Correspondência
Isso está indo muito longe, direis; mas nem tudo são rosas em terdes a mim como correspondente. Vou ler vosso último livro, que acabo de receber; à primeira vista, não duvido que ele faça muito bem, ao destruir uma porção de preconceitos, pois soubestes mostrar o lado sério da coisa. O caso Badet é muito interessante; falaremos dele depois. Todo vosso, Jobard Seria supérfluo qualquer comentário sobre esta carta; cada um apreciará sua importância e saberá encontrar, sem dificuldade, essa profundeza e essa sagacidade que, aliadas aos mais nobres pensamentos, conquistaram, para o autor, tão honrosa posição entre os seus contemporâneos. Podemos nos gabar de ser loucos, à maneira por que entendem os adversários, quando temos tais companheiros de infortúnio. A esta observação do Sr. Jobard: “Podemos entrar em comunicação com os Espíritos? Eis aí toda a questão. Vede e observai”, acrescentaremos: As comunicações com os seres do mundo invisível não são uma descoberta nem uma invenção moderna; têm sido praticadas desde a mais remota Antigüidade, por homens que foram mestres na filosofia, e cujos nomes invocamos diariamente, em respeito à sua autoridade. Por que razão aquilo que então se passava não mais poderia repetir-se hoje? A carta seguinte foi-nos endereçada por um de nossos assinantes; visto conter uma parte instrutiva, que pode interessar à maioria dos leitores, e sendo uma prova a mais da influência moral da Doutrina Espírita, acreditamos dever publicá-la na íntegra, respondendo, para todos, às diversas perguntas que encerra. Bordeaux, 24 de junho de 1858. Senhor e caro confrade em Espiritismo, Certamente permitireis a um de vossos assinantes, e a um de vossos leitores mais atentos, que vos dê esse título, porquanto essa doutrina admirável há de enlaçar, fraternalmente, todos os que a compreendem e praticam. Em um dos vossos números anteriores, falastes de desenhos extraordinários, feitos pelo Sr. Victorien Sardou, representando habitações no planeta Júpiter. A descrição que nos fizestes, como certamente a muitos outros, dá-nos vontade de os conhecer. Poderíeis dizer-nos se esse senhor tem intenção de os publicar? Não duvido que alcançarão grande sucesso, tendo em vista a extensão que a cada dia tomam as crenças espíritas. Seria o complemento necessário da descrição tão sedutora que deram os Espíritos, desse mundo feliz. Dir-vos-ei, meu caro senhor, a respeito, que há cerca de dezoito meses evocamos, em nosso pequeno círculo íntimo, um antigo magistrado, parente nosso, morto em 1756, que em vida foi um modelo de todas as virtudes e um Espírito muito superior, embora não tendo alcançado lugar na História. Disse-nos que estava encarnado em Júpiter e deu-nos um ensinamento moral de admirável sabedoria, em tudo conforme ao que encerra o vosso tão precioso O Livro dos Espíritos. Tivemos, naturalmente, a curiosidade de pedir-lhe algumas informações sobre o estado do mundo que habita, o que fez com extrema complacência. Ora, julgai nossa surpresa e alegria quando lemos em vossa Revista uma descrição absolutamente idêntica daquele planeta, pelo menos em suas linhas gerais, uma vez que, como vós, não havíamos levado tão longe essas questões; tudo ali é conforme ao físico e à moral, até mesmo a condição dos animais. Mencionou, inclusive, as habitações aéreas, das quais não falais. Como houvesse certos assuntos que tínhamos dificuldade de compreender, nosso parente aditou estas palavras notáveis: “Não é de admirar que não compreendais as coisas para as quais vossos sentidos não foram feitos; porém, à medida que avançardes em ciência, compreendê-las-eis melhor pelo pensamento, e elas deixarão de vos parecer extraordinárias. Não vem longe o tempo em que recebereis esclarecimentos mais completos sobre este ponto. Os Espíritos estão encarregados de vos instruir a respeito, a fim de vos dar um objetivo e vos estimular ao bem.” Lendo vossa descrição e o anúncio dos desenhos de que falais, pensamos, naturalmente, que esse tempo havia chegado. Certamente, os incrédulos censurarão esse paraíso dos Espíritos, como tudo criticam, inclusive a imortalidade e, até mesmo, as coisas mais santas. Sei muito bem que nada prova materialmente a veracidade dessa descrição; entretanto, para todos os que crêem na existência e nas revelações dos Espíritos, essa coincidência não é um convite à reflexão? Fazemos uma idéia dos países que nunca vimos pela descrição dos viajantes, desde que haja coincidência entre eles. Por que não se daria o mesmo, em relação aos Espíritos? No estado sob o qual nos descrevem o planeta Júpiter, haverá qualquer coisa que repugne à razão? Não; tudo está conforme à idéia que nos dão das existências mais perfeitas; direi mais: conforme as Escrituras, que faço questão de um dia demonstrar. A mim, isso parece tão lógico e tão consolador, que seria penoso renunciar à esperança de habitar esse mundo afortunado, onde não há maus, nem invejosos, nem inimigos, nem egoístas, nem hipócritas. Eis por que me esforço para um dia merecer viver nesse lugar. Em nosso pequeno círculo, quando algum de nós parece ter pensamentos muito materiais, nós lhe dizemos: “Cuidado, senão não ireis para Júpiter”; e somos felizes em pensar que esse futuro nos está reservado, quando não na próxima etapa, pelo menos em uma das seguintes. Obrigado, pois, a vós, meu caro irmão, por nos terdes aberto esse novo caminho da esperança. Considerando-se que obtivestes revelações tão preciosas sobre aquele mundo, deveis tê-las igualmente logrado de outros que compõem nosso sistema planetário. É vossa intenção publicá-las? Isso daria um conjunto dos mais interessantes. Olhando os astros, deleitar-nos-íamos em pensar nos seres tão variados que os povoam; o espaço nos pareceria menos vazio. Como pode o homem, crente no poder e na sabedoria de Deus, imaginar que essa infinidade de globos seja formada de corpos inertes e sem vida? Que estejamos sozinhos neste pequeno grão de areia, chamado de Terra? Direi que é a impiedade que o faz assim. Semelhante idéia me entristece; se assim fosse, pensaria estar num deserto. Inteiramente vosso, de coração. Marius M., Funcionário aposentado. O título que o nosso honrado assinante quis outorgar-nos é muito lisonjeiro, para que não lhe sejamos reconhecido de no-lo haver julgado merecedor. De fato, o Espiritismo é o laço fraternal que deve conduzir à prática da verdadeira caridade cristã todos os que o compreendem em sua essência, porquanto tende a fazer desaparecer os sentimentos de ódio, de inveja e de ciúme que dividem os homens; mas não é essa a fraternidade de uma seita; para que se conforme aos divinos preceitos do Cristo, deve abraçar a Humanidade inteira, porquanto são filhos de Deus todos os homens; se alguns estão extraviados, ela ordena que os lamentemos; proíbe que os odiemos. Amai-vos uns aos outros, disse Jesus; nunca falou: Não ameis senão os que pensam como vós; eis por que, quando nossos adversários nos atiram pedras, não lhes devemos jamais devolver as maldições: esses princípios tornarão pacíficos os homens, que jamais buscarão a satisfação de suas paixões na desordem e no sofrimento do próximo. Os sentimentos de nosso honrado correspondente estão registrados com muita elevação para que nos persuadamos de que entende a fraternidade tal como deve ser, na sua mais ampla acepção. Somos felizes pela comunicação que ele se prontificou a fazer a respeito de Júpiter. A coincidência que nos assinala não é a única, como se pôde depreender pelo artigo concernente ao assunto. Ora, seja qual for a opinião que se tenha a respeito, nem por isso deixa de ser matéria de observação. O mundo espírita está cheio de mistérios que devem ser estudados com muito cuidado. As conseqüências morais deduzidas pelo nosso correspondente estão marcadas de um cunho lógico que a ninguém escapa. A propósito da publicação dos desenhos, vários de nossos assinantes externaram o mesmo desejo. Mas tal é a sua complicação que a reprodução em gravura determinaria despesas excessivas e de difícil solução; os próprios Espíritos haviam dito que o momento de publicá-los ainda não tinha chegado, provavelmente por esse motivo. Felizmente, a dificuldade está hoje superada. De médium desenhista – sem saber desenhar – o Sr. Victorien Sardou tornou-se médium gravador, embora jamais houvesse pegado num buril em toda a sua vida; agora faz desenhos diretamente sobre o cobre, o que permitirá sua reprodução sem o concurso de qualquer artista estrangeiro. Simplificada a questão financeira, poderemos, assim, dar uma amostra notável em nosso próximo número, acompanhada de uma descrição técnica, que ele teve a gentileza de redigir, conforme os documentos que lhe forneceram os Espíritos. Esses desenhos são muito numerosos, formando seu conjunto, mais tarde, um verdadeiro Atlas. Conhecemos outro médium desenhista, a quem os Espíritos fazem traçar desenhos não menos curiosos sobre um outro planeta. Quanto ao estado dos diferentes globos conhecidos, sobre muitos temos recebido ensinamentos gerais, enquanto sobre outros apenas alguns detalhes; mas ainda não nos decidimos sobre a época mais conveniente para a sua publicação. Allan Kardec
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Mês Julho
Ano 1858