Mistificador do povo simplório e rude, não passais de reles sedutor de moças impressionáveis. Insultais uma viúva e um homem honesto, qual sou, insinuando -vos no espírito frágil de uma órfã de pai. Espumava de cólera. Paulo ouviu -lhe as diatribes, com grande presença de espírito. Quando o moço cansou de esbravejar, o Apóstolo tomou o manto, fez um gesto de despedida e acentuou: — Quando somos sinceros, estamos em repouso invulnerável; mas cada um aceita a verdade como pode. Pensa, pois, e en tende como puderes. E abandonou o recinto para ir ter com Barnabé. Os parentes de Tecla, porém, não descansaram em face do que consideravam um ultraje. Na mesma noite, valendo -se do pretexto, as autoridades judaicas de Icômo ordenaram a prisão do emissário da Boa Nova. A fileira dos descontentes afluiu à porta de Onesíforo, vociferando impropérios. Apesar da interferência dos amigos, Paulo foi arrastado ao cárcere, onde sofreu o suplício dos trinta e nove açoites. Acusado como sedutor e inimigo das tradiçõe s da família, ao demais blasfemo e revolucionário, foi indispensável muita dedicação dos confrades recém-convertidos para restituir -lhe a liberdade. Depois de cinco dias de prisão com severos castigos, Barnabé o recebeu exultante de alegria. O caso de Tecla revestira proporções de grande escândalo, mas o Apóstolo, na primeira noite de liberdade, reuniu a igreja doméstica, fundada com Onesíforo, e esclareceu a situação, para conhecimento de todos. Barnabé considerou impossível ali ficarem por mais tempo. Novo atrito com as autoridades poderia prejudi car-lhes a tarefa. Paulo, entretanto, mostrava -se bastante resoluto. Se preciso, voltaria a pregar o Evan gelho na via pública, revelando a verdade aos gentios, já que os filhos de Israel se comp raziam nos desvios clamorosos. Chamado a opinar, Onesíforo ponderou a situação da pobre moça, transformada em objeto da ironia po pular. Tecla era noiva e órfã de pai. Tamíris havia criado a lenda de que Paulo não passava de poderoso feiticeiro. Se, na qualidade de noiva, ela fosse encontrada novamente junto do Apóstolo, mandava a tradição que fosse condenada à fogueira. Ciente das superstições regionais, o ex -rabino não hesitou um minuto. Deixaria Icônio, no dia imediato. Não que capitulasse diante do inim igo invisível, mas porque a igreja estava fundada e não era justo cooperar no martírio moral de uma criança. A decisão do Apóstolo mereceu aprovação geral. Assentaram -se as bases para a continuação do apren dizado evangélico. Onesiforo e os demais irmãos assumiram o compromisso de velar pelas sementes recebidas como dádiva celestial. No curso das conversações, Barnabé estava pensativo. Para onde iriam? Não seria justo pensar na volta? As dificuldades avultavam dia a dia e a saúde de ambos, desde a internaç ão nas margens do Cestro, era muito inconstante, O discípulo de Pedro, contudo, conhecendo o ânimo e o espírito de resolução do companheiro, esperou pacientemente que o assunto aflorasse espontânea e naturalmente. Em socorro dos seus cuidados, um dos amig os presentes interrogou Paulo com vivacidade. — Quando pretendem partir? — Amanhã — respondeu o Apóstolo. — Mas, não será melhor repousar alguns dias? Tendes as mãos inchadas e o rosto ferido pelos açoites. O ex-doutor sorriu e falou prazenteiro: O serviço é de Jesus e não nosso. Se cuidarmos muito de nós mesmos, nesse capítulo de sofrimentos, não daremos conta do recado; e se paralisarmos a marcha nos lances difíceis, ficaremos com os tropeços e não com o Cristo. Seus argumentos pitorescos e concludentes espalhavam uma atmosfera de bom-humor. — Voltareis a Antioquia? — perguntou Onesíforo com atenção. Barnabé aguçou os ouvidos para conhecer detalha damente a resposta, enquanto o companheiro retrucava: — Certo que não: Antioquia já recebeu a Boa Nova da r edenção. E a Licaônia? Olhando agora para o ex -levita de Chipre, como a solicitar a sua aprovação, acentuava: — Marcharemos para a frente. Não estás de acor do, Barnabé? Os povos da região precisam do Evangelho. Se estamos tão satisfeitos com as notícias do Cristo, por que negá -las aos que necessitam do batismo da ver dade e da nova fé?... O companheiro fez um sinal afirmativo e concordou, resignado: — Sem dúvida. Iremos para a frente; Jesus nos auxiliará. E os presentes passaram a comentar a posição de Lis tra, bem como os costumes interessantes da sua gente simples. Onesíforo tinha lá uma irmã viúva, por nome Lóide. Daria uma carta de recomendação aos missionários. Seriam hóspedes de sua irmã, durante o tempo que precisassem. Os dois pregoeiros do Evangelho rejubilaram-se. Principalmente Barnabé não cabia em si de contenta mento, afastando a idéia triste de ficarem completamente isolados. No dia seguinte, sob comovidos adeuses, os missio nários tomavam a estrada que os conduziria ao novo campo de lutas. Após viagem penosíssima, chegaram à pequena cida de, num crepúsculo pardacento. Estavam exaustos. A irmã de Onesíforo, no entanto, foi pródiga em gentilezas. Velha viúva de um grego abastado, Lóide morava em companhia de sua filha Eunice, igualmente viúva, e de seu neto Timóteo, cuja inteligência e genero sos sentimentos de menino constituíam o maior encanto das duas senhoras. Os mensageiros da Boa Nova foram recebidos nesse lar com inequívocas provas de simpatia. O inexcedível carinho dessa família foi um bál samo confortador para ambos. Conforme seu hábito, Paulo referiu -se na primeira oportunidade ao desejo imenso de trabalhar, durante o tempo de sua permanên cia em Listra, de modo a não se tornar passível de male dicência ou crítica, mas a dona da casa opôs-se terminantemente. Seriam seus hóspedes. Bastava a recomendação de Onesíforo para que ficassem tranqüilos. Além disso, explicava: Listra era uma cidade muito pobre, possuia apenas duas tendas humildes, onde nunca se faziam tapetes. Paulo estava muito sensibilizado com o acolhimento carinhoso. Na mesma noite da chegada, observou a ternura com que Timóteo, tendo pouco mais de treze anos, tomava os pergaminhos da Lei de Moisés e os Escritos Sagrados dos Profetas. Deixou o Apóstolo que as duas senhoras come ntassem as revelações em companhia do mesmo, até que fosse chamado a intervir. Quando tal se deu, aproveitou o ensejo para fazer a primeira apresentação do Cristo ao coração enlevado dos ouvintes. Tão logo começou a falar, observou a profunda impressão das duas mulheres, cujos olhos brilha vam enternecidos; mas o pequeno Timóteo ouvia -o com tais demonstrações de interesse que, muitas vezes, lhe acariciou a fronte pensativa. Os parentes de Onesíforo receberam a Boa Nova com júbilos infinitos. No dia imediato não se falou de outra coisa. O rapaz fazia interrogações de toda espécie. O Apóstolo, porém, atendia -o com alegria e interesse fraternais. Durante três dias os missionários entregaram -se a caridoso descanso das energias físicas. Paulo aproveitou a oca sião para conversar largamente com Timóteo, junto do grande curral onde as cabras se recolhiam. Somente no sábado, procuraram tomar contacto mais íntimo com a população. Listra estava cheia das mais estranhas lendas e crendices. As famílias judaicas eram m uito raras e o povo simplório aceitava como verdades todos os símbolos mitológicos. A cidade não possuia sina goga, mas um pequeno templo consagrado a Júpiter, que os camponeses aceitavam como o pai absoluto dos deuses do Olimpo. Havia um culto organizado. As reuniões efetuavam-se periodicamente, os sacrifícios eram numerosos. Numa praça nua movimentava -se. O mercado parco, pela manhã. Paulo compreendeu que não encontraria melhor local para o primeiro contacto direto com o povo. De cima de uma tribuna impr ovisada de pedras superpostaS, começou a pregação em voz forte e comove dora. Os populares aglomeraram -se de súbito. Alguns surgiam das casas pacíficas, para verificar o motivo do compacto ajuntamento. Ninguém se lembrou das aquisições de carne, de frutas , de verduras. Todos queriam ouvir o desconhecido forasteiro. O Apóstolo falou, primeiramente, das profecias que haviam anunciado a vinda do Nazareno e, em seguida. passou a relatar os feitos de Jesus entre os homens. Pintou a paisagem da Galiléia com as c ores mais brilhantes do seu génio descritivo, falou da humildade e da abne gação do Messias. Quando se referia às curas prodigiosas que o Cristo realizara, notou que um pequeno grupo de assistentes lhe dirigiam chufas. Inflamado de fervor na sua parenética, Paulo recordou o dia em que vira Estevão curar uma jovem muda, em nome do Senhor. Crente de que o Mestre não o desampararia, passeou o olhar pela turba numerosa. A distância de alguns metros enxergou um mendigo miserável, que se arrastava penosamente. Impressionado com o discurso evan gélico, o aleijado de Listra aproximou -se. bracejando no solo e, sentando -se com dificuldade, fixou os olhos no pre gador que o observava sumamente comovido. Renovando os valores da sua fé, Paulo contemplou -o com energia e falou com autoridade: — Amigo, em nome de Jesus, levanta -te! O mísero, olhos fixos no Apóstolo, levantou -se com fácilidade, enquanto a multidão dava gritos, surpreen dida. Alguns recuaram aterrados. Outros procuraram o vulto de Paulo e o de Barnabé, conte mplando-os, deslumbrados e satisfeitos. O aleijado começou a saltar de alegria. Conhecido na cidade, de longa data, a cura prodigiosa não deixava a menor dúvida. Muitas pessoas se ajoelharam. Outras correram aos quatro cantos de Listra para anunciar que o povo havia recebido a visita dos deuses. A praça encheu-se em poucos minutos. Todos queriam ver o mendigo reinte grado nos seus movimentos livres. Espalhou -se o sucesso, rapidamente. Barnabé e Paulo eram Júpiter e Mercúrio descidos do Olimpo. Os Apóstolos , jubilosos com a dádiva de Jesus, mas, profundamente surpreendidos com a atitude dos licaônios, perceberam logo o mal -entendido.