As contradições encontradas muito freqüentemente na linguagem dos Espíritos, mesmo sobre questões essenciais, foram, até hoje, para certas pessoas, uma causa de incerteza quanto ao valor real de suas comunicações, circunstância da qual não deixaram os adversários de tirar partido. Com efeito, à primeira vista essas contradições parecem ser uma das principais pedras de tropeço da ciência espírita. Vejamos se elas têm a importância que lhes atribuem.
Perguntaremos, em primeiro lugar, qual a ciência que não apresentou, em seus primórdios, semelhantes anomalias? Em suas investigações, que sábio não foi muitas vezes confundido por fatos que pareciam lançar por terra as regras estabelecidas? Se a Botânica, a Zoologia, a Fisiologia, a Medicina e nossa própria língua não nos oferecem milhares de exemplos e se suas bases não desafiam toda contradição? É comparando os fatos, observando as analogias e as dessemelhanças que se chega, pouco a pouco, a estabelecer as regras, as classificações, os princípios: numa palavra, a constituir a Ciência. Ora, o Espiritismo apenas começa a despontar; não é, pois, de admirar que se submeta à lei comum, até que seu estudo esteja completo. Só então se reconhecerá que aqui, como em todas as coisas, a exceção quase sempre vem confirmar a regra.
Não obstante, em todos as épocas os Espíritos nos têm dito para não nos inquietarmos com essas pequenas divergências e que, dentro de pouco tempo, todos seriam levados à unidade de crença. Essa predição por certo se realiza a cada dia, à medida que se penetra mais adiante nas causas desses fenômenos misteriosos e os fatos são mais bem observados. Já as dissidências que se manifestaram na origem tendem evidentemente a enfraquecer-se; pode-se mesmo dizer que resultam, agora, apenas de opiniões pessoais isoladas.
Se bem esteja o Espiritismo em a Natureza, e tenha sido conhecido e praticado desde a mais remota Antigüidade, é fato notório que em nenhuma outra época foi tão universalmente espalhado quanto hoje. É que outrora faziam dele um estudo misterioso, ao qual o vulgo não era iniciado; conservou-se por uma tradição, que as vicissitudes da Humanidade e a ausência dos meios de transmissão enfraqueceram insensivelmente. Os fenômenos espontâneos, que vez por outra jamais deixaram de produzir-se, passaram despercebidos ou foram interpretados segundo os preconceitos ou a ignorância da época ou, ainda, explorados em proveito dessa ou daquela crença. Estava reservado ao nosso século, onde o progresso recebe um impulso incessante, tornar clara uma ciência que, por assim dizer, somente existia em estado latente. Não foi senão há poucos anos que os fenômenos foram observados seriamente. Na realidade o Espiritismo é uma ciência nova que se implanta pouco a pouco no espírito das massas, esperando ocupar uma posição oficial. De início essa ciência pareceu bem simples; para as pessoas superficiais, consistia na arte de fazer girar as mesas; contudo, por suas ramificações e conseqüências, uma observação mais atenta revelou que era, ao contrário, muito mais complexa do que se havia suspeitado. As mesas girantes são como a maçã de Newton que, na sua queda, encerra o sistema do mundo.
Aconteceu com o Espiritismo o que de início acontece com todas as coisas: os primeiros não puderam ver tudo; cada um viu por seu lado e se apressou a transmitir suas impressões conforme seu ponto de vista e segundo suas idéias ou prevenções. Ora, não é sabido que, de acordo com o meio, o mesmo objeto a uns pode parecer quente, ao passo que outros o acharão frio?
Tomemos ainda outra comparação das coisas vulgares, mesmo que pareça trivial, a fim de nos fazer melhor compreender.
Ultimamente lia-se em diversos jornais: “O cogumelo é um produto dos mais bizarros; delicioso ou mortal, microscópico ou de dimensão fenomenal, confunde, sem cessar, a observação do botânico. No túnel de Doncastre existe um cogumelo que há doze meses se desenvolve, parecendo não haver ainda atingido sua última fase de crescimento. Atualmente mede quinze pés de diâmetro. Veio num pedaço de madeira; é considerado o mais belo espécime de cogumelo que já existiu. Sua classificação é difícil, porque as opiniões estão divididas.” Assim, eis a ciência em grande dificuldade por causa de um cogumelo que se apresenta sob um novo aspecto. Esse fato provocou em nós a seguinte reflexão: Suponhamos vários naturalistas, cada um a observar por seu lado uma variedade desse vegetal: um dirá que o cogumelo é um criptógamo comestível, apreciado pelas pessoas de fino paladar; o segundo, que é venenoso; o terceiro, que é invisível a olho nu; e o quarto, que pode alcançar até quarenta e cinco pés de circunferência, etc. À primeira vista, todas as asserções são contraditórias e pouco apropriadas à fixação das idéias sobre a verdadeira natureza dos cogumelos. Depois virá um quinto observador que reconhecerá a identidade dos caracteres gerais e mostrará que essas propriedades tão diversas constituem, em verdade, subdivisões ou variedades de uma mesma classe. De seu ponto de vista, cada um tinha razão; todos, porém, laboravam em erro, ao concluírem do particular para o geral, e ao tomarem a parte pelo todo.
Ocorre o mesmo em relação aos Espíritos. Têm sido julgados conforme a natureza das relações que se teve com eles: uns foram feitos demônios; outros anjos. Depois, por se terem precipitado para explicar os fenômenos antes que vissem tudo, cada um o fez à sua maneira, buscando-lhes as causas, evidentemente, naquilo em que consistia o objeto de suas preocupações; o magnetista relacionava tudo à ação magnética, o físico à ação elétrica, etc. A divergência de opinião em matéria de Espiritismo origina-se, pois, dos diferentes aspectos sob os quais é considerado. De que lado está a verdade? É o que compete ao futuro demonstrar; mas a tendência geral não poderia oferecer dúvida. Evidentemente, um princípio domina e reúne, pouco a pouco, os sistemas prematuros; uma observação menos exclusiva os unirá todos a uma fonte comum, vendo-se logo que a divergência, definitivamente, é mais de forma do que de fundo.
Compreende-se perfeitamente que os homens elaborem teorias contrárias sobre muitas coisas; entretanto, o que pode parecer mais singular é o fato de os próprios Espíritos poderem entrar em contradição; foi principalmente isso que, no princípio, lançou uma espécie de confusão nas idéias. As diferentes teorias espíritas têm, pois, duas origens: umas desabrocharam do cérebro humano, enquanto as demais foram reveladas pelos Espíritos. As primeiras emanam dos homens que, confiando demasiadamente em suas próprias luzes, crêem ter em mãos a chave daquilo que procuram quando, na maioria das vezes, não encontram senão uma maneira para se promoverem. Nada há nisso de surpreendente; entre os Espíritos, porém, seria inadmissível que uns dissessem uma coisa e os demais falassem outra, o que agora é perfeitamente explicável. A princípio, fez-se uma idéia completamente falsa da natureza dos Espíritos. Foram representados como seres à parte, de natureza excepcional, nada possuindo em comum com a matéria e devendo tudo saber. Segundo opinião pessoal, eram seres benfazejos ou malfazejos, uns com todas as virtudes, os outros com todos os vícios e todos, em geral, com um saber infinito, superior ao da Humanidade.
À notícia das recentes manifestações, o primeiro pensamento que brotou na mente da maior parte das criaturas foi o de buscarem um meio de penetrar em todas as coisas ocultas, uma nova maneira de adivinhação menos sujeita à dúvida que os processos vulgares.
Quem poderia dizer o número dos que sonharam fortuna fácil, pela revelação de tesouros ocultos ou pelas descobertas industriais e científicas, que não teriam custado a seus inventores senão o trabalho de lhes descrever os procedimentos, sob o ditado dos sábios do outro mundo! Só Deus sabe quantas desilusões e quantos desapontamentos! Que de pretensas receitas, cada uma mais ridícula que a outra, foram dadas pelos farsistas do mundo invisível?
Conhecemos alguém que havia solicitado uma receita infalível para tingir os cabelos; foi-lhe dada uma fórmula de composição, espécie de ungüento que fez da cabeleira uma espécie de massa compacta, da qual o paciente teve as maiores dificuldades do mundo para se desembaraçar. Todas essas esperanças quiméricas tiveram que se dissipar à medida que se conhecia melhor a natureza desse mundo e a real finalidade das visitas que nos fizeram seus habitantes. Mas, então, para algumas pessoas que nada faziam, qual era o valor desses Espíritos, que nem sequer tinham o poder de conseguir-lhes alguns milhões? Não poderiam ser Espíritos. A essa febre passageira sucedeu a indiferença e, depois, a incredulidade. Oh! Que de prosélitos teriam feito os Espíritos, se tivessem podido fazer o bem enquanto os outros dormiam! Teriam adorado o diabo, mesmo que tivesse brandido a sua bolsa de moedas.