A nova revelação se efetua sob inesperadas formas, ou, antes, sob formas esquecidas, idênticas, contudo, às que revestiram as primeiras manifestações do Cristianismo.
Este havia começado pelo milagre. Foi com a prova material e a sobrevivência que a religião do Cristo se fundou.(xcvi) O moderno espiritualismo se revela com o concurso do fenômeno. Ora, milagre e fenômeno são duas palavras para exprimir um só e mesmo fato. O sentido diferente que se lhe atribui dá a medida do caminho percorrido pelo espírito humano em dezenove séculos. O milagre é superior à lei natural; o fenômeno submete-se a ela. Não há mais que o efeito de uma causa, a resultante de uma lei. A experiência e a razão têm demonstrado que o milagre é impossível. As leis da Natureza, que são as leis divinas, não poderiam ser violadas, porque são elas que regulam e mantêm a harmonia do Universo. Deus não pode a si mesmo desmentir.
Os fenômenos de além-túmulo são encontrados na base de todas as grandes doutrinas do passado. Em todos os tempos, constantes relações mantinham unidos o mundo invisível e o visível. Na Índia, na Grécia e no Egito, esse estudo era privilégio de reduzido número de investigadores e iniciados; os resultados obtidos se conservavam cuidadosamente ocultos.
Para tornar esses estudos acessíveis a todos, para fazer conhecer as verdadeiras leis que regem o mundo invisível, para ensinar os homens a ver nesses fenômenos não mais uma ordem de coisas sobrenatural, mas um ignorado aspecto da Natureza e da vida, eram necessários o imenso trabalho dos séculos, todas as descobertas da Ciência, todas as conquistas do espírito humano em tal matéria. Era preciso que o homem conhecesse o seu verdadeiro lugar no Universo, aprendesse a ponderar a fraqueza dos seus sentidos, a impotência destes para explorar, por si e sem auxílio, todos os domínios da Natureza viva.
A Ciência, com as suas invenções, atenuou essa imperfeição dos nossos órgãos. O telescópio descerrou ao nosso olhar os abismos do espaço; o microscópio revelou o infinitamente pequeno. A vida apareceu por toda parte, no mundo dos infusórios como na superfície dos globos gigantescos, que rolam na profundeza dos céus. A Física descobriu a transformação das forças, a radioatividade dos corpos e as leis que mantêm o equilíbrio universal: a Química deu a conhecer as combinações da substância. O vapor e a eletricidade vieram revolucionar a face do globo, facilitar as relações dos povos e as manifestações do pensamento, a fim de que a idéia irradie e se propague na esfera terrestre, por todos os seus pontos.
O espírito humano pôde mergulhar os olhos nessa grande Bíblia da Natureza, nesse livro divino que ultrapassa, em toda a sua majestade, as bíblias humanas. Aí leu ele, correntemente, as fórmulas e as leis que presidem às evoluções da vida, à marcha do Universo.
Agora vem o estudo do mundo invisível completar essa magnífica ascensão do pensamento e da Ciência. O problema da outra vida ergue-se diante do espírito humano com um poder, uma autoridade, uma insistência, como nada, talvez, de semelhante se produziu jamais na História. Porque nunca se tinha visto, assim, um conjunto de fatos, de fenômenos a princípio considerados impossíveis, que não despertavam, no conceito da maioria dos nossos contemporâneos, senão a antipatia e o sarcasmo, acabar impondo-se à atenção e ao exame dos mais competentes e autorizados.
Em meados do século transato, o homem, iludido por todas as teorias contraditórias, por todos os sistemas deficientes com que pretenderam nutrir-lhe o pensamento, deixava-se embalar pela dúvida; perdia cada vez mais a noção da vida futura. Foi então que o mundo invisível veio ter com ele e o perseguiu até em sua própria casa. Por diversos meios, os mortos manifestaram-se aos vivos. As vozes de além-túmulo falaram. Os mistérios dos santuários orientais, os fenômenos ocultos da Idade Média, depois de longo silêncio, se renovaram e nasceu o Espiritismo.
Foi além-mar, num mundo novo e rico de energia vital, de ardente expansão, menos escravizado que a velha Europa ao espírito de rotina e aos preconceitos do passado – foi na América do Norte que se produziram às primeiras manifestações do moderno Espiritualismo. De lá se espalharam por todo o globo. Essa escolha era profundamente judiciosa. A livre América era, justamente, o meio propício para a obra de difusão e renovação. Por isso, nela se contam hoje vinte milhões de “neo-espiritualistas”.
De um lado, porém, como do outro do Atlântico, foram idênticas as fases de progressão da idéia espírita.
Nos dois continentes, o estudo do magnetismo e dos fluidos havia preparado certos espíritos para a observação do mundo invisível.
A princípio, fatos estranhos se produziram de todos os lados, fatos de que se não atreviam as pessoas a falar senão à meia voz, na intimidade. Depois, pouco a pouco, elevou-se o diapasão. Homens de talento, sábios cujos nomes são outras tantas garantias de honorabilidade e sinceridade, ousaram falar bem alto de tais fatos e afirmá-los. Tratou-se de hipnotismo, de sugestão; vieram depois a telepatia, os casos de levitação e todos os fenômenos do Espiritismo.
Mesas giravam num doido rodopio, objetos se deslocavam sem contacto, ressoavam pancadas nas paredes e nos móveis. Todo um conjunto de manifestações se produzia, vulgares na aparência, mas perfeitamente adaptadas às exigências do meio terrestre, ao estado de espírito positivo e céptico das sociedades modernas.
O fenômeno falava aos sentidos, porque os sentidos são como as brechas por onde o fato penetrará até ao entendimento. As impressões produzidas no organismo despertam a surpresa, provocam a investigação, levam à convicção.
Depois da primeira fase, material e grosseira, as manifestações revestiram novo aspecto. As pancadas vibradas se regularizaram e tornaram um modo de comunicação inteligente e consciente. A possibilidade de relações entre o mundo visível e o invisível surgiu como fato extraordinário, subvertendo as idéias estabelecidas, abalando os ensinos habituais, mas franqueando sobre a vida futura umbrais que o homem hesitava ainda em transpor, deslumbrado como estava com as perspectivas que se lhe antolhavam.
À medida que se ia propagando, via o Espiritismo levantarem-se contra ele numerosas oposições. Como todas as concepções novas, teve que afrontar o desprezo, a calúnia, a perseguição moral. Do mesmo modo que a idéia cristã em seu começo, foi cumulado de animosidade e de injúrias. É sempre assim. Quando novos aspectos da verdade se apresentam aos homens, é sempre a desconfiança e a hostilidade o que provocam.
E isso é fácil de compreender. A Humanidade esgotou as velhas formas do pensamento e da crença; e quando as novas, inesperadas formas da verdade se revelam, parece corresponderem mui pouco ao ideal antigo, que está enfraquecido, mas não morto. Por isso, é necessário um período assaz longo de exame, de reflexão, de incubação, para que a idéia nova abra caminho nos espíritos. Daí as incertezas e sofrimentos da primeira hora.
Muito se tem ridiculizado as formas que o novo espiritualismo revestia. Mas as potências invisíveis que velam pela humanidade são melhores juízes que nós, dos meios de ação e de atração que convêm adotar, conforme os tempos e os lugares, para conduzir o homem à noção do seu papel e dos seus destinos, sem lhe estorvar o livre-arbítrio. Porque está nisso o essencial: é preciso que a liberdade do homem seja integralmente respeitada.
A vontade superior sabe apropriar às necessidades de uma época e de uma raça as novas formas da revelação eterna. É ela que suscita no seio das sociedades os pensadores, os experimentadores, os sábios que indicarão o caminho a seguir e colocarão os primeiros marcos. Sua obra desenvolve-se lentamente. Fracos e insensíveis, a princípio, os resultados, mas a idéia penetra pouco a pouco nas inteligências. O movimento, embora imperceptível, não deixa, por isso mesmo, de ser às vezes mais seguro e mais profundo.
Em nossa época, a Ciência veio a ser a soberana mestra, a diretora do movimento intelectual. Fatigada das especulações metafísicas e dos dogmas religiosos, a Humanidade reclamava provas palpáveis, sólidas bases em que pudesse repousar as suas convicções. Apegava-se ao estudo experimental, à observação dos fatos como a uma tábua de salvação. Daí, o grande crédito dos homens de ciência no momento que atravessamos. Por isso é que a revelação tomou um caráter científico. Foi por meio de fatos materiais que se atraiu a atenção dos homens, tornados eles próprios materiais.
Os misteriosos fenômenos que se encontram disseminados na história do passado renovaram-se e multiplicaram-se ao redor de nós; sucederam-se em ordem progressiva, que parece indicar um plano preconcebido, decorrente de um pensamento, de uma vontade.
Efetivamente, à proporção que o novo espiritualismo ganhava terreno, transformavam-se os fenômenos. As manifestações grosseiras do princípio se modificavam, revestiam caráter mais elevado. Médiuns recebiam, por meio da escrita, de um modo mecânico ou intuitivo, comunicações, inspirações de estranha fonte. Instrumentos de música tocavam sem contacto. Escutavam-se vozes e cantos; melodias penetrantes parecia descerem do céu e perturbaram os mais incrédulos. A escrita direta produzia-se do lado interior de ardósias justapostas e lacradas. Fenômenos de incorporação permitiam aos falecidos tomar posse do organismo de um sensitivo adormecido. Gradualmente, e como que em conseqüência de um desdobramento calculado, apareciam os médiuns videntes, falantes, curadores.
Finalmente, os habitantes do espaço, revestindo temporários invólucros, vinham misturar-se com os humanos, vivendo um instante da sua vida material e terrestre, deixando-se ver, palpar, fotografar, dando impressões de mãos, de rostos, esvaecendo-se em seguida para retomar o seu estado etéreo.