Ao lado desses sonhadores, havia pessoas sérias que somente viam vulgaridade nesses fenômenos; observaram atentamente, sondaram o recôndito desse mundo misterioso, reconhecendo facilmente, nesses fatos estranhos, se não novos, pelo menos um fim providencial de ordem mais elevada. Tudo mudou de face quando se soube que esses mesmos Espíritos nada mais são que as criaturas que viveram na Terra, cujo número iremos aumentar quando morrermos; que deixaram aqui o seu envoltório grosseiro, como a lagarta deixa a crisálida para transformar-se em borboleta. Não pudemos duvidar quando vimos nossos parentes, amigos e contemporâneos virem conversar conosco e dar-nos provas irrecusáveis de sua presença e identidade. Considerando as inúmeras variedades que a Humanidade apresenta, do duplo ponto de vista intelectual e moral, e a multidão que diariamente emigra da Terra para o mundo invisível, repugna à razão acreditar que um estúpido samoieda, um feroz canibal, um vil criminoso, sofram com a morte uma transformação que os coloquem no mesmo nível do sábio e do homem de bem. Compreendeu-se, assim, que podia e devia haver Espíritos mais ou menos avançados e, desde então, explicaram-se naturalmente todas essas comunicações tão diferentes, das quais umas se elevam até o sublime, enquanto outras se arrastam na imundície. E foram ainda melhor compreendidas quando se descobriu que o nosso pequeno grão de areia perdido no espaço não era o único habitado, entre tantos milhões de globos semelhantes, ocupando, no Universo, apenas uma posição intermediária, nas proximidades da escala mais inferior; que havia, em conseqüência, seres mais avançados do que os mais avançados entre nós, e outros ainda mais atrasados que os nossos selvagens. Desde então o horizonte intelectual e moral ampliou-se, como sucedeu com nosso horizonte terrestre, quando foi descoberta a quarta parte do mundo; aos nossos olhos, o poder e a majestade de Deus cresceram do finito ao infinito. Dessa forma, ficaram explicadas as contradições da linguagem dos Espíritos, porquanto se compreendeu que seres inferiores, sob todos os pontos de vista, não poderiam pensar nem se exprimir como se superiores fossem; conseqüentemente, não podiam saber tudo nem tudo compreender, devendo Deus revelar aos eleitos somente o conhecimento dos mistérios, que a ignorância jamais alcançaria.
Traçada pelos próprios Espíritos e pela observação dos fatos, a escala espírita dá-nos a chave de todas as aparentes anomalias da linguagem dos Espíritos. É preciso chegar, pela força do hábito, a conhecê-los, a bem dizer, à primeira vista, e poder assinalar-lhes a classe de acordo com a natureza de suas manifestações. É preciso dizer, por necessidade, a um que é mentiroso, a outro que é hipócrita, a esse que é mau, àquele que é faccioso, etc., sem se deixar levar nem pela sua arrogância, nem pelas suas bravatas, nem pelas suas ameaças, nem pelos seus sofismas, nem mesmo pelas suas lisonjas.
É o meio de afastar essa turba que, incessantemente, pulula à nossa volta, e que se afasta quando sabemos atrair somente os Espíritos verdadeiramente bons e sérios, de maneira idêntica à que procedemos em relação aos vivos. Serão seres ínfimos, votados à ignorância e ao mal para todo o sempre? Não, porque tal parcialidade não se conformaria nem com a justiça, nem com a bondade do Criador, que provê a existência e o bem-estar do menor inseto. É por uma sucessão de existências que eles se elevam e dEle se aproximam à medida que se tornam melhores. Esses Espíritos inferiores não conhecem de Deus senão o nome; não O vêem, nem O compreendem, da mesma forma que o último dos camponeses, isolado nos rincões mais distantes, não vê nem compreende o soberano que governa seu país.
Se estudarmos cuidadosamente o caráter próprio de cada classe de Espíritos, conceberemos facilmente que alguns deles são incapazes de fornecer ensinamentos exatos sobre o estado de seu mundo; se, além disso, considerarmos que, por sua natureza, alguns Espíritos são levianos, mentirosos, zombeteiros e malévolos, enquanto outros ainda se acham imbuídos das idéias e dos preconceitos terrestres, compreenderemos que, em suas relações conosco, podem divertir-se à nossa custa, induzir-nos propositadamente ao erro por malícia, afirmar o que não sabem, dar-nos conselhos pérfidos ou mesmo enganar-se de boa-fé, julgando as coisas conforme seu ponto de vista. Citemos uma comparação.
Suponhamos que uma colônia de habitantes da Terra um belo dia encontre meios de estabelecer-se na Lua; imaginemos essa colônia composta de diversos elementos da população de nosso globo, desde o europeu mais civilizado até o selvagem australiano. Sem dúvida os habitantes da Lua ficarão emocionados e maravilhados de poderem obter, junto a seus novos hóspedes, informações precisas sobre nosso planeta, que alguns supunham habitado, embora não tivessem certeza, considerando-se que também entre eles alguns se julgam os únicos seres do Universo. Caem sobre os recém-chegados, fazem-lhes perguntas e os sábios se apressam para publicar a história física e moral da Terra.
Como não seria autêntica essa história, desde que foi obtida de testemunhas oculares? Um deles recolhe em sua casa um zelandês, que lhe ensina que neste mundo é um banquete comer homens e que Deus o permite, desde que se sacrificam vítimas em seu nome. Na casa de outro, é um filósofo moralista que lhe fala de Sócrates e Platão, assegurando que a antropofagia é uma abominação condenável por todas as leis divinas e humanas. Aqui é um muçulmano que não se alimenta de carne humana, mas diz que a salvação é obtida matando o maior número possível de cristãos; ali é um cristão, que fala que Maomé é um impostor; mais longe, um chinês considera como bárbaros todos os demais, afirmando que Deus permite que os filhos devem ser lançados ao rio, contanto que existam em grande quantidade; um boêmio traça o quadro das delícias da vida dissoluta das capitais; um anacoreta prega a abstinência e as mortificações; um faquir indiano dilacera o corpo e durante anos se impõe sofrimento para descerrar as portas do Céu, de tal sorte que as privações de nossos mais piedosos cenobitas não passam de sensualidade. Em seguida vem um bacharel, afirmando que é a Terra que gira, e não o Sol; um camponês, dizendo que o bacharel é mentiroso, pois vê muito bem o Sol levantar-se e deitar-se todos os dias; um africano diz que faz muito calor; um esquimó, que o mar é uma planície de gelo e que só se viaja de trenó.
A política não fica atrás; uns elogiam o regime absoluto, outros a liberdade; alguém garante que a escravidão é contrária à Natureza, sendo irmãos todos os homens, já que são filhos de Deus; outro ainda, afirma que determinadas raças foram feitas para a escravidão e são muito mais felizes que no estado de liberdade, etc.
Imagino os escritores selenitas bastante embaraçados para escreverem a história física, política, moral e religiosa do mundo terrestre com semelhantes documentos. “Talvez – pensarão alguns – encontraremos maior unidade entre os sábios; interroguemos esse grupo de doutores.”
Ora, um dos dois, médico da Faculdade de Paris, centro das luzes, garante que todas as moléstias têm por princípio o sangue viciado, fazendo-se necessário, pois, renová-lo por meio de sangrias, seja qual for a sua causa. “Laborais em erro, meu caro confrade – replica um segundo – o homem jamais dispõe de tanto sangue; se o tirais, tirai-lhe a vida. Convenhamos que o sangue esteja viciado; o que fazemos quando um vaso está sujo? Não o quebramos, limpamos; então purgai, purgai, purgai até a extinção.” Tomando a palavra, diz um terceiro: “Senhores, com vossas sangrias matais os doentes; com vossos purgantes os envenenais; a Natureza é mais sábia que todos nós; deixemo-la agir e aguardemos. – Se é isso, replicam os dois primeiros, se matamos nossos doentes, vós os deixais morrer.”
A disputa começava a se inflamar quando um quarto, tomando à parte um selenita, e o conservando a sua esquerda, disse-lhe: “Não os escuteis; são todos ignorantes; nem mesmo sei por que fazem parte da Academia. Segui bem o meu raciocínio: todo doente é fraco; portanto, sofre de fraqueza nos órgãos; isso é lógica pura, ou não me conheço mais; sendo assim, é preciso que se lhe dê fortificantes; para isso não tenho senão um remédio: água fria, água fria, e não passo disso. – Curais todos os doentes? – Sempre, quando a doença não é mortal. – Com um processo assim tão infalível, pertenceis à Academia?
– Já postulei três vezes minha candidatura. Pois bem! Sabeis que fui repelido por esses pretensos sábios, porque estavam certos de que eu os pulverizaria com minha água fria? – Senhor selenita, diz um novo interlocutor, puxando-o para a direita: vivemos em uma atmosfera de eletricidade; a eletricidade é o verdadeiro princípio da vida: acrescentá-la, quando não existe bastante; retirá-la, quando existe em excesso.
Neutralizar uns pelos outros os fluidos contrários – eis o segredo.
Faço maravilhas com meus aparelhos: lede meus anúncios e vereis!47 Não chegaríamos ao fim, se quiséssemos relacionar todas as teorias contrárias que foram sucessivamente preconizadas em todos os ramos do conhecimento humano, sem excetuar as ciências exatas; entretanto, foi sobretudo nas ciências metafísicas que o campo se abriu às doutrinas mais contraditórias.