Capítulo 5
Apresentado ao Irmão Gotuzo, espontânea satisfação felicitou-me o espírito. Imediatamente, reconheci que vigorosos laços de simpatia nos arrastavam um para o outro. Nele, as afinidades com os serviços da Esfera carnal eram ainda, sobremaneira, fortes. A conversação, gestos e pareceres denunciavam-lhe a condição. Impregnado de intensas lembranças da vida física, a que se sentia imantado por incoercível atração, não subira, por enquanto, aos nossos círculos de trabalho mais elevado, contando apenas alguns poucos anos de consciência desperta, após acordar na existência real. De início, ofereceu-me elementos para sumariar-lhe a posição. Desencarnara antes de mim, peregrinara muito tempo, através de sendas purgatoriais, e embora houvesse demorado vários anos semi-inconsciente, entre sombras e luzes, apresentava-se em dia com todos os conhecimentos de Medicina, propriamente humanos. — Sempre supus, — confiou-me, bem humorado, quando nos vimos a sós, — que após a morte do corpo nada mais teríamos a fazer, além de cantar beatificamente no Céu ou ranger dentes no inferno, mas a situação é extremamente diversa. Fez significativo parênteses e continuou: — Refiro-me à velha definição teológica, porque nunca pude aceitar a tese negativista, em caráter absoluto. Impossível que a vida estivesse circunscrita ao palco de carne, onde o homem desempenha os mais extravagantes papéis, em múltiplas atitudes cênicas, desde a infância até a velhice. Algo deveria existir, sempre acreditei, além do necrotério e do túmulo. Admitia, porém, que a morte fosse maravilhoso passe de magia, orientando as almas a caminho do paraíso de paz imorredoura ou da região escura de castigos eternos. Nada disso, contudo. Encontrei a vida, em si mesma, com o mesmo sabor de beleza, intensificação e mistério divino. Transferimo-nos de residência, pura e simplesmente, e tanto trazemos para cá indisposições e doenças, como as investigações e processos de curar. Os enfermos e os médicos são aqui em maior número. O corpo astral é organização viva, tão viva quanto o aparelho fisiológico em que vivíamos no Plano carnal. Porque percebesse, talvez, em meus olhos, a silenciosa notícia de que existiriam novidades referentes ao assunto, em Círculos mais altos, acrescentou: — Pelo menos, em nosso Plano, a situação é análoga. E continuou, sorridente: — Ensinavam-nos, na Crosta Planetária, que o homem é simples gênero da ordem dos primatas, com estrutura anatômica dos mamíferos superiores, com postura vertical, dimensões consideráveis de crânio e linguagem articulada. Referiam-se os catedráticos aos homens fósseis e pré-históricos, colando afirmativas dogmáticas da ciência oficial em nossa cabeça, como se dependuram cartazes no teto dos bondes. Explicava-nos a Religião, por sua vez, que o ser humano é alma criada por Deus, no instante da concepção materna, e que, com a morte, regressa ao seio divino para definitivo julgamento, em toda a eternidade, na hipótese de o paciente não ser obrigado a determinadas demoras nas estações desagradáveis do purgatório. Imprimiu novo acento à conversação e considerou: — De fato, suponho devam existir lugares mais deliciosos que o éden imaginado pelos sacerdotes humanos e, com meus olhos, tenho visto flagelações e sofrimentos que ultrapassam todas as imagens infernais ideadas pelos inquisidores. Entretanto, e é lamentável reconhecê-lo, nem a Ciência, nem a Religião nos prepararam, convenientemente, para enfrentar os problemas do homem desencarnado. Fizera-se, entre nós, intervalo mais longo. Relanceando o olhar pelo gabinete amplo, reparei o cuidado de Gotuzo, na zona de sua especialidade. Mapas variados do corpo humano desdobravam-se nas paredes, como se fossem preciosos adornos. Pequenas esculturas de órgãos diversos assomavam, aqui e ali. O que mais feria a atenção, porém, era determinada imagem do sistema nervoso, estruturada em substância delicadíssima e algo luminosa, em posição vertical, com a altura aproximada dum homem, na qual se destacavam, com extraordinária perfeição, o cérebro, o cerebelo, a medula espinal, os nervos do tronco, o mediano, o radial, o plexo sagrado, o cubital e o grande ciático. Acariciando, enlevado, a obra prima, observei: — Tem você muita razão, meu caro Gotuzo. Se os homens encarnados compreendessem a importância do estudo alusivo ao corpo perispiritual!… — Sim, — confirmou com graça espontânea, atalhando-me as considerações, — a ignorância que nos segue até aqui é simplesmente deplorável! A personalidade humana, entre as criaturas terrestres, é mais desconhecida que o Oceano Pacífico. Eu por mim, católico militante que fui, sempre aguardei o sossego beatífico depois da morte. Fixou expressão quase cômica e acentuou: — Vim com todos os sacramentos e passaportes da política religiosa, passados em solenes exéquias. Creio, todavia, que o serviço diplomático de minha igreja, no Céu, não está bem atendido. Não trouxe bastante documentação que me garantisse paz na transferência. Em vão, reclamei direitos que ninguém conhecia e supliquei bênçãos indébitas. Em face do desconhecimento aqui predominante a meu respeito, regressei ao meu velho templo, onde ninguém me identificou. Desesperado, então, mergulhei-me por longos anos em dolorosa cegueira espiritual. E, francamente, rememorando fatos, rio-me, ainda hoje, da confiança ingênua com que cerrei os olhos no lar, pela última vez. O padre Gustavo prometia-me a convivência dos anjos — veja bem! — E asseverava-me que eu seria levado em triunfo aos pés do Senhor, e isso apenas porque legara cinco contos de réis à nossa antiga paróquia. Meus familiares acompanhavam, em pranto, nosso diálogo final, em que minha palavra sufocada comparecia, em monossílabos, de longe em longe, na extrema hora do corpo. No entanto, se era quase impossível para mim o comentário inteligente da situação, o pároco falava por nós ambos, explanando a felicidade que me caberia no Reino de Deus. Médico de curta jornada, mas de intensa observação, a moléstia não me enganou, mas, inexperiente nos assuntos da alma, confundiram-me plenamente as promessas religiosas. Penetrando o portão do sepulcro e não me sentindo na corte dos santos, voltei, copiando perigosas atitudes dos sonâmbulos, para interpelar o sacerdote que me encomendara o cadáver às estações celestes. Incompreendido e cego, peregrinei por muito tempo, entre a aflição e a demência, nas criações mentais enganadoras que trouxera do mundo físico. — Certamente, porém, — observei, em face da parada mais longa que se fizera, — não lhe faltaram bons amigos. — De fato, — concordou. — Entretanto, gastei anos para tornar ao equilíbrio indispensável, condição única em que podemos compreender-lhes o auxílio e recebê-lo. — Deve, pois, sentir-se feliz, agora. — Sem dúvida! — Comentou Gotuzo, humorístico, — reajusto-me com a tranquilidade possível. A maior surpresa para mim, presentemente, é a paisagem de serviço que a vida espiritual nos descortina. Tenho hoje profundíssima compaixão de todos os homens e mulheres encarnados, que desejam insistentemente a morte física e procuram-na, através de vários modos, utilizando recursos indiretos e imperceptíveis aos demais, quando lhes faltam disposições para o ato espetacular do suicídio. Aguardam-nos atividades e problemas tão complexos de trabalho, que mais venturosa lhes seria a existência totalmente desprovida de encanto, com pesadas disciplinas a lhes inibirem as divagações. Recordando a posição laboriosa da dirigente da casa, em virtude das observações ouvidas, considerei: — O volume de nossas tarefas assombraria qualquer homem comum, e cumpre-nos reconhecer que a necessidade de sacrifício nos serviços desta instituição é enorme. Inda agora, espantou-me a cota de deveres atribuídos à Diretora. — Inegável! — Anuiu, modificando o tom de voz, — a Irmã Zenóbia, devotada orientadora, de sublime coração e pulso forte, nos oferece, invariavelmente, magníficas demonstrações de renúncia. E tão grande é o serviço neste asilo, consagrado a socorros diversos, que a chefia se reveza em períodos anuais. Neste ano, a administração compete a ela; no vindouro, teremos as diretrizes do Irmão Galba. — Cada administrador recebe descanso de um ano? — Indaguei, admirado. — Sim, aproveitando-se o período de repouso, em Esferas mais altas, ao contato de experiências e estudos que enriqueçam o Espírito do missionário e beneficiem as obras gerais da instituição, com vistas ao futuro. Estou informado de que Zenóbia e Galba dirigem esta casa, há precisamente vinte anos consecutivos, ora um, ora outro. Administradores diversos, no entanto, têm passado por aqui, demandando outros rumos, no plano de elevação… De quando em quando, voltam a visitar-nos, ministrando sagrados incentivos à comunidade de trabalhadores do bem. — E você? — Interroguei, talvez indiscreto, — onde passa os recreios e entretenimentos? — De conformidade com os estatutos que nos regem, possuo também minhas horas de repouso. Todavia, — e a sua voz tocou-se de velada tristeza, — ainda não posso fruí-las em Esfera mais alta. Desfruto-as nos campos da Crosta, respirando o ar puro e tonificante dos pomares e jardins silvestres. O oxigênio, por lá, é mais leve que o absorvido por nós, nestes Círculos abafados de transição, onde há que lidar com os resíduos do pensamento humano.
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