Os motivos de suicídio são de ordem passageira e humana; as razões de viver são de ordem eterna e sobre-humana. A vida, resultado de um passado completo, instrumento de futuro, é, para cada um de nós, o que deve ser na balança infalível do destino. Aceitemos com coragem suas vicissitudes, que são outros tantos remédios para as nossas imperfeições, e saibamos esperar com paciência a hora fixada pela lei eqüitativa para termo da nossa permanência na Terra.
O conhecimento que nos tiver sido possível adquirir das condições da vida futura exerce grande influência em nossos últimos momentos; dá-nos mais segurança; abrevia a separação da alma. Para nos prepararmos com proveito para a vida do Além, é preciso não somente estarmos convencidos da sua realidade, mas também lhe compreender as leis, ver com o pensamento as vantagens e as conseqüências dos nossos esforços para o ideal moral. Os nossos estudos psíquicos, as relações estabelecidas durante a vida com o mundo invisível, as nossas aspirações às formas de existência mais elevadas, desenvolvem as nossas faculdades latentes e, quando chega a hora definitiva, como se encontra já em parte efetuada a separação do corpo, a perturbação pouco dura. O Espírito reconhece-se quase logo: tudo o que vê lhe é familiar; adapta-se sem esforço e sem emoção às condições no novo meio.
Quando se aproxima a hora derradeira, os moribundos entram muitas vezes na posse dos seus sentidos psíquicos e percebem os seres e as coisas do Invisível. Numerosos são os exemplos. Apresentamos alguns, extraídos das investigações feitas pelo Sr. Ernesto Bozzano, cujos resultados foram publicados pelos Annales des Sciences Psychiques, de março de 1906:
1° caso – Num livro que conta a vida do Rev. Dwight L. Moody (fervoroso propagandista evangélico nos Estados Unidos), escrita por seu filho (pág. 485), encontra-se a seguinte narrativa dos seus últimos momentos:
“Ouviram-no, de repente, murmurar: “A Terra afasta-se, o céu abre-se diante de mim; passei os seus últimos limites. Não me chameis outra vez; tudo isto é belo; dir-se-ia uma visão de êxtase. Se isto é a morte, como é suave...” Seu rosto reanimou-se e, com uma expressão de alegre enlevo: “Dwight! Irene! Vejo as crianças!” (fazia alusão a dois dos seus netos que tinham morrido). Depois, voltando-se para sua mulher, disse-lhe: “Tu foste sempre uma boa companheira para mim.” Depois dessas palavras, perdeu os sentidos.”
2º caso – O Sr. Alfred Smedley, a págs. 50 e 51 da sua obra Some Reminiscences, conta do seguinte modo os últimos momentos de sua mulher:
“Alguns momentos antes da sua morte, os olhos se lhe fixaram em alguma coisa que pareceu enchê-los de viva e agradável surpresa. Então disse:
– Como! Estão aqui minha irmã Carlota, minha mãe, meu pai, meu irmão João, minha irmã Maria! Agora, trazem-me também Bessy Heap! Estão todos aqui. Oh! como isto é belo, como isto é belo! Não os estás vendo?
– Não, minha querida – respondi – e muito sinto.
– Então, não os podes ver – repetiu a doente com surpresa – . Não obstante, todos estão aqui, vieram para me levar com eles. Uma parte da nossa família já atravessou o grande mar e não tardaremos a achar-nos todos reunidos na nova mansão celeste.
Acrescentarei aqui que Bessy Heap tinha sido uma criada muito fiel, muito afeiçoada à nossa família, e que sempre tivera por minha mulher particular estima.
Depois dessa visão extática, a doente ficou algum tempo como exausta; finalmente, voltando fixamente a vista para o céu e erguendo os braços, expirou.” 3º caso – O Dr. Paul Edwards escrevia, em abril de 1903, ao
diretor de Light, de Londres:
“Aí por volta do ano de 1887, quando eu habitava uma cidade da Califórnia, fui chamado para junto da cabeceira de uma amiga a quem dedicava grande estima e que se achava na hora extrema, em conseqüência de uma doença do peito. Toda gente sabia que essa mulher pura e nobre, mãe exemplar, estava votada a morte iminente. Ela acabou também por assim o compreender e quis então preparar-se para o grande momento. Tendo mandado vir os filhos para junto do leito, beijava ora um, ora outro, mandando-os depois retirar. O marido aproximou-se por último para dar-lhe e receber o adeus supremo. Achou-a na plena posse das suas faculdades intelectuais. Ela começou por dizer:
– Newton (era o nome do marido), não chores, porque eu não sofro e tenho a alma pronta e serena. Amei-te na Terra; continuarei a amar-te depois de partir. É meu intento vir até ti, se me for possível; se não puder, velarei do céu por ti, por meus filhos, esperando a tua vinda. Agora, o meu mais vivo desejo é ir-me embora... Avisto algumas sombras que se agitam em volta de nós... todas vestidas de branco... Ouço uma melodia deliciosa... Oh! aí está a minha Sadie! Está perto de mim e sabe perfeitamente quem eu sou. (Sadie era uma filhinha que ela perdera havia dez anos.)
– Sissy – disse-lhe o marido – minha Sissy, não vês que estás sonhando?!
– Ah! meu caro – respondeu a doente –, por que me chamaste? Agora, custar-me-á mais a ir-me embora. Sentia-me tão feliz no Além, era tão delicioso, tão belo!
Três minutos depois, aproximadamente, acrescentou a agonizante:
– Vou-me novamente embora e, desta vez, não voltarei, ainda que me chames.
Durou esta cena oito minutos. Via-se bem que a agonizante gozava da visão completa dos dois mundos ao mesmo tempo, porque falava das figuras que se moviam ao seu derredor no Além e, simultaneamente, dirigia a palavra aos mortais deste mundo... Nunca me sucedeu assistir a morte mais impressionante, mais solene.” Os “Annales” relatam igualmente grande número de casos em
que o doente percebe aparições de defuntos, cujo falecimento
ignorava. Cinco casos sensacionais encontram-se nos
Proceedings of the S. P. R., de Londres. Esses casos apóiam-se
em testemunhos de alto valor.
O Sr. Ernesto Bozzano, ao terminar a sua exposição, pergunta se esses fenômenos poderiam ser explicados pela subconsciência ou pela leitura do pensamento. Conclui pela negativa e assim se exprime:(115)
“Essas hipóteses pouco se recomendam pela simplicidade e não têm o dom de convencer facilmente um investigador imparcial. É claro que, com semelhantes teorias, tão embrulhadas e muito mais engenhosas do que sérias, se ultrapassam as fronteiras da indução científica para mergulhar-se no domínio ilimitado do fantástico.” (116) Enfim, eis dois outros fatos publicados pelos Annales des
Sciences Psychiques, de maio de 1911. Eles apresentam certos
traços de analogia com os precedentes e, além disso, se
enriquecem de pormenores que nos ensinam como se opera, na
morte, a separação entre o corpo fluídico e o corpo material.
A Sra. Morence Marryat escreve o que se segue no The Spirit’s World (O Mundo dos Espíritos, 128):
“Conto entre meus mais caros amigos uma jovem, pertencente às altas classes da aristocracia, dotada de maravilhosas faculdades mediúnicas.
Teve ela, há alguns anos, a infelicidade de perder sua irmã mais velha, então com vinte anos, em conseqüência de uma forte pleurisia.
Edith (designarei por esse nome a jovem médium) não quis afastar-se um só instante da cabeceira de sua irmã e aí, em estado de clarividência, pôde assistir ao processo de separação do Espírito da parte material. Contava-me ela que a pobre doente, em seus últimos dias de vida terrestre, se tinha tornado inquieta, sobreexcitada, delirante, voltando-se incessantemente no leito e pronunciando palavras sem sentido.
Foi então que Edith começou a perceber uma espécie de ligeira nebulosidade semelhante a fumaça, que, condensando-se gradualmente acima da cabeça, acabou por assumir as proporções, as formas e os traços da irmã moribunda, de modo a se lhe assemelhar por completo. Essa forma flutuava no ar, a pouca distância da doente.
À medida que o dia declinava, a agitação da enferma minorava, sendo substituída à tarde por prostração profunda, precursora da agonia.
Edith contemplava avidamente a irmã: o rosto tornara-se lívido, o olhar obscurecia-se, mas, ao alto, a forma fluídica purpureava-se e parecia animar-se gradualmente com a vida que abandonava o corpo.
Um momento depois, a criança jazia inerte e sem conhecimento sobre os travesseiros, mas a forma se transformara em Espírito vivo. Cordões de luz, no entanto, semelhantes a florescências elétricas, ligavam-se ainda ao coração, ao cérebro e aos outros órgãos vitais.
Chegando o momento supremo, o Espírito oscilou algum tempo de um lado a outro, para vir em seguida colocar-se ao lado do corpo inanimado. Ele era, em aparência, muito fraco e mal podia suster-se.
E, enquanto Edith contemplava esta cena, eis que se apresentaram duas formas luminosas, nas quais reconheceu seu pai e sua avó, mortos ambos nessa mesma casa. Aproximaram-se do Espírito recém-nascido, sustentaram-no afetuosamente e o abraçaram. Depois, arrancaram-lhe os cordões de luz que o ligavam ainda ao corpo e, apertando-o sempre nos braços, dirigiram-se à janela e desapareceram.” W. Stainton Moses, pastor da Igreja Anglicana e um dos mais
célebres médiuns de nossa época, publicou em Light:
“Tive recentemente e pela primeira vez na vida ocasião de estudar os processos de transição do Espírito. Aprendi tantas coisas dessa experiência, que me louvo por ser útil a outros contando o que vi... Tratava-se de um próximo parente meu, de quase 80 anos. Eu tinha percebido, por certos sintomas, que seu fim estava próximo e corri a preencher meu triste e último dever...
Graças a meus sentidos espirituais, podia verificar que em torno e acima de seu corpo se formava a aura nebulosa com a qual o Espírito devia preparar seu corpo espiritual; e percebia que ela ia aumentando de volume e densidade, posto que submetida a maiores ou menores variações, segundo as oscilações experimentadas na vitalidade do moribundo.