Tudo isto, é verdade, não passa de uma teoria mais racional do que a outra. Porém, já é muito que seja uma teoria que nem a razão nem a Ciência contradizem. Além disso, ela é corroborada pelos fatos e tem a seu favor a sanção do raciocínio e da experiência. Encontramos esses fatos nos fenômenos das manifestações espíritas, que constituem, assim, a prova patente da existência e da sobrevivência da alma. Entretanto, a crença de muita gente não passa desse ponto; admitem a existência das almas e, conseguintemente, a dos Espíritos, mas negam a possibilidade de nos comunicarmos com eles, pela razão, dizem, de que seres imateriais não podem atuar sobre a matéria. A dúvida tem como causa a ignorância da verdadeira natureza dos Espíritos, dos quais em geral fazem ideia muito falsa, supondo-os seres abstratos, vagos e indefinidos, o que não é verdade.
Figuremos, primeiramente, o Espírito em sua união com o corpo. Ele é o ser principal, pois é o ser que pensa e sobrevive. O corpo não passa de um acessório do Espírito, de um envoltório, de uma veste, que ele deixa quando está usada. Além desse envoltório material, o Espírito tem um segundo, semimaterial, que o liga ao primeiro. Por ocasião da morte, despoja-se deste, porém não do outro, a que damos o nome de perispírito. Esse envoltório semimaterial, que tem a forma humana, constitui para o Espírito um corpo fluídico, vaporoso, mas que, pelo fato de nos ser invisível no seu estado normal, não deixa de ter algumas das propriedades da matéria. O Espírito não é, pois, um ponto, uma abstração, mas um ser limitado e circunscrito, ao qual só falta ser visível e palpável para se assemelhar aos seres humanos. Por que, então, não haveria de atuar sobre a matéria? Por ser fluídico o seu corpo? Porém, não é entre os fluidos mais rarefeitos, mesmo entre os que se consideram imponderáveis, como a eletricidade, que o homem encontra seus mais possantes motores? A luz imponderável não exerce ação química sobre a matéria ponderável? Não conhecemos a natureza íntima do perispírito. Imaginemo-lo, todavia, formado de matéria elétrica, ou de outra tão sutil quanto esta; por que, quando dirigido por uma vontade, não teria a mesma propriedade daquela matéria?