VI
- Preciso conservar o meu jeito - respondeu ele. Assim posso ajudar melhor. Os 'irmãos' (Regina entendeu que ele falava de seus instrutores /orientadores) não conseguem chegar perto deles porque eles se assustam fogem espavoridos. Eu não, pois pareço com eles. Pensam que sou um deles e confiam em mim. Observam minha aparência e meu modo de falar. Eu sei que já falei muito certinho em encarnações em que adquirira muito conhecimento, mas não me dei muito bem com isso. Acho melhor ficar assim como estou. Sou mais útil e não corro muitos riscos. - Mas todos os que chegam aqui são recolhidos? - perguntou Regina - Não. Ih! longe disso! Está vendo aquela cerca? Quando a coisa aperta muito pro lado deles, eles vêm até aí no portão e começam a gritar e pedir socorro, pedindo para serem tirados de lá, pois não agüentam mais. Aí, eu chego lá no portão (eles não sabem abri-lo) e os examino. Os irmãos me ensinaram a fazer isso e entender quando eles estão prontos ou não para serem resgatados. É só olhar pra eles que eu sei. E então pergunto a eles: - Como é, amigo, você quer mesmo vir pro lado de cá? - E eles confirmam que querem, de verdade. E eu lhes falo: - Bem, se você quer mesmo passar pra cá, tá bem. Mas o lado de cá é o lado de Jesus Cristo, hein? E aqui não tem refresco, não. É a cruz. - Então, se querem mesmo, eles aceitam: - Tá bem, seu Ibraim. Faço o que o senhor quiser, mas não dá mais pra ficar aqui. Não agüento mais. Mas se eles estão ali falando só por falar, então quando falo na cruz eles saem em disparada, que nem doidos. Depois dessas explicações, Ibraim leva a irmã a uma pequena construção em meia água com vários compartimentos semelhantes a celas de um presídio. Em cada uma delas havia uma pessoa. E ele informou: - Esses daqui são aqueles que morreram inocentes ou que não são ruins de todo, mas ainda não têm condição de 'ir lá pra dentro'. Ficam aí uns tempos. Todo domingo boto meu terno branco e venho conversar com eles. Animá-los. Uma vez por semana, vêm alguns 'irmãos' e fazem uma pregação pra eles. Eu aproveito pra escutar também. Quanto ao linguajar e à aparência, explica ele que, ao chegar lá, ninguém quer saber quem você é, qual a sua cor ou religião. O que 'eles' querem saber é o que você fez e o que pode fazer pelos outros. Isso é o que é importante. Informou, ainda, que os que comparecem ao portão em busca de socorro e são recolhidos têm de assinar um papel, comprometendo-se a aceitar os regulamentos, obedecer aos 'irmãos' e coisas assim. - Isso não é necessário prá nós - explica Ibraim -, mas pra eles é. Os 'irmãos' dizem que eles estão ainda muito presos ao sistema da Terra. Por isso, quando a gente usa coisa parecida aqui, eles vêem que a 'coisa é séria mesmo'. Terminada a visita, ele foi levar Regina de volta ao seu corpo físico. Permaneceu ali por alguns momentos e comentou: - É a primeira vez que tiro férias, depois de dez anos de trabalho. E ao despedir-se falou: - Diga lá ao seu pessoal - referia-se aos companheiros do grupo mediúnico freqüentado por Regina - que somos muito agradecido a eles pelo carinho com que te tratam. Você sempre foi uma filha pra mim. Regina despertou com os olhos rasos de lágrimas. Mas feliz, lá estava, meu irmão, tão vivo como nunca, o mesmo temperamento alegre, o mesmo coração generoso, as mesmas atitudes e até o modo de falar, tudo, até o último, inesperado e comovente detalhe: o seu infalível terninho branco. Fora a sua roupa predileta dos domingos, quando saía a passear. 7. O DOCE MISTÉRIO DA VIDA Os desdobramentos de Regina se tornaram fonte inesgotável de experiências, de aprendizado e de oportunidades de trabalho útil em favor do próximo e de si mesma. Ao cruzar, com freqüência que virou rotina, as fronteiras sempre arbitrárias que separam a realidade única da vida em dois compartimentos distintos, ela aprendeu a aceitar a convicção inabalável de que, em lugar de terminar com a morte, como tantos pensam, é tudo uma só continuidaade que recomeça alhures sem interromper-se, como quem passa do sono à vigília e vice-versa. Essa convicção, que ultrapassou a condição de fé porque se converteu em certeza, proporciona-lhe a felicidade de redistribuir seus problemas pessoais - não eliminá-los sumariamente - dentro de uma hierarquia diferente, da mesma forma que suas aspirações e anseios ficam posicionados numa diferente escala de prioridades. Os problemas que vive como ser humano encarnado são apenas o que são - ou seja, dificuldades transitórias e até necessárias -, bem como estimuladoras do processo evolutivo. Correções de rumo e ajustes são medicamentos para mazelas pessoais que persistem ao longo dos séculos. Cansados de tais desacertos emocionais, convencemo-nos afinal de que é necessário tomar certos remédios, ainda que amargos, alguns, e muito caros, outros. Como iríamos curar enfermidades persistentes sem a firme decisão de aceitar um tratamento enérgico, dirigido por médicos competentes e bondosos? Além de tudo isso, muito cedo descobriu ela o maravilhoso instrumento de trabalho que é a faculdade anímica do desdobramento, sem a qual não há como exercer as de natureza mediúnica, ou seja, as que permitem funcionar como intermediários entre as duas faces da vida emissários que circulam entre uma e outra, canais vivos de comunicação e intercâmbio, "oficiais de ligação", como diz André luiz, entre um mundo e outro. - Diante das belezas e riquezas da vida espiritual que sou levada a contemplar nessas experiências de convívio pessoal com os dois planos, como pode eu sentir-me infeliz ante os problemas deste lado ou agarrar-me a eles aflitivamente, quando sei, por experiência própria, que os portões da morte se abre para o reino mágico da felicidade onde vivem tantos de nossos amores? Isso não quer dizer, certamente, que devamos minimizar a preciosa oportunidade de estarmos aqui, temporariamente ligados a um corpo de carne, pesado e limitador, na expectativa de um desligamento final que nos liberte o espírito. Isso, não. Há tarefas a realizar aqui, mesmo porque, enquanto formos aprovados no vestibular da vida terrena, não poderemos freqüentar universidades luminosas do mundo maior onde, no dizer de Paulo, não chega o aguilhão da morte. Por essas e outras, eu próprio, o escriba destas páginas, costumo dizer que não tenho fé em nada disso. Sei que é assim ... No que estamos de acordo, não apenas Regina e eu, mas todos aqueles que sabem infinitamente mais do que todos nós reunidos. Talvez, por isso, cantavam Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, num velho filme romântico: "Ah, o doce mistério da vida ... " Por isso, certamente, dizia um amigo espiritual muito querido que, ao chegar de volta ao mundo espiritual, não se deixou impressionar pelo que ignorava e, sim, pelas infinitas possibilidades de aprendizado que se desdobravam ante seus olhos maravilhados ...
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Nome do Capítulo Desdobramento como precondição do trabalho mediúnico