Quanto aos movimentos sísmicos, às tempestades, às inundações, notemos que têm suas leis. Essas leis basta conhecerias, para se lhes previrem e atenuar os efeitos. Quando se estudam os fenômenos da Natureza e o pensamento penetra no fundo das coisas, reconhece-se isto: o que é um mal, na aparência, se torna, em realidade, um bem.(31) A grandeza do espírito humano consiste em elevar-se da confusão, do caos das contingências à concepção da ordem geral. Ele pode então sentir-se em segurança no meio dos perigos do mundo, porque compreendeu as grandes leis que, à custa de alguns acidentes, asseguram o equilíbrio da vida e a salvação das raças humanas.
O homem no qual o sentido profundo, o sentido das coisas divinas ainda não despertou, o céptico, em uma palavra, quaisquer que sejam sua inteligência e seu saber em outras matérias, recusa-se a admitir essas coisas. Seria tão supérfluo insistir, quanto explicar a um cego de nascença as cores do Sol e das auroras, os jogos da luz sobre as águas ou sobre as geleiras. Ser-lhe-ão necessários choques da adversidade, o concurso das circunstâncias dolorosas, que o colocarão em contacto direto com o seu destino e lhe farão sentir, juntamente com a utilidade dos sofrimentos, essas noções de sacrifício e de esperança pelas quais a vida toma seu sentido real e elevado.
Somente, então, poderá penetrar o grande mistério do Universo, e compreender que tudo tem sua razão de ser, que a dor tem seu papel, e que podemos tirar proveito de tudo, da provação, da moléstia e da própria morte, porque tudo, segundo o uso que fazemos, pode concorrer para o nosso adiantamento, para o nosso melhoramento moral. Desde então, a confiança e a fé o ajudarão a suportar pacientemente o inevitável, a abolir a desventura presente, a sofrer em paz. O conhecimento da Lei lhe dá a certeza de melhores dias e de um futuro sem-fim.
A partir desse dia, sua vida, tão obscura, tão vulgar, incolor que é, iluminar-se-á de um raio de luz e de poesia, porque a poesia mais verdadeira é feita da ressonância íntima da sinfonia eterna e do acordo de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e de nossos atos com a pauta de nosso destino.
Falando qual o fizemos no correr destas páginas, seremos, sem dúvida, acusados de misticismo por mais de uma vez. Mas todos aqueles cuja sensibilidade e juízo despertaram, que se desenvolveram sob a ação das provações e das lutas da existência, saberão compreender-nos.
Certos espíritos terra-a-terra são inclinados a acoimar de místicos, de alucinados, de visionários, todos aqueles cujas percepções excedem o circuito limitado de seus pensamentos habituais. Supõem-se espíritos muito positivos e muito práticos, ao passo que, na realidade, as almas evolvidas, libertas dos preconceitos e das paixões, desdenhosas dos pequenos interesses materiais, têm, somente elas, a intuição das grandes e altas realidades da vida.
Em resumo, a Natureza e a Alma são irmãs, com esta diferença: uma evolve invariavelmente, segundo um plano estabelecido, e a outra, por si mesma, esboça, em uma página em branco, as grandes linhas do seu destino. São irmãs, porque provêm ambas da mesma Causa eterna e estão unidas por milhares de laços. É o que explica o império da Natureza sobre os seres. A Natureza atua sobre as Almas sensíveis qual o magnetizador sobre o seu paciente, provocando o desligamento do Espírito de sua crisálida de carne. Então, na plenitude de faculdades psíquicas, a Alma percebe um mundo superior e divino que escapa à maior parte das inteligências.
Nunca esqueçamos isto: Tudo que cai sob os sentidos físicos, tudo que é do domínio material, é transitório, submetido à lei da destruição, à morte. As realidades profundas, eternas, pertencem ao mundo das causas, ao domínio do invisível. Nós próprios pertencemos a esse mundo, pela parte imperecível de nosso ser.
Eis que, pouco a pouco, a experimentação psíquica e as descobertas dela decorrentes se propagam e se estendem. O conhecimento do duplo fluídico do homem, sua ação à distância, antes e depois da morte, a aplicação das forças magnéticas, a manifestação das potências invisíveis, vêm demonstrar a todo observador atento que o mundo dos sentidos é uma pobre e obscura prisão, comparada ao domínio imenso e radioso aberto ao Espírito.(32)
Os sentidos interiores e as faculdades profundas da Alma dormitam ainda na maior parte dos homens que ignoram suas riquezas escondidas, seus poderes latentes. É essa a razão pela qual seus atos se ressentem de falta de base, de ponto de apoio. Daí, tantas fraquezas e desfalecimentos. Mas a hora do despertar está próxima. O homem aprende a conhecer sua Alma, a extensão de seus poderes, de seus atributos; desde logo a separação e a morte deixarão de existir para ele; a maior parte das misérias que nos assediam desaparecerão, nossos amigos do Espaço virão mais facilmente nos visitar, corresponder conosco. Uma comunhão íntima se estabelecerá entre o Céu e a Terra, e a Humanidade entrará em fase mais alta e mais bela de seus gloriosos destinos.
Com a vista enfraquecida pelo trabalho, lanço ainda um olhar sobre esses céus que me atraem e sobre essa Natureza que eu amo. Saúdo os mundos que serão mais tarde nossa recompensa: Júpiter, Sírius, Orion, as Plêiades e essas miríades de focos, cujos raios trêmulos têm tantas vezes vertido em minha Alma ansiosa a paz serena e as inefáveis consolações.
Em seguida, do Espaço, lanço meu olhar para esta Terra que foi meu berço e será meu túmulo. Ó Terra, planeta, nossa mãe, campo de nossos labores e de nossos progressos, onde, lentamente, através da obscuridade das idades, minha consciência desabrocha com a consciência da Humanidade, tu flutuas no Infinito, acalentada pelos eflúvios divinos; derramas em volta de ti as vibrações potentes da vida que se agita em teu seio. Dir-se-ia uma harmonia confusa, feita de rumores e de vagidos, uma harmonia que sobe do meio dos mares e dos continentes, dos vales e das florestas, dos rios e dos bosques, e à qual se mistura a queixa humana: murmúrio das paixões, vozes de dor, ruídos de trabalho e cânticos de festa, gritos de furor e choques de exércitos. Às vezes, também, notas calmas e graves dominam esses rumores; a melodia humana substitui as harmonias da Natureza e o ruído das forças em ação; o cântico da Alma, liberta das servidões inferiores, saúda a luz. Um cântico de esperança sobe para Deus em hosana, numa prece.
É tua alma, ó Terra! Que desperta e faz esforços para sair de obscura ganga, para misturar sua irradiação e sua voz às irradiações e às harmonias dos mundos siderais. É tua alma que canta à alba renascente da Humanidade, porque esta desperta a seu turno, sai da noite material, do abismo de suas origens. A alma da Humanidade, que é a da Terra, busca-se, aprende a conhecer-se, a penetrar sua razão de ser; pressente seus grandes destinos, quer realizá-los.
Prossegue tua carreira, Terra que eu amo! Muitas vezes, já, meu Espírito sorveu em teus elementos as formas necessárias à sua evolução. Durante séculos, ignorante e bárbaro, percorri teus caminhos, tuas florestas, voguei sobre teus oceanos, nada sabendo das coisas essenciais, nem do fim a atingir.
Mas, eis que, chegando ao entardecer da vida, há essa hora crepuscular em que uma nova tarefa se acaba, em que as sombras se elevam à vontade e cobrem todas as coisas com seu véu melancólico, considero o caminho percorrido; em seguida, dirijo meus olhares para diante, para a clareira que se vai abrir para mim no Além e para suas claridades eternas.
Há esta hora, em que minha Alma se separa, pouco a pouco, de teus liames, ó Terra, e se prepara para te deixar –, ela compreende o fim e a lei da vida. Consciente do teu papel e do meu, reconhecido a teus benefícios, sabendo por que existo, por que ajo e como é preciso agir, eu te bendigo, ó Terra, por todos os gozos e por todas as dores, pelas provações salutares que me proporcionaste, porque, em tudo que te devo – sensações, emoções, prazeres, sofrimentos –, reconheço os instrumentos de minha educação, de minha elevação. Eu te bendigo e te amo feliz, quando te deixar, pelo pensamento de voltar mais tarde, em nova existência, para trabalhar ainda, para sofrer, para me aperfeiçoar contigo, contribuindo, por meus esforços, para o teu progresso e o de meus irmãos, que são também teus filhos.