Essa mistura de ideias pagãs e cristãs nada tem que deva surpreender. Jesus não podia, de uma hora para outra, destruir crenças arraigadas, pois faltava ao homem conhecimentos necessários para conceber a infinidade do Espaço e o número infinito dos mundos; para eles a Terra era o centro do universo; não lhe conheciam a forma nem a estrutura interna; tudo se limitava ao seu ponto de vista: as noções do futuro não podiam ir além dos seus conhecimentos. Jesus encontrava-se, pois, impossibilitado de os iniciar no verdadeiro estado das coisas; mas, por outro lado, não querendo com a sua autoridade sancionar os preconceitos dominantes, absteve-se de os retificar, deixando ao tempo essa missão. Limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada e dos castigos reservados aos culpados, sem se referir jamais nos seus ensinos a castigos e suplícios corporais, que constituíram para os cristãos um artigo de fé.
Eis aí como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos dias. Foi preciso a difusão das luzes dos tempos modernos e o desenvolvimento geral da inteligência humana para lhe fazer justiça. Como, porém, nada de positivo houvesse substituído aquelas velhas concepções; ao longo período de uma crença cega sucedeu, transitoriamente, o período da incredulidade a que vem pôr termo a Nova Revelação. Era preciso demolir antes de reconstruir, já que é mais fácil incutir ideias justas aos que em nada creem, por sentirem que algo lhes falta, do que fazê-lo pelos que possuem uma fé sólida, ainda que absurda.