Pude assim notar que, por vezes, um alimento leve tomado pelo doente ou uma influência magnética desprendida por pessoa que dele se aproximasse tinha como resultado avivar momentaneamente o corpo. A aura parecia, pois, continuamente em fluxo e refluxo.
Assisti a esse espetáculo durante doze dias e doze noites e, embora ao sétimo dia já o corpo tivesse dado sinais de sua iminente dissolução, a flutuação da vitalidade espiritual em via de exteriorização persistia. Pelo contrário, a cor da aura tinha mudado; esta última tomava, além disso, formas cada vez mais definidas, à medida que a hora da libertação se aproximava para o Espírito.
Vinte e quatro horas, somente, antes da morte, quando o corpo jazia inerte, foi que o processo de libertação progrediu. No momento supremo vi aparecer formas de “espíritos guardiães”, que se chegaram ao moribundo e sem nenhum esforço separaram o Espírito do corpo consumido. Quando, enfim, se quebraram os cordões magnéticos, os traços do defunto, nos quais se liam os sofrimentos experimentados, serenaram completamente e se impregnaram de inefável expressão de paz e de repouso.” Em resumo, o melhor meio de conseguirmos uma morte
suave e tranqüila é viver dignamente, com simplicidade e
sobriedade, é viver uma vida sem vícios nem fraquezas,
desapegando-nos antecipadamente de tudo o que nos liga à
matéria, idealizando a nossa existência, povoando-a de
pensamentos elevados e ações nobres.
Sucede o mesmo com as condições boas ou ruins da vida de além-túmulo. Dependem também unicamente da maneira pela qual desenvolvemos as nossas tendências, os nossos apetites, os nossos desejos. É na atualidade que precisamos preparar-nos, agir, reformar-nos, e não no momento em que se aproxima o fim terrestre. Seria pueril acreditarmos que a nossa situação futura depende de certas formalidades mais ou menos bem cumpridas à hora da partida. É a nossa vida inteira que responde pela vida futura; uma e outra se ligam estreitamente; formam uma série de causas e efeitos que a morte não interrompe.
Não é menos importante dissipar as quimeras que preocupam certos cérebros a respeito dos lugares reservados às almas depois da morte, para as atormentar. Aquele que cuidou do nosso nascimento, colocando-nos, ao virmos ao mundo, em braços amantes, estendidos para nos receberem, reserva-nos também afeições para a nossa chegada ao Além. Expulsemos para longe de nós os terrores vãos, as visões infernais, as beatitudes ilusórias. O futuro, como o presente, é a atividade, o trabalho; é a conquista de novos postos. Tenhamos confiança na bondade de Deus, no amor que Ele tem às suas criaturas, e avancemos com firmeza no coração para o alvo que a todos Ele marcou!
Além da campa, o único juiz, o único algoz que temos é a nossa própria consciência. Livre dos estorvos terrestres, adquire ela um grau de acuidade para nós difícil de compreender. Adormecida muitas vezes durante a vida, acorda com a morte e a sua voz se eleva; evoca as recordações do passado, as quais, despidas inteiramente de ilusões, lhe aparecem sob a sua verdadeira luz, e as nossas menores faltas se tornam causa de incessantes pesares.
“Não há, como disse Myers, necessidade de purificação pelo fogo. O conhecimento de si mesmo é o único castigo e a única recompensa do homem.” (117)
Existe em toda a parte a harmonia, tanto na marcha solene dos mundos, como na dos destinos. Cada um é classificado segundo as suas aptidões na ordem universal. Aos grandes Espíritos incumbem as altas tarefas, as criações do gênio; às almas fracas as obras medíocres, as missões inferiores. Em qualquer campo que se exerça a atividade de nossas vidas, tendemos para o lugar que nos convém e legitimamente nos pertence.
Façamo-nos, pois, almas poderosas, ricas de ciência e virtude, aptas para as obras grandiosas e elas por si mesmas hão de se colocar em nobre posição na ordem eterna.
Pela alta cultura moral, pela conquista da energia, da dignidade, da bondade, esforcemo-nos por alcançar o nível dos grandes Espíritos que trabalham pela causa das humanidades, para apreciarmos com eles as alegrias reservadas ao verdadeiro mérito. Então a morte, em vez de ser um espantalho, converter-se-á, para nós, em um benefício, e poderemos repetir as célebres palavras de Sócrates: – “Ah! se assim é, deixai que eu morra uma e muitas vezes!”