Capítulo 1
Desde que se admite a existência da alma e sua individualidade após a morte, é preciso que se admita, também: 1ᵒ, que a sua natureza é diferente da do corpo, visto que, separada deste, deixa de ter as propriedades peculiares ao corpo; 2ᵒ, que goza da consciência de si mesma, pois é passível de alegria ou sofrimento, sem o que seria um ser inerte e de nada nos valeria possuí-la. Isto posto, tem-se que admitir que essa alma vai para alguma parte. Que vem a ser feito dela e para onde vai? Segundo a crença vulgar, a alma vai para o Céu, ou para o inferno. Mas onde ficam o Céu e o inferno? Antigamente se dizia que o Céu era em cima e o inferno embaixo. Porém, o que são o alto e o baixo no Universo, uma vez que se conhece a redondeza da Terra e o movimento dos astros, movimento que faz com que em dado instante o que está no alto esteja, doze horas depois, embaixo, e o infinito do espaço, através do qual o olhar penetra, indo a distâncias consideráveis? É verdade que por lugares inferiores também se designam as profundezas da Terra. Mas que vêm a ser essas profundezas, desde que a Geologia as investigou? Que ficaram sendo, igualmente, as esferas concêntricas chamadas céu de fogo, céu das estrelas, desde que se verificou que a Terra não é o centro dos mundos, que mesmo o nosso Sol não é único, que milhões de sóis brilham no espaço, constituindo cada um o centro de um turbilhão planetário? A que ficou reduzida a importância da Terra, perdida nessa imensidade? Por que injustificável privilégio este imperceptível grão de areia, que não se distingue pelo seu volume, nem pela sua posição, nem por um papel particular, seria o único planeta povoado de seres racionais? A razão se recusa a admitir essa inutilidade do infinito e tudo nos diz que esses mundos são habitados. Ora, se são povoados, também fornecem seus contingentes para o mundo das almas. Ainda uma vez, que terá sido feito dessas almas, depois que a Astronomia e a Geologia destruíram as moradas que lhes estavam destinadas e, sobretudo, depois que a teoria, tão racional, da pluralidade dos mundos, as multiplicou ao infinito? Não podendo a doutrina da localização das almas se harmonizar com os dados da Ciência, outra doutrina mais lógica lhes deve marcar o domínio, não um lugar determinado e circunscrito, mas o espaço universal: é todo um mundo invisível, no meio do qual vivemos, que nos cerca e nos acotovela incessantemente. Haverá nisso alguma impossibilidade, alguma coisa que repugne à razão? De modo nenhum; tudo, ao contrário, nos diz que não pode ser de outra maneira. Mas, então, em que se transformam as penas e recompensas futuras, se lhes suprimis os lugares especiais onde se efetivam? Notai que a incredulidade, com relação ao local das penas e recompensas, é provocada pelo fato de umas e outras serem apresentadas, em geral, em condições inadmissíveis. Dizei, em vez disso, que as almas tiram de si mesmas a sua felicidade ou a sua desgraça; que a sorte delas está subordinada ao estado moral de cada uma; que a reunião das almas boas e afins constitui para elas uma fonte de felicidade; que, de acordo com o grau de purificação que tenham alcançado, penetram e entreveem coisas que almas grosseiras não distinguem, e todo mundo compreenderá sem dificuldade. Dizei também que as almas não atingem o grau supremo senão pelos esforços que façam para se melhorarem e depois de uma série de provas adequadas à sua purificação; que os anjos são almas que alcançaram o último grau da escala, grau que todas podem atingir, desde que tenham boa vontade; que os anjos são os mensageiros de Deus, encarregados de velar pela execução de seus desígnios em todo o Universo, que se sentem felizes com o desempenho dessas missões gloriosas, e tereis dado à felicidade deles um fim mais útil e mais atraente, do que a fazendo consistir numa contemplação perpétua, que não passaria de perpétua inutilidade. Dizei, finalmente, que os demônios são simplesmente as almas dos maus, ainda não purificadas, mas que podem, como as outras, alcançar o mais alto grau da perfeição, e isto parecerá mais conforme à justiça e à bondade de Deus, do que a doutrina que os apresenta como seres criados para o mal e perpetuamente devotados ao mal. Ainda uma vez: tendes aí o que a mais severa razão, a mais rigorosa lógica, o bom senso, em suma, podem admitir. Ora, essas almas que povoam o espaço são justamente aquilo a que chamamos Espíritos. Assim, pois, os Espíritos são apenas as almas dos homens, despojadas do invólucro corpóreo. Se os Espíritos fossem seres à parte, sua existência seria mais hipotética. Se, porém, se admitir que há almas, há que se admitir também os Espíritos que são simplesmente as almas e nada mais. Se se admitir que as almas estão por toda parte, ter-se-á que admitir igualmente que os Espíritos estão por toda parte. Não se pode, pois, negar a existência dos Espíritos sem negar a das almas.
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Há Espíritos?
Item 2