Quarta carta
Em minha carta precedente, mui venerada imperatriz, eu vos prometi enviar a carta de um defunto ao seu amigo da Terra. Ela poderá vos fazer compreender melhor e captar minhas idéias sobre o estado de um cristão após a morte de seu corpo. Tomo a liberdade de juntá-la a esta. Julgai-a do ponto de vista que vos indiquei e dirigi vossa atenção antes para o assunto principal do que para alguns detalhes particulares que o cercam, embora eu tenha razões para supor que estes últimos também encerrem alguma coisa de verdadeiro. Para a compreensão das matérias que vos exporei na continuação sob essa forma, creio necessário fazer-vos notar que tenho quase certeza de que, malgrado a existência de uma lei geral, idêntica e imutável, de castigo e de felicidade suprema, cada Espírito, segundo o seu caráter individual, não somente moral e religioso, mas mesmo pessoal e oficial, terá sofrimentos a suportar após a sua morte terrestre e gozará de felicidades que não serão apropriadas senão a ele mesmo. A lei geral individualizar-se-á para cada indivíduo em particular, isto é, em cada um produzirá um efeito diferente e pessoal, da mesma forma que um raio de luz, atravessando um vidro colorido, convexo ou côncavo, dele tira, em parte, sua cor e sua direção. Eu queria, pois, que fosse aceito positivamente; que, embora todos os Espíritos bem-aventurados, menos felizes ou sofredores se encontrem sob a mesma lei muito simples de semelhança ou dessemelhança com o mais perfeito amor, deve-se presumir que o caráter substancial, pessoal, individual de cada Espírito constitua para ele um estado de sofrimento ou de felicidade essencialmente diferente do estado de sofrimento ou de felicidade de um outro Espírito. Cada um sofre de uma maneira que difere do sofrimento de um outro, e sente prazeres que um outro não seria capaz de sentir. A cada um dos mundos material e imaterial, Deus e o Cristo se apresentam sob uma forma particular, sob a qual não aparecem a ninguém, exceto a ele. Cada um tem seu ponto de vista que não pertence senão a si próprio. A cada Espírito Deus fala uma língua só por ele compreendida. A cada um se comunica em particular e lhe concede prazeres que só ele está em estado de experimentar e conter. Esta idéia, que considero uma verdade, serve de base a todas as comunicações seguintes, dadas por Espíritos desencarnados aos seus amigos da Terra. Sentir-me-ia feliz se soubesse que compreendestes como cada homem, pela formação de seu caráter individual e pelo aperfeiçoamento de sua individualidade, pode preparar para si mesmo prazeres particulares e uma felicidade apropriada só para si. Como nada se esquece tão depressa, e nada é menos procurado pelos homens que essa felicidade apropriada a cada indivíduo, embora cada um tenha toda a possibilidade de se a proporcionar e dela desfrutar, tomo a liberdade, sábia e venerada imperatriz, de vos rogar com instância que vos digneis analisar com atenção esta idéia que, certamente, não podeis encarar como inútil para a vossa própria edificação e vossa elevação para Deus: Deus colocou-se a si mesmo e colocou o Universo no coração de cada homem. Todo homem é um espelho particular do Universo e de seu Criador. Envidemos, pois, todos os nossos esforços, mui venerada imperatriz, para mantermos esse espelho tão puro quanto possível, a fim de que Deus aí possa ver a si mesmo e sua mil vezes bela Criação, refletidos para sua inteira satisfação. João Gaspar Lavater Zurique, 14 de setembro de 1798
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Mês Abril
Ano 1868