Capítulo 5
As árvores e as águas, as flores e frutos da Natureza terrestre, indenes das emanações empestadas de multidões ignorantes e caprichosas, permanecem repletos de substâncias divinas para quantos de nós que começam a viver efetivamente em espírito. As cidades humanas são imensos e benditos cadinhos de purificação das almas encarnadas, onde se forja o progresso real da Humanidade, mas o campo simples e acolhedor é sempre a estação direta das bênçãos de Deus, garantindo as bases da manutenção coletiva. Não é estranhável, portanto, que aí recolhamos grandes colheitas de energias de paz restauradora. Conhecia, de sobra, a propriedade de seus argumentos, rememorando experiências anteriores que me diziam respeito; contudo, objetei, com sinceridade: — Lastimo, porém, que você ainda não tenha podido visitar regiões mais elevadas. Descobriria continentes de radiosas surpresas, revigorando, com eficiência, o estímulo e a esperança. — Prometem-me, para breve, semelhante júbilo, — acentuou resignadamente. — Ouça, meu amigo, — perguntei com afetuoso interesse, — qual a razão do adiamento? Poderia, por minha vez, interpor minha influência humilde no assunto? O companheiro, que se caracterizara por sadio otimismo desde a primeira palavra, deixou transparecer inquietante emoção. Fisionomia transtornada, seus olhos móveis e brilhantes nevoaram-se de pranto, dificilmente contido, e, fixando-os talvez no quadro interior das próprias reminiscências, Gotuzo explicou-se, com inflexão de amargura: — Trago, ainda, a mente e o coração presos ao ninho doméstico que perdi com o corpo carnal. Readaptei-me ao trabalho e, por isso, venho sendo aproveitado, de algum modo, em atividades úteis; entretanto, ainda não me habituei com a morte e sofro naturalmente os resultados dessa desarmonia. Encontro-me num curso adiantado de preparação interior, no qual progrido lentamente. Esforçando-se por assumir, diante de mim, atitude tranquilizadora, prosseguiu, depois de ligeira pausa: — Retomando a mim mesmo, após longos anos de semi-inconsciência, voltaram-me a reflexão, o juízo, o equilíbrio. Oh! Meu amigo, que saudades torturantes de minha casa feliz! Marília e os dois filhos, então rapazes de curso ginasial, eram os únicos habitantes de meu pequeno paraíso doméstico. A Medicina, exercida desde cedo, entre clientela abastada, conferira-me extensos recursos financeiros. Vivíamos plenamente despreocupados, entre as paredes acolhedoras e quentes de nosso ninho. Nenhum dissabor, nem a mais leve nuvem. Surgiu-nos a primeira dor com a positivação da pneumonia que me separou da Esfera física. À primeira nota de sofrimento, mobilizamos o dinheiro e as relações afetivas, inutilmente. Todas as circunstâncias favoráveis de ordem material quebraram-se, frágeis, perante a morte. Marília, porém, prometeu-me fidelidade constante até ao fim, selando o juramento com amargurosas e inesquecíveis lágrimas. Aproximava-me dos cinquenta anos, enquanto a querida esposa não ultrapassava os trinta e seis. Doía-me nalma deixá-la quase só no mundo, sem o braço do companheiro; todavia, confiando nas promessas religiosas, acreditei que pudesse velar por ela e pelos filhos, da região celestial. A realidade, porém, foi muito diversa e, depois das lutas purgatoriais, voltando ansioso à casa, não encontrei rastro dos entes amados que aí deixara. Enquanto perseverava em doloroso sonambulismo, buscando socorro junto à religião, nunca pude voltar ao campo da família, porquanto, antes do tentâmen, fui arrebatado em violento e escuro torvelinho que me situou em terrível paisagem de trevas e sofrimento indescritíveis. No primeiro instante de libertação, todavia, fui surdo a toda espécie de ponderação, rompi todos os obstáculos e, sequioso de afeto, encontrei-os, enfim… A situação, no entanto, desconcertou-me. Primo Carlos, que sempre me invejara a abastança, insinuara-se em casa, a título de proteger-me os interesses, e desposou-me a companheira, perturbou o futuro de meus filhos e dissipou-me os bens, entregando-se, em seguida, a criminosas aventuras comerciais. Quase voltei ao primitivo estado de desequilíbrio mental, ajuizando os acontecimentos imprevistos. Após prantear a posição dos meus rapazes, convertidos em agenciadores de maus negócios, encontrei Marília, justamente no dia imediato ao nascimento do segundo filhinho do casal. Ajoelhei-me, em soluços, ao pé do leito humilde em que repousava e perguntei-lhe pelo patrimônio de paz que lhe depositara, confiante, nas mãos, ao partir… A infeliz, fundamente desfigurada, não me identificou a presença, nem me ouviu a voz, mas lembrou-se intensamente de mim, contemplou o pequenino que dormia calmo e caiu em pranto convulsivo, provocando a presença de Carlos, declarando-se angustiada, nervosa… Quando vi chegar o invasor, irascível e detestado, recuei, tomado de infinito horror. Não tive forças. Era isso o que me aguardava, após tamanha luta? Deveria conformar-me e abençoar os que me feriam? O quadro era excessivamente negro para mim. Em prejuízo de meu Espírito, desfrutara uma existência regular, com todos os desejos atendidos. Não me iniciara no mistério da tolerância, da paciência, da dor. E, por esse motivo, meus sofrimentos assumiram assustadoras proporções. Gotuzo enxugou as lágrimas que lhe correram abundantemente dos olhos e, em vista da impressão forte que o seu pranto me causava, terminou: — Quase dez anos são decorridos e minha mágoa continua tão viva, como na primeira hora. Deixando-o entregue ao desabafo, alguns minutos pesados rolaram entre nós. — Gotuzo, escute-me, — disse-lhe, por fim, — não guarde semelhantes algemas de sombra no coração. Em seguida, descrevi-lhe, sumariamente, meu caso pessoal. Ouviu-me atento, confortado. Finalizando, considerei: — Por que razão condenar a companheira de luta? E se fôssemos nós os viúvos? Quem poderia afiançar que não teríamos sido pais novamente? Não se prenda por mais tempo. O velho egoísmo humano é criador de cárceres tenebrosos. Percebeu-me a sinceridade e calou-se, humilde. E porque o ambiente se fazia menos agradável, em face da exposição dos íntimos aborrecimentos dele, perguntei, para modificar-lhe o impulso mental: — Circunscreve-se o trabalho à assistência aos enfermos, no setor de tarefas que lhe são atribuídas? — Tenho outros campos de atividade, — informou. Fitando-me, algo modificado na expressão fisionômica, interrogou: — Já cooperou em tarefas reencarnacionistas? Recordei a experiência que acompanhara, de perto, em outra ocasião, e narrei o que sabia. Fixou em mim olhar significativo e tornou: — Sim, você conhece um caso de reencarnação, de natureza superior, um caso em que o interessado se fizera credor da gentileza de vários amigos que o auxiliaram, desveladamente. Aqui, todavia, acompanhamos situações dolorosas, através de incidentes desagradabilíssimos para a sensibilidade. São trabalhos reencarnacionistas de ordem inferior, mais difíceis e complexos. Não calcula o que sejam. Há verdadeira mobilização de inúmeros benfeitores sábios e piedosos, dos Planos mais altos, que nos traçam as necessárias diretrizes. Por vezes surgem problemas torturantes no esforço de aproximação e ligação dos interessados ao ambiente em que serão recebidos, de tal modo deploráveis, que muito angustiosas para nós se fazem as situações, sendo imprescindível o concurso de elevado número de obreiros. Segue-se a reencarnação expiatória de inenarráveis padecimentos, pelas vibrações contundentes do ódio e das humilhações punitivas. Na Esfera venturosa em que você habita, há institutos para considerar as sugestões da escolha pessoal. O livre arbítrio, garantidor de créditos naturais, pode solicitar modificações e apresentar exigências justas, mas, aqui, as condições são diferentes… Almas grosseiras e endividadas não podem ser atendidas em suas preferências acerca do próprio futuro, em virtude da ignorância deliberada em que se comprazem, indefinidamente, e, de acordo com aqueles que as tutelam da região superior, são compelidas a aceitar os roteiros estabelecidos pelas autoridades competentes para os seus casos individuais. Por nossa vez, somos executores das providências respectivas e constitui-nos obrigação vencer os mais extensos e escuros obstáculos. Nesses quadros de dor, vemos pais e mães que, instintivamente, repelem a influenciação dos filhinhos, antes do berço, dando pasto a discórdias sem nome, a antagonismos aparentemente injustificáveis, a moléstias indefiníveis, a abortos criminosos. Enquanto isso ocorre, os adversários que reencarnam, em obediência ao trabalho redentor, programado pelos mentores abnegados dessas personagens de dramas sombrios, com longa representação no cenário da existência humana, penetram o campo psíquico dos ex-inimigos e futuros progenitores, impondo-lhes sacrifícios intensos e quase insuportáveis. Interrompeu as considerações, fez curta pausa, para acrescentar em seguida: — Repare que a diversidade, entre as suas informações e as minhas, é efetivamente considerável. Os Espíritos que se esforçam nas aquisições da luz divina, através do serviço persistente na própria iluminação, conquistam o intercâmbio direto com instrutores mais sábios, aprimoram-se, consequentemente, e, pelos atos meritórios a que se consagram, podem escolher seus elementos de vida nova na Crosta Terrestre, como o trabalhador digno que, pelos créditos morais conquistados, pode exigir as próprias ferramentas destinadas ao seu trabalho.
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Nome do Capítulo Irmão Gotuzo