Realizadas as modificações a que eu fora incumbido de fazer, um dos executivos substituídos (contra a sua vontade, obviamente) despediu-se de mim com um vigoroso aperto de mão, um sorriso-padrão nos lábios e um estranho brilho nos olhos. Senti uma verdadeira descarga elétrica que me subiu, como um raio, pelo braço e foi explodir na cabeça. A impressão nítida foi a de que a 'bomba' abriu uma cratera na altura das têmporas, à esquerda, região na qual ficou latejando uma dor aguda. (Não me ocorrera antes, mas vejo agora, ao relatar esse desagradável incidente, que o petardo tinha mesmo de atingir o lado esquerdo do cérebro, pois é o que comanda o lado direito do corpo, ou seja, a mão que recebera o aperto fatídico).
Isso foi à tardinha. Não houve o que fizesse passar a dor e nem aquela estranha sensação de que eu tinha um rombo na cabeça, à esquerda. Tinha a impressão de que se olhasse no espelho eu veria o buraco como o de uma bala que entrara por um lado e fugira pelo outro. À noite, fui ver um amigo e confrade porque dirigia um grupo espírita e lhe pedi que designasse alguém para me dar um passe, pois estava com a impressão de ter sido atingido por um impacto psíquico muito forte. Dotado de bem- treinada mediunidade, ele me olhou por um momento e disse: - Foi um verdadeiro petardo que atingiu você ...
Uma das senhoras presentes levou-me para um cômodo anexo, fizemos uma prece e ela me deu os passes necessários. Prontamente fiquei curado da dor de cabeça e como que se fechou a 'cicatriz' na cabeça.
Mas eu havia dito que Regina vivenciou dois episódios desses e acabei introduzindo um dos meus depoimentos pessoais. Vamos ao segundo caso.
Certa vez, ela comprou um lindo buquê de monsenhores brancos. Preferiu essa flor por ser a que melhor oferecia resistência ao calor abrasador, àquela época do ano.
Chegando em casa, arrumou as flores caprichosamente numa jarra e o arranjo lá ficou como que dominando toda a sala com o encanto peculiar da decoração viva.
Nesse mesmo dia, recebeu a visita de um casal conhecido. A mulher ficou literalmente fascinada pela jarra de monsenhores. A todo momento olhava-a e dizia: - Mas que beleza de flores! Ao cabo de algum tempo, despediram-se e saíram.
Ocupada com outros afazeres, Regina passou cerca de meia hora ou pouco mais fora da sala. Quando voltou a contemplar as flores, teve um choque: elas pendiam, murchas e pálidas, dos seus frágeis e ressecados caules. No outro dia, estavam acabadas.
Ela reconhece que a moça não olhou as flores com raiva mas, no fundo, é certo que havia na sua admiração um tom de cobiça ou de inveja, que são vibrações nitidamente negativas, ainda que muito sutis. Tão fortes, porém, que atingiram os pobres monsenhores que não resistiram ao bombardeio.
Aliás, não há dúvidas, à vista de inúmeras e bem-documentadas experiências, de que as plantas e os animais, tanto quanto os seres humanos, respondem às emissões mentais negativas ou às positivas. As experiências do dr. (e reverendo protestante) Franklin Loehr, na obra The power of prayer on plants, dão testemunho dessa irrecusável realidade. Plantas obtidas do mesmo grupo de sementes e tratadas sob condições idênticas de terreno, umidade, luz e calor cresceram mais vigorosas e saudáveis quando recebiam preces - diretamente ou através da água - do que as outras que eram abandonadas à sua própria sorte ou, pior, aquelas sobre as quais eram disparados pensamentos negativos. Lembro-me da reportagem na revista americana Time, logo que as experiências do dr. Loehr foram divulgadas, que as pobres plantinhas escolhidas para o papel de vítimas eram chamadas até de comunistas ...
Se aprofundarmos um pouco mais essa realidade, vamos encontrar a mesma verdade universal de sempre: 1) o amor é a grande força construtiva; 2) o ódio, o elemento desagregador; 3) a vida, uma única energia que circula por toda parte, solidariamente; 4) o pensamento é o veículo de tudo isso.
Em "verdade, o amor não precisa de palavras para expressar-se e, infelizmente, nem o ódio. Eles simplesmente se comunicam a partir do foco emissor e, por onde passam, sintonizam-se com os ritmos que lhes são afins.
Recorremos mais uma vez a Regina para demonstrar a reversibilidade dessas correntes, magnéticas ou psíquicas, seja lá o que for. Basta direcionar o impulso num sentido ou noutro. É tudo uma questão de estrutura espiritual, de equilíbrio ou desequilíbrio. O facínora que ataca para roubar e despede vibrações de desarmonia em relação à pessoa agredida, pode ter gestos de extrema ternura com uma filhinha doente, mais tarde.
Certo Dia da Mestra, uma das turmas às quais Regina lecionava resolveu se cotizar para dar-lhe um vistoso buquê de rosas vermelhas - suas prediletas. O verão estava ardente, como de hábito, àquela altura do ano. Ela recebeu as flores de seus alunos do turno da manhã e, como trabalhava em dois colégios, só regressou à casa à noitinha.
Nesse ínterim, teve de ficar carregando o buquê de um lado para outro, sem poder tratá-lo devidamente. À noite, as rosas estavam completamente murchas, caídas sobre as hastes sem vida. Não tinham resistido ao calor e aos maus tratos involuntários, mas não menos prejudiciais. Nada mais havia a fazer senão jogá-las no lixo. Já estava para selar o destino final das flores, quando parou um momento para pensar. Não era possível! Afinal as crianças lhas haviam dado com tanto amor, em testemunho de uma amizade pura e desinteressada. Gastaram com elas o dinheirinho escasso das mesadas. Não era justo atirá-las fora sem consideração.
Assim pensando, e em homenagem às crianças, ela resolveu colocar flores numa jarra do jeito que estavam. Arrumou-as com muito carinho, com um pensamento de gratidão pelas crianças. Como estava cansada, após o longo e encalorado dia de trabalho, logo foi dormir.
Pela manhã do dia seguinte, foi grande o impacto. As rosas estavam muito bem vivas, fresquinhas, lindas, como se acabassem de ser colhidas nalgum jardim da vizinhança.
Todas abertas mostrando suas corolas generosas e levemente perfumadas. Até as folhas que, ainda na véspera, estavam murchas e pardacentas, exibiam um verde novo, brilhante, saudável. Flores e folhas firmes e elegantes. Regina parou e ficou a contemplá-las por um bom tempo, um tantinho assustada, desse susto que nos causam coisas assim espantosas que antigamente pensávamos ser milagre. No entanto, o único 'milagre' que se dera ali fora o amor. As plantas são muito sensíveis e resolveram, lá entre elas, não desapontar nem às crianças, nem à Regina. Não custava nada voltarem à vida só pelo prazer de proporcionar um pouco de alegria.
Isso explicaria, também, por que certas pessoas têm 'mão boa' para plantas e outras, não. Não são as mãos - ou os olhos - que são boas ou más, elas se limitam a veicular as energias que recebem do centro emissor, de onde provêm. As pessoas que amam plantas também amam a vida e, num nível subliminar, se comunicam com esses seres silenciosos e primitivos, infundindo-lhes a alegria de viver.
Isso eu pude verificar pessoalmente muitas vezes. Por algum tempo, mantive no meu gabinete de trabalho (profissional) uma planta. Entendíamo-nos muito bem e, embora ninguém percebesse, pois nossos diálogos eram mudos, sempre que podia eu lhe dava uma palavrinha de estímulo dizendo o quanto ela estava bonita e o quanto me alegrava vê-la participando do meu trabalho, enfeitando o ambiente e espalhando suas boas vibrações. Receio até tê-la tornado um pouquinho vaidosa de tanto elogio e afeto mas, como sabemos, todos temos nossas pequeninas fraquezas. Afinal de contas, ela também tinha suas razões ... eram muitos os que a elogiavam (sem mau-olhado ... ).
4. PESQUISANDO O ASSUNTO
Mas eu dizia, há pouco, da dificuldade de encontrar material confiável de pesquisa, neste assunto. Consegui, contudo, apurar o suficiente para saber que a despeito da sofisticação meio irônica dos autores, que tratam o problema do mau olhado como tola superstição popular, existe uma realidade subjacente nisso. E nem poderia deixar de haver, quando sabemos que tudo isso que nos cerca, visível ou invisível, é pensamento - de Deus ou dos seres humanos encarnados ou desencarnados.
A sabedoria popular é muito mais profunda do que pode parecer. Fenômenos anímicos e mediúnicos da maior importância e de dramáticas implicações foram e continuam sendo considerados meras superstições por muita gente que se diz inteligente, culta, civilizada e superior.
A idéia do mau-olhado é antiga e está espalhada pelo mundo todo, o que se comprova facilmente pelos nomes que servem para designá-la nas diversas línguas. Na Roma antiga, a palavra era 'fascinatio' (fascinação). Os gregos diziam 'byokagia'.
Modernamente se diz 'mal-olhado' em português, 'evil eye' em inglês, 'malócchio' em italiano, 'mauvais oeil' em francês etc. etc...
Segundo apurei, há livros sérios escritos sobre o assunto, como Evil eye, de F. T.
Elworth, de 1895, Evil eye in the Westen Highlands, de R. C. Maclagan, de 1902 e até um mais recente, de 1958, intitulado The evil eye: Studies in the folklore of vision, de Edward S. Gifford. Infelizmente não os tenho à mão para um exame mais demorado.
Dá, no entanto, para perceber que, embora tratado como folclore, o problema que interessa aos eruditos. Por outro lado, sabemos perfeitamente que parece haver mais intensa fixação supersticiosa nas camadas ditas elevadas da sociedade do que nas mais humildes. Do contrário, não encontraríamos pessoas dispostas a pagarem tão bom dinheiro por signos, talismãs, berloques e figuras cabalísticas em geral, destinadas a 'proteger' os seus portadores do 'mau -olhado, evil eye, malòcchio ou mauvais oeil'... O dia em que essa gente toda descobrir que a proteção está no comportamento pessoal de cada um e não numa peça de madeira ou numa jóia de alto preço cravejada de brilhantes, muita indústria vai falir à falta de mercado para suas bugigangas.