fluídico, ou perispírito, posto que já por nós tratada em outras páginas(ci) necessita de novas explicações, porque nos faz melhor compreender a vida no espaço e o modo de ação dos Espíritos sobre a matéria.
É sabido que as moléculas do nosso corpo físico estão submetidas a constantes mutações. Todos os dias o nosso invólucro carnal elimina e assimila um certo número de elementos. O corpo, desde as partes moles do cérebro até as mais duras parcelas da carcaça óssea, renova-se integralmente dentro de certo número de anos. Em meio dessas correntes incessantes, subsiste em nós uma forma fluídica original, compressível e expansível, que se mantém e perpetua. É nela, no desenho invisível que apresenta, que se vêm incorporar, fixar, as moléculas da matéria grosseira. O perispírito é como o molde, o esboço fluídico do ser humano. É por isso que, quando com a morte se efetua a separação, o corpo material tomba imediatamente e se desorganiza e decompõe.
O perispírito é o invólucro permanente do Espírito, ao passo que o corpo físico não passa de invólucro temporário, veste emprestada, que tomamos para realizar a peregrinação terrestre. O perispírito existia antes do nascimento e sobrevive á morte. Ele constitui, em sua íntima ligação com o Espírito, o elemento essencial e persistente da nossa individualidade, através das múltiplas existências que nos é dado percorrer.(cii)
É pela existência desse corpo fluídico, pelo seu desprendimento durante o sono, quer natural, quer provocado, que se explicam às aparições dos fantasmas dos vivos e, por extensão, as dos Espíritos dos mortos.
Havia-se já podido verificar, em muitos casos, que o duplo fluídico de pessoas vivas se afastava, em certas condições, do corpo material para aparecer e manifestar-se à distância. Esses fenômenos são conhecidos sob a denominação de fatos telepáticos.(ciii) Desde então, tornava-se evidente que, se durante a vida a forma fluídica pode agir fora e sem o concurso do corpo, já não podia a morte ser o termo da sua atividade.
No estudo especial dos fenômenos de exteriorização da sensibilidade e da motricidade, o coronel de Rochas e, com ele, os professores Richet e Sabatier, o Doutor Dariex, os Srs. de Grammont e de Watterville, haviam abordado o domínio das provas experimentais, donde resultou a certeza da ação do duplo fluídico, à distância. Os sábios ingleses, por sua vez, averiguaram, em numerosos casos, que formas fluídicas de Espíritos desencarnados se tornavam visíveis por via de condensação, ou, antes, de materialização, como o vapor d'água espalhado, em estado invisível, na atmosfera pode, mediante sucessivas transformações, tornar-se visível e tangível, no estado de congelamento.
O perispírito é para nós invisível no seu estado ordinário; sua essência sutil produz um número de vibrações que ultrapassa o nosso campo de percepção visual. Nos casos de materialização, o Espírito é obrigado a absorver dos médiuns, ou de outras pessoas presentes, fluidos mais grosseiros, que assimila aos seus, a fim de adaptar o número de vibrações do seu invólucro à nossa capacidade visual. A operação é delicada, inçada de dificuldades. Entretanto, os casos de aparição de Espíritos são numerosos e se apóiam em respeitáveis testemunhos.
O mais célebre é o do Espírito Katie King que, durante três anos, se manifestou em casa de W. Crookes, o acadêmico inglês, com o concurso da médium Florence Cook. O próprio W. Crookes descreveu essas experiências em uma obra muito vulgarizada.(civ) Katie King e Florence Cook foram vistas lado a lado. Eram de estatura e fisionomia diferentes e distinguia-se entre si por muitas particularidades.
O testemunho de W. Crookes é confirmado pelos Drs. Gully e Sexton, príncipe de Sayn-Wittgensteim, de Hárrison, B. Cóleman, Sergeant Cox, Varley, engenheiros eletricistas, Senhores Florence Maryat, etc., que assistiram, em diferentes lugares, às aparições de Katie.
Em vão procuraram, muitas vezes, insinuar que o Senhor Crookes se havia retratado de suas afirmações. Em 7 de fevereiro de 1909, W Stead, diretor da Review of Reviews, escrevia ao New York American: “Estive com o Senhor Ch. W Crookes no Ghost Club, onde fora jantar, e ele me autoriza a declarar o seguinte: Depois das experiências que, em matéria de espiritualismo, há trinta anos comecei, não vejo motivo algum para modificar minha precedente opinião.”
Outro caso célebre é o do Espírito Abdullah, relatado por Aksakof, conselheiro de Estado russo, em sua obra Animismo e Espiritismo. O Espírito era de tipo oriental e a sua forma tinha mais de 1,80m. de altura, ao passo que o médium Eglinton era de pequena estatura e de tipo anglo-saxônio muito acentuado.
Um sábio americano, Robert Dale Owen, antigo embaixador dos Estados Unidos em Nápoles, consagrou seis anos às experiências de materialização. Declarou ter visto centenas de formas de Espíritos. Em sessão promovida pela Sociedade de Investigações Psíquicas dos Estados Unidos, à qual assistia o Reverendo Savage, célebre pregador, trinta Espíritos materializados apareceram à vista dos assistentes, que neles reconheceram parentes e amigos falecidos. Essas manifestações são freqüentes na América.(cv)
O professor Lombroso, de Turim, conhecido em todo o mundo por seus trabalhos de Fisiologia criminalista, fala também de várias aparições que se produziram em sua presença, com a médium Eusápia Paladino. Nestes termos o refere, em seu livro póstumo Richerche sui fenomeni ipnotici e spiritici, a primeira aparição de seu genitor:
“Em Gênova (1902), estava a médium em estado de semi-inconsciência e eu não esperava obter fenômeno de importância. Antes da sessão, havia-lhe pedido que deslocasse, em plena luz, um pesado tinteiro de vidro. Em tom de voz muito comum, respondeu-me ela: – Porque te ocupas com essas ninharias? Eu sou capaz de coisa bem diferente: sou capaz de te fazer ver tua mãe. Nisso é que deverias pensar!”.
“Impressionado com semelhante promessa, ao fim de meia hora de sessão assaltou-me o mais intenso desejo de vê-la realizado e ao meu pensamento a mesa respondeu com três pancadas. De repente (estávamos em meia-obscuridade, com a luz vermelha), vi sair do gabinete uma forma pequenina, como era a de minha mãe. (Convém notar que a estatura de Eusápia é superior, pelo menos dez centímetros, à de minha mãe.) O fantasma estava envolto num véu; fez o giro completo em torno da mesa até chegar ao pé de mim, murmurando palavras que muitos ouviram, mas que minha semi-surdez impediu-me de perceber. Ao tempo em que, tomado de comoção, lhe suplicava mas repetisse, diz-me ela: Cesare, mio fio! – o que, devo confessar, não era hábito seu. Ela era, com efeito, veneziana e tinha o hábito regional de me dizer: mio fio! Pouco depois, a meu pedido, afastou um momento o véu e me deu um beijo.”
À páginas 93 da mencionada obra lê-se que a mãe do autor lhe reapareceu umas vinte vezes ainda, no curso das sessões de Eusápia.
A objeção favorita dos incrédulos, relativamente a esse gênero de fenômenos, é que eles se produzem na escuridade, tão propícia a fraudes.
Há nessa objeção uma parte de verdade e, por nossa vez, não tem vacilado em denunciar escandalosas fraudes; mas é preciso notar que a escuridade é indispensável às aparições luminosas, que são as mais comuns. A luz exerce ação dissolvente sobre os fluidos, e inúmeras manifestações não podem ter bom êxito senão com a sua exclusão. Há, entretanto, casos em que certos Espíritos puderam aparecer à luz fosfórea. Outros se desmaterializam à plena luz. Sob as irradiações de três bicos de gás, viram Katie King fundir-se pouco a pouco, dissolver-se e desaparecer.(cvi)
A esses testemunhos temos o dever de acrescentar o nosso, relatando um fato de nosso conhecimento pessoal.
Durante dez anos praticamos essa ordem de estudos, com o concurso de um médico de Tours, o Dr. A., e de um capitão arquivista do 94º Corpo. Por intermédio de um deles, mergulhado em sono magnético, os invisíveis nos prometiam, havia muito tempo, uma materialização, quando, uma tarde, achando-nos os três reunidos no consultório do amigo, portas cuidadosamente fechadas e penetrando ainda suficiente claridade pela ampla janela, de modo que nos permitia ver distintamente os menores objetos, ouvimos três pancadas em dado ponto da parede. Era o sinal convencionado.