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O nosso progresso e a nossa elevação exigem-no: mais dia menos dia, temos de ficar livres do invólucro carnal, que, depois de haver prestado os serviços esperados, se torna impróprio para seguir-nos em outros planos do nosso destino. Como é possível que aqueles que crêem na existência de uma sabedoria previdente, de um Poder ordenador, qualquer que seja, aliás, a forma que emprestem a esse Poder, considerem a morte um mal? Se ela representa um papel importante na evolução dos seres, não será, portanto, uma das fases reclamadas por essa evolução, o correspondente natural do nascimento, um dos elementos essenciais do plano da vida? O universo não pode falhar. Seu fim é a beleza; seus meios a justiça e o amor. Fortaleçamo-nos com o pensamento no futuro sem limites. A confiança na outra vida estimulará os nossos esforços, torná-los-á mais fecundos. Nenhuma obra de vulto e que exija paciência pode ser levada a cabo sem a certeza do dia seguinte. A cada vez que distribui os seus golpes à nossa volta, a morte, no seu esplendor austero, torna-se um ensinamento, uma lição soberana, um incentivo para trabalharmos melhor, para procedermos melhor, para aumentarmos constantemente o valor da nossa alma. Os sepultamentos são feitos com um aparato que deixa outra impressão não menos penosa na memória dos assistentes. O pensamento de que o nosso invólucro será também por sua vez depositado na terra provoca uma sensação de angústia e asfixia. No entanto, todos os corpos que por nós foram animados, no passado, jazem igualmente no solo ou vão sendo paulatinamente transformados em plantas e flores. Esses corpos eram simples vestuários usados; a nossa personalidade não foi enterrada com eles; pouco nos importa hoje o que deles foi feito. Por que havemos, então, de nos preocupar mais com a sorte do último do que com a dos outros? Sócrates respondia com justeza aos seus amigos que lhe perguntavam como queria ser enterrado: “Enterrai-me como quiserdes, se puderdes apoderar-vos de mim.” (113) Inúmeras vezes a imaginação do homem povoa as regiões do Além de criações assustadoras, que se tornam horripilantes para ele. Certas igrejas ensinam, ainda, que as condições boas ou más da vida futura são definitivas, irrevogavelmente determinadas por ocasião da morte e essa afirmação perturba a existência de muitos crentes. Outros temem o insulamento, o abandono no seio dos Espaços. A Revelação dos Espíritos vem pôr termo a todas essas apreensões; traz-nos sobre a vida de além-túmulo indicações exatas;(114) dissipa a incerteza cruel e o temor do desconhecido que nos atribulam. A morte, diz-nos ela, em nada muda a nossa natureza espiritual, os nossos caracteres, o que constitui o nosso verdadeiro “eu”; apenas nos torna mais livres, dota-nos de uma liberdade cuja extensão se mede pelo nosso grau de adiantamento. Tanto de um lado quanto de outro, temos a possibilidade de fazer o bem ou o mal, a facilidade de adiantar-nos, de progredir, de reformar-nos. Por toda a parte reinam as mesmas leis, as mesmas harmonias, as mesmas potências divinas. Nada é irrevogável. O amor que nos chama a este mundo, atrai-nos mais tarde para o outro; mas em todos os lugares amigos protetores, arrimos, esperam-nos. Ao passo que neste mundo choramos a partida de um dos nossos, como se ele fosse perder-se no nada, acima de nós seres etéreos glorificam a sua chegada à luz, da mesma forma que nós nos regozijamos com a chegada de uma criancinha, cuja alma vem, de novo, desabrochar para a vida terrestre. Os mortos são os vivos do céu! Muitas pessoas temem a morte por causa dos sofrimentos físicos que a acompanham. Sofremos, é verdade, na doença que acaba pela morte, mas sofremos também nas doenças de que nos curamos. No instante da morte, dizem-nos os Espíritos, quase nunca há dor; morre-se como se adormece. Essa opinião é confirmada por todos aqueles a quem a profissão e o dever chamam freqüentes vezes para a cabeceira dos moribundos. No entanto, se considerarmos o sossego, a serenidade de certos doentes nas horas derradeiras e a agitação convulsiva, a agonia de outros, devemos reconhecer que as sensações que precedem a morte são muito diversas, em relação aos indivíduos. Os sofrimentos são tanto mais vivos quanto mais numerosos e fortes são os laços que unem a alma ao corpo. Tudo o que os pode diminuir, enfraquecer, tornará a separação mais rápida, a transição menos dolorosa. Se a morte é quase sempre isenta de sofrimento para aquele cuja vida foi nobre e bela, não sucede o mesmo com os sensuais, os violentos, os criminosos, os suicidas. Uma vez transposta a passagem, uma espécie de perturbação, de entorpecimento, invade a maior parte das almas que não souberam preparar-se para a partida. Nesse estado, as suas faculdades ficam veladas, as suas percepções mal se exercem através de um nevoeiro mais ou menos denso. A duração da perturbação varia segundo a natureza e o valor moral delas; pode ser muito prolongada para as mais atrasadas e chegar a anos até; depois, pouco a pouco, vai-se dissipando o nevoeiro; as percepções ganham maior nitidez. O Espírito readquire a lucidez; desperta para a nova vida, a vida do espaço. Solene é esse instante para ele, mais decisivo, mais formidável do que a hora da morte; porque, segundo o seu valor e o seu grau de pureza, será tranqüilo e delicioso, cheio de ansiedade ou de sofrimento esse despertar. No estado de perturbação, a alma tem consciência dos pensamentos que se lhe dirigem. Os pensamentos de amor e caridade, as vibrações dos corações afetuosos brilham para ela como raios na névoa que a envolve; ajudam-na a soltar-se dos últimos laços que a acorrentam à Terra, a sair da sombra em que está imersa. É por isso que as preces inspiradas pelo coração, pronunciadas com calor e convicção, principalmente as preces improvisadas, são salutares, benfazejas para o Espírito que deixou a vida corporal; pelo contrário, as orações vagas, pueris, das igrejas, são muitas vezes ineficazes. Pronunciadas maquinalmente, não adquirem o poder vibratório que faz do pensamento uma força penetrante e, ao mesmo tempo, uma luz. O cerimonial religioso em uso oferece, em geral, pouco auxílio e conforto aos defuntos. Os assistentes dessas manifestações, na ignorância das condições da sobrevivência, ficam indiferentes e distraídos. É quase um escândalo ver a desatenção com que se assiste, em nossa época, a uma cerimônia fúnebre. A atitude dos assistentes, a falta de recolhimento, as conversas banais trocadas durante o funeral, tudo causa penosa impressão. Bem poucos dos que formam o acompanhamento pensam no defunto e consideram como dever projetar para ele um pensamento afetuoso. As preces fervorosas dos amigos, dos parentes, são muito mais eficazes para o Espírito do morto do que as manifestações do culto mais pomposo; não é, contudo, conveniente nos entregarmos desmedidamente à dor da separação. As saudades da partida são, decerto, legítimas e as lágrimas sinceras são sagradas; mas, quando demasiado violentas, essas manifestações de pesar entristecem e desanimam aquele a quem se dirigem e, muitas vezes, testemunha delas. Em vez de lhe facilitarem o vôo para o espaço, retêm-no nos lugares onde sofreu e onde ainda estão sofrendo aqueles que lhe são caros. Pergunta-se às vezes o que se deve pensar das mortes prematuras, das mortes acidentais, das catástrofes que, de um golpe, destroem numerosas existências humanas. Como conciliar esses fatos com a idéia de plano, de providência, de harmonia universal? E se deixa voluntariamente a vida por um ato de desespero, que sucede? Qual é a sorte dos suicidas? As existências interrompidas prematuramente por causa de acidentes chegaram ao seu termo previsto. São, em geral, complementares de existências anteriores, truncadas por causa de abusos ou excessos. Quando, em conseqüência de hábitos desregrados, se gastaram os recursos vitais antes da hora marcada pela Natureza, tem-se de voltar a perfazer, numa existência mais curta, o lapso de tempo que a existência precedente devia ter normalmente preenchido. Sucede que os seres humanos passíveis dessa reparação se reúnem num ponto pela força do destino, para sofrerem, numa morte trágica, as conseqüências de atos que têm relação com o passado anterior ao nascimento. Daí, as mortes coletivas, as catástrofes que lançam no mundo um aviso. Aqueles que assim partem, acabaram o tempo que tinham de viver e vão preparar-se para existências melhores. Quanto aos suicidas, a perturbação em que a morte os imerge é profunda, penosa, dolorosa. A angústia os agrilhoa e segue até à sua reencarnação ulterior. O seu gesto criminoso causa ao corpo fluídico um abalo violento e prolongado que se transmitirá ao organismo carnal pelo renascimento. A maior parte deles volta enferma à Terra. Estando no suicida, em toda a sua força, a vida, o ato brutal que a despedaça produzirá longas repercussões no seu estado vibratório e determinará afecções nervosas nas suas futuras vidas terrestres. O suicida procura o nada e o esquecimento de todas as coisas; mas vai, ao contrário, encontrar-se em face de sua consciência, na qual fica gravada, para todo o sempre, a recordação lamentável da sua deserção do combate da vida. A prova mais dura, o sofrimento mais cruel que haja na Terra é preferível à recriminação perpétua da alma, à vergonha de já não se poder prezar. A destruição violenta de recursos físicos que podiam ser-lhe úteis ainda, e até fecundos, não livra o suicida das provações a que quis fugir, porque lhe será necessário reatar a cadeia quebrada das suas existências e com ela tornar a achar a série inevitável das provas, agravadas por atos e conseqüências que ele mesmo causou.
TAG Valor
Título A morte
Parte Primeira
Título da Parte O Problema do Ser