VIII
Em outro exemplo, certo capitão Youatt tem a visão, dita clarividente, de algumas pessoas, praticamente à morte, retidas numa montanha coberta de neve. A visão é tida como sonho e foi de um realismo impressionante. O sensitivo acordou, voltou a 'adormecer' e 'sonhou' novamente com o mesmo local e as mesmas pessoas, ainda em perigo. Pela sua descrição minuciosa foi possível localizar a cena, que se passava a cerca de duzentos quilômetros de distância. Uma expedição, arranjada às pressas, partiu e localizou o grupo perdido na neve, no ponto descrito pelo capitão. Não vejo sono nem sonho aí e sim, um desdobramento, com o deslocamento do perispírito do capitão Youatt até o grupo que se debatia na neve. Já o caso de Stainton Moses é de vidência mediúnica. Conta ele que, no decorrer de uma sessão, viu claramente dois dos seus amigos espirituais que se dava a conhecer como Theophilus e o Profeta: Eles se mostravam sólidos e nítidos aos olhos, como qualquer ser humano sob intensa luz. Colocando minha mão sobre os olhos, continuei a vê-los, mas virando-me, não consegui vê-los mais. Essa experiência repeti várias vezes Fondor, Nandor. 1969.) O caso é de vidência mediúnica e demonstra, como assinala Fodar as imagens não trafegam pelos órgãos da visão comum, mas, como ensina André Luiz, vão direto aos centros cerebrais que comandam esse sentido. Alfred Voult Peters, apud Fodor, explica: No estado de clarividência todas as sensações corporais parecem fundir-se num único sentido, de forma que a pessoa é capaz de ver, ouvir, provar, cheirar e, acima de tudo, saber. (Fodor. Nandor. 1969). Na realidade, a função dos sentidos é precisamente essa - a de levar alguma forma de conhecimento ou informação à mente. Uma vez que a informação chegou lá por via direta, para que se utilizar do sistema auxiliar? Isto é, a supor que não há, em verdade, uma fusão dos sentidos, como sugere-se. A informação é que vai ao ponto em que os sentidos ainda não estão desdobrados pelos diversos órgãos ou sistemas, mas apresentam-se como faculdade global de apreensão da realidade. Não é sem razão que os sentidos costumam ser chamados tecnicamente de analisadores. Por isso, a mente acaba sabendo, sem precisar ver, ouvir, apalpar, cheirar ou provar com os instrumentos de que dispõe no corpo físico. Se posso falar com alguém a viva voz, face a face, para que iria recorrer ao telefone? Heinrich Zchokke, igualmente citado por Fodor, dispunha de uma faculdade também observada em Regina páginas atrás, a de perceber (saber) informações não-reveladas. Observemos como ele explica isso: Acontece a mim, às vezes, quando pela primeira vez me encontro com pessoas desconhecidas, que, à medida que as ouço, em silêncio, vejo cenas do passado delas relacionadas com o que me dizem ou outras cenas em particular, tudo involuntariamente, e como que em sonho, contudo perfeitamente claro diante de mim. (Idem) Não sei se isto ficaria bem classificado como clarividência ou como uma espécie de psicometria, feita diretamente nos registros da memória da pessoa presente. Ficam abertas essas hipóteses à especulação. Outra observação curiosa: os espíritos explicaram a Kardec, como vimos, que a vidência só ocorre quando o espírito a deseja e o vidente oferece condições adequadas. Há, pois, um intercâmbio de vontades e de recursos energéticos. Suponho que coisa semelhante acontece em casos como o de Regina e Zchokke. Sob condições ideais, parece fechar-se um circuito e o fenômeno se produz. Ou então, como já especulamos, algum espírito amigo presente promove a exteriorização das imagens que o sensitivo capta. Terceira hipótese: as imagens são projetadas inconscientemente pelo próprio narrador. Há pessoas que dispõem desse recurso quase mágico de pintar verdadeiros quadros com palavras. A língua inglesa conta com uma expressão típica para a situação, ao dizer que a descrição é a gráfica, seja ela escrita ou falada. 6. ESPAÇO E TEMPO Não há dúvida, porém, de que a grande maioria dos fenômenos de clarividência - especialmente os da chamada itinerante (traveling, dos ingleses) - resulta de desdobramento do perispírito do sensitivo. o que pode facilmente confundir-se com mediunidade. Ao tempo em que realizei pesquisas com a memória, pude observar que praticamente todas as pessoas que exerciam qualquer forma de mediunidade, regular ou esporadicamente, ofereciam condições satisfatórias para o desdobramento por meio de passes magnéticos. O que é também válido para a hipnose. É lamentável que a ciência, em geral, e a pesquisa psíquica, em particular, tenham se mostrado tão obstinadamente relutantes em admitir - ainda que como hipótese de trabalho - a existência de um segundo corpo desdobrável no ser humano, ao qual o espiritismo propõe chamar de perispírito. (Confesso que, pessoalmente, prefiro o termo psicossoma, proposto por André Luiz e outros, ou seja corpo psíquico, que aliás figura no capítulo 15 da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, Os primeiros documentos da Codificação entendem o perispírito - como seu nome indica - como um 'envoltório' do espírito. Em O livro dos médiuns, contudo, capítulo XXXll, encontramos o conceito de que "nos espíritos errantes, (O perispírito) constitui o corpo fluídico do espírito") Uma vez aceita a realidade desse segundo corpo, fica fácil compreender certos aspectos que, sem essa noção, permanecem obscuros e até misteriosos, quando, ao contrário, resultam de simples operações naturais, regidas por leis óbvias por si mesmas, Seja como for, o fenômeno da clarividência - ou o conjunto de fenômenos conhecidos sob esse nome - tem sido intensamente observado. Adolphe Didier foi estudado a sério pelo dr. Edwin Lee, que dá conta de suas observações em um livro intitulado Animal magnetism, segundo informação de Fodor. Outra sensitiva muito estudada e comentada foi Adele Maginot da qual se ocupou um paciente pesquisador francês por nome Alphonse Cahagnet (nunca me perdoei por ter deixado escapar a oportunidade de adquirir um exemplar da sua obra, em vários volumes, num sebo carioca!). Adele desdobrava-se e deslocava-se com a maior facilidade e a grandes distâncias geográficas. Eram tão realistas essas viagens que ela temia por feras que, porventura, pudesse encontrar em suas visitas a regiões infestadas delas. Certa vez, trouxe para o corpo físico queimaduras solares que sofreu numa de suas excursões, em espírito (ou melhor, em perispírito), por uma região tropical de intensa insolação. Todo um lado da face até os ombros ficou literalmente queimado no corpo físico, de um vermelho azulado, que somente começou a desaparecer vinte e quatro horas depois. "O calor era tão intenso no local- diz Cahagnet - que não se podia colocar a mão sobre ela." Certo doutor F. (não-identificado no texto) magnetizou uma jovem de nome Jane e mandou-a ver o que estava ocorrendo com Eglinton (previamente avisado e, entre oito e dez horas da noite de determinado dia. A moça 'foi' e descreveu o que estava vendo: - Vejo um homem muito gordo com uma perna de pau e que não tem miolos (cérebro). Chama-se Eglinton. Está sentado diante de uma mesa sobre a qual há alguma bebida alcoólica, mas não está bebendo. À primeira vista, estava falando de coisas sem pé nem cabeça, não fez sentido depois que Eglinton explicou: ele havia feito um gordo e desengonçado boneco, vestido com suas próprias roupas ... Em experiências de Pierre Janet com Léonie, a sensitiva desdobra-se a Charles Richet que o seu laboratório de pesqüisa estava pegando fogo, estava mesmo, claro, pois ela foi lá e viu ... Robert James Lee, em desdobramento, excursionava pelo futuro e via, por antecipação - como experiências que vimos com Regina - os crimes que Jack, o Estripador, iria cometer no dia seguinte, com a exata descrição do local. Não são raros os que podem ir ao passado, como também já vimos e lembra Fodor. Este autor, contudo, prefere considerar tais fenômenos como de psicometria. Ele não explica porque assim entende, mas suponho que seja por consulta a objetos ou talvez contato com os muitos citados registros akásicos de que nos falava Cayce, nas suas 'leituras'. O prof. Nandor Fodor lembra que essa faculdade pode e deve ser utilizada em pesquisas históricas, um dos meus temas prediletos. Um dos casos citados por Fodor é o da sra. Thompson, que o narrou em carta publica da pela SPR, em 24 de maio de 1900. Esta senhora, sozinha em casa, convocou mentalmente uma pessoa (viva) a comparecer diante dela naquele momento. Ninguém em especial, mas uma pessoa qualquer. Diz ela que não perdeu a consciência por um momento, ou seja, que não adormeceu, sobre o que tenho minhas dúvidas. O certo é que, de repente, sentiu a presença de alguém e, "ao abrir os olhos", viu com grande surpresa - "por clarividência, naturalmente", diz ela - um amigo seu, o sr. J. G. Piddington, que lhe contou que acabara de ter um forte desentendimento com alguém cujo nome indicou. A veracidade do evento foi atestada posteriormente. É estranho pensar que alguns pesquisadores do passado tenham tido melhor visão de tais fenômenos do que têm hoje tantos cientistas munidos da mais sofisticada aparelhagem e dispondo de conhecimentos adicionais. Parece mesmo que a verdade se revela melhor àqueles que a enfrentam com simplicidade, não, porém, como simplórios. Decididamente, ela não parece ter grande simpatia para com os orgulhosos e suficientes. Em 1849, por exemplo, escrevia o dr. Herbert Mayo, eminente professor de medicina, na Inglaterra: Acho que a mente de uma pessoa viva no seu estado normal está sempre, de certa forma, atuando extra-neuronicamente (fora do sistema nervoso) ou além dos limites físicos da pessoa e que no estado lúcido essa percepção extraneurônica parece estender-se a todos os objetos e pessoas à sua volta. (Fodor Nandor, 1969). Ou seja, uma parte de nossa atenção, mesmo em estado normal de lucidez, está permanentemente voltada para o ambiente em que nos movimentamos.
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