XI
Ouço dizer que gregos e romanos eram mais econômicos nisso. Para eles bastava dar uma cuspida para um lado que estavam livres do 'fascinario ou da byokagia'. Desde muito tempo, contudo, parece ter sido descoberto que a motivação principal do mau-olhado é a inveja e, por isso, era considerado desastroso ouvir elogios. Foi assim que se tornou comum dizer-se o Benzodeus (Benza-Deus) que se ouve pelo interior do Brasil. Em inglês se diria ... as God Will, ou God Bless it. No fundo, a mesma coisa. Turcos e árabes, segundo a Enciclopédia Britânica, acham que cavalos e camelos têm 'olho ruim'. Mas, não somente esses povos, pois muitos no Oriente usam a reprodução de pequenos textos sagrados pendurados em si mesmos ou nos animais que montam, para evitar problemas com o mau-olhado. Diz-se, também, que ainda hoje a crença é muito forte em Nápoles, onde o cidadão dotado da temível faculdade do malócchio é chamado de 'jattatore' (jactancioso, presunçoso), do qual todos fogem. Para algum encontro imprevisto, o melhor mesmo é carregar certos amuletos em forma de chifres, sapos e de meia-lua. No Egito, as mães costumam atribuir o mau-olhado, a aparência doentia das crianças. Consta na Britânica, que o receio do mau-olhado é pouco divulgado nas Américas, entre os povos de ascendência européia. Penso que não é bem isso, pois encontramos tal convicção espalhada por toda a parte. Seja como for, há escassa evidência de que seja apenas uma superstição de gente ignorante. É, antes, uma realidade ainda não muito bem estudada, mas que encontra na ciência e no conhecimento dos mecanismos psíquicos do ser humano sólidas bases para explicá-la. A superstição está em achar que basta dar uma cuspida de lado, agitar uma penca de chaves, bater na madeira, ou usar um talismã para livrar-se de influenciação negativa. A defesa a essas agressões, que de fato existem, consiste em se procurar viver numa faixa vibratória na qual se torne cada vez mais difícil sintonizar com as emissões de desarmonia irradiadas por toda a parte, em muitos megahertz. 5. O PAPA E O MOLÒCCHIO Nino Lo Bello, na obra The Vatican Papers, conta que até a alguns papas é atribuída a faculdade do 'olho ruim'. Um deles, Paulo VI. Curiosos episódios estão narrados no capítulo intitulado Por que ele pode ter sido o papa mais impopular. Em 1975, por exemplo, conta Lo Bello que o aeroclube de Milão, cidade onde Paulo VI havia sido um respeitado e admirado arcebispo, resolveu prestar-lhe uma homenagem. Voou para Roma com uma réplica da imagem da Madonna que fica no Duomo da catedral daquela cidade. Ao descer de pára-quedas, em plena praça de São Pedro, a estátua partiu-se. De regresso a Milão, o avião sofreu um acidente e toda a equipe da homenagem morreu. Acrescenta que milhões de italianos atribuíram a razão de tão desastrada homenagem ao 'olho ruim' do papa. Isso é injusto. Paulo VI foi um homem sensível e bom, no entanto, a fama de que era um emissor de 'mau-olhado' espalhou-se por toda a parte e durou os quinze anos de seu papado. O Vaticano, aliás, não julgou necessário promover nenhuma campanha para desmentir a injusta fama do Papa, talvez, por considerá-la ridícula e sem fundamento. Lo Bello afirma que por toda a Itália se encontra gente usando talismãs e amuletos em defesa do MALÒCCHIO. Mesmo os italianos que zombam e declaram não acreditar nisso, costumam às vezes, carregar algum desses amuletos." Nunca se sabe ... dizem eles. Tal como o ilustre cavalheiro Dom Quixote - sabe-se que não há bruxarias, mas não custa carregar uma figurinha escondida, alhures, na roupa - o autor do livro informa que nem Mussolini estava livre desses receios. Devia ter suas dúvidas (ou certezas, quem sabe?). Segundo Lo Bello - descendente direto de italianos, embora americano de nascimento - Pio XII também tinha suas precauções contra o malócchio. Por via das dúvidas, evitava encarar de frente o cardeal Montini (futuro Paulo VI), sempre que este ia falar com ele no Vaticano. Aliás, o jornalista e escritor diz mesmo que Pio XII não morria de amores por Montini por causa de divergências pessoais e que este só foi elevado ao cardinalato por João XXIII que, aparentemente, não tinha receio do mau-olhado que imputavam a Montini. Segundo os entendidos, na Itália é fácil identificar o olho ruim, dado que se parece com o olhar do gato. (Já notaram que o gato não pisca? Ele só fecha os olhos para dormir). Para evitar envolvimentos com o malòcchio, os italianos conservam o antigo costume de seus antepassados romanos, cuspindo para um lado ou, então, usam qualquer roupa azul. Há quem sacuda um chaveiro e os que nunca enfrentam uma pessoa, olhos nos olhos. A figa também é de uso generalizado. Tudo isso segundo o nosso competente informante. Nino Lo Bello. Uma série de desagradáveis coincidências parece ter perseguido Paulo VI. Em 1967, um violento terremoto abalou a Turquia depois que o Vaticano anunciou que o papa visitaria aquele país. Em 1970, foi um ciclone desastroso que sacudiu o Paquistão depois que o papa decidiu visitar o Oriente. Um episódio muito comentado (e lamentado pelos fanáticos torcedores do futebol italiano) deu-se quando, após uma visita ao papa, um time não conseguia mais ganhar nenhum jogo, não faltou quem culpasse o mau-olhado de sua Santidade. Lo Bello diz, ainda, que Paulo VI não contribuiu em nada para melhorar sua imagem quando mandou tirar são Nicolau da categoria dos santos da igreja. Ora, na Europa e nos Estados Unidos, é ele a própria figura do que chamamos por aqui Papai Noel. A revolta maior foi em Bari onde o santo é o padroeiro local e, segundo a tradição, seus ossos estão enterrados, desde 1087, depois de tomados aos sarracenos. Magnífica basílica construída em honra ao santo foi decorada por artistas árabes no século XI, com maravilhosos e intrincados desenhos no piso Somente alguns séculos depois, descobriu-se que eles escreveram disfarçadamente o grande postulado islâmico: "Só há um Deus e Maomé é o seu profeta". Por isso, o piso de uma igreja católica ostenta uma profissão de fé muçulmana. Mas, isto, afinal de contas, nada tem com o mau-olhado e entrou no capítulo como Pilatos no credo. Não há dúvida, porém, de que é injusto atribuir a Paulo VI essa faculdade. Foi um homem compassivo, bom e sensível. É incompatível com a sua inata religiosidade e bondade a idéia de que fosse um 'jattatore', ou seja, uma fonte emissora de desastres que afligiram tanta gente, como lhe desejam atribuir. É certo, porém, que forças mentais poderosas podem ser manipuladas pelo pensamento e pela vontade. Não há, portanto, mau-olhado no sentido de que um simples olhar possa fazer murchar uma planta ou adoecer uma pessoa; há, contudo, sentimentos desarmonizados que, potenciados pela vontade consciente ou inconsciente, acarretam distúrbios consideráveis em pessoas, animais e plantas. O pensamento é a mais poderosa energia no universo e circula por um sistema perfeito de vasos comunicantes, através de toda a natureza. Segundo as intenções sob as quais é emitido, tanto pode construir, como destruir. Dar vida, como retirá-la. Nada mais que isso. Do ponto de vista do nosso estudo, é um fenômeno anímico, dado que é uma atividade do espírito encarnado. Pode, no entanto, contar, eventualmente, com a colaboração ou envolvimento de espíritos desencarnados, tanto secundando aquele que quer ajudar com pensamentos positivos de vitalidade e harmonia, como aquele que deseja destruir. Seria muito bom que toda a gente soubesse que, assim como o amor tem a sua resposta e desencadeia uma reação positiva que retorna ao que ama, o mal também dispara um mecanismo que tanto o leva ao seu alvo como traz de volta ao emissor a resposta correspondente. Um dia todos nós vamos entender que não é inteligente ser mau. E então, não haverá mau-olhado ...
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Nome do Capítulo Mau-olhado