(Sobre o estado dos Espíritos desencarnados) Enfim, meu bem-amado, me é possível satisfazer, conquanto apenas em parte, meu desejo e o teu, e de te comunicar alguma coisa concernente ao meu estado atual. Desta vez não te posso dar senão pouquíssimos detalhes. No futuro, tudo dependerá do uso que fizeres de minhas comunicações.
Sei que o desejo que experimentas, de ter noções sobre mim, como em geral sobre o estado de todos os Espíritos desencarnados, é muito grande, mas não ultrapassa o meu de te ensinar o que é possível revelar. O poder de amar daquele que amou no mundo material, aumenta inexprimivelmente, quando se torna cidadão do mundo imaterial. Com o amor aumenta também o desejo de se comunicar aos que conheceu, aquilo que ele pode, o que lhe é permitido transmitir.
Devo começar por te explicar, meu bem-amado, a ti que amo cada vez mais, como me é possível te escrever, sem, ao mesmo tempo, poder tocar o papel e conduzir a pena, e como posso falar a ti numa língua inteiramente terrestre e humana que, em meu estado habitual, não compreendo.
Esta só indicação deve servir-te de traço de luz, para poder compreender como deves encarar o nosso estado presente.
Imagina meu estado atual, diferente do anterior, mais ou menos como o estado da borboleta, adejando no ar, difere de seu estado de crisálida. Sou justamente essa crisálida transfigurada e emancipada, já tendo sofrido duas metamorfoses. Exatamente como a borboleta volita em redor das flores, nós voejamos muitas vezes em torno das cabeças dos bons, mas nem sempre. Uma luz, invisível para vós mortais, visível apenas para bem poucos de vós, irradia ou brilha docemente em redor da cabeça de todo homem bom, amante e religioso. A idéia da auréola com que cercam a cabeça dos santos, é essencialmente verdadeira e racional.
Simpatizando esta luz com a nossa – todo ser bem-aventurado não o é senão pela luz – o atrai para ela, conforme o grau de sua claridade, que corresponde à nossa. Nenhum Espírito impuro ousa e pode aproximar-se dessa santa luz. Repousando-nos nessa luz, acima da cabeça do homem bom e piedoso, podemos ler incontinenti em seu espírito. Vemo-lo tal qual ele é em realidade.
Cada raio que dele sai é para nós uma palavra, por vezes todo um discurso; respondemos aos seus pensamentos. Ele ignora que somos nós que respondemos. Nele excitamos idéias que, sem nossa ação, ele jamais teria estado em condição de as conceber, embora a disposição e a aptidão para as receber sejam inatas em sua alma.
O homem digno de receber a luz torna-se, assim, um órgão útil e muito proveitoso para o Espírito simpático, que deseja comunicar-lhe suas luzes.
Encontrei um Espírito, ou antes, um homem acessível à luz, do qual pude aproximar-me, e é por seu órgão que te falo.
Sem sua intermediação, ter-me-ia sido impossível entreter-me contigo humanamente, verbalmente, palpavelmente, numa palavra, escrever-te.
Desta maneira, pois, recebes uma carta anônima da parte de um homem que não conheces, mas que nutre em si uma forte tendência para as matérias ocultas e espirituais. Plano acima dele; posto-me sobre ele, mais ou menos como o mais divino de todos os Espíritos se postou sobre o mais divino de todos os homens, após o seu batismo; suscito-lhe idéias; ele as transmite sob a minha intuição, sob minha direção, por efeito de minha irradiação. Por um leve toque, faço vibrarem as cordas de sua alma de maneira conforme à minha e à sua individualidade. Ele escreve o que desejo fazê-lo escrever; escrevo por seu intermédio; minhas idéias tornam-se as suas. Ele se sente feliz escrevendo. Torna-se mais livre, mais animado, mais rico em idéias. Parece-lhe que vive e plana num elemento mais alegre, mais claro. Marcha lentamente, como um amigo conduzido pela mão de um amigo, e é desta maneira que de mim recebes uma carta. Aquele que escreve supõe-se livre e o é realmente. Não sofre nenhuma violência; é livre como o são dois amigos que, embora andando de braço dado, se conduzem mutuamente.
Tu deves sentir que meu Espírito se acha em relação direta com o teu; concebes o que te digo; escutas os meus mais íntimos pensamentos. É bastante por esta vez. O dia em que ditei esta carta chama-se entre vós 15 de setembro de 1798.