Capítulo 2
Somente assim, ao preço de sacrifício no reajuste, conseguiremos o passaporte libertador!… Calando-se o dirigente da casa, levantou-se da assembleia uma senhora triste, e, caminhando até nós, dirigiu-se a ele em lágrimas: — Meu amigo, releve-me a intromissão. Quando partirei para o campo terrestre com meu filho? Tanto quanto posso, visito-o nas trevas… Não me vê, nem me escuta… Sem se dar conta da miséria moral a que se acolhe, continua autoritário e orgulhoso… Paulo, no entanto, não é para mim um inimigo… É um filho inolvidável… Ah! Como pode o amor contrair tamanho débito?!… — Sim… — Exclamou Druso, reticencioso, — o amor é a força divina que frequentemente aviltamos. Tomamo-la pura e simples da vida com que o Senhor nos criou e com ela inventamos o ódio e o desequilíbrio, a crueldade e o remorso, que nos fixam indefinidamente nas sombras… Quase sempre, é mais pelo amor que nos enredamos em pungentes labirintos perante a Lei… Amor mal interpretado… Mal conduzido… Como se voltasse de rápida fuga ao seu mundo interior, acendeu novo brilho no olhar, afagou as mãos da torturada mulher e anunciou: — Esperamos possa você reunir-se, em breve, ao seu rapaz na valiosa empresa do resgate. Pelos informes de que dispomos, não se demorará ele nas inibições em que ainda se encontra. Tenhamos serenidade e confiança… Enquanto a pobrezinha se retirava com um sorriso de paciência, o Instrutor ponderou conosco: — Nossa irmã guarda consigo excelentes qualidades morais, entretanto, não soube orientar o sentimento materno para com o filho que jaz nas sombras. Instilou nele ideias de superioridade malsã, que se lhe cristalizaram na mente, favorecendo-lhe os acessos de rebeldia e brutalidade. Transformando-se em tiranete social, o infeliz foi fisgado, sem perceber, ao pântano tenebroso, em seguida à morte do corpo, e a desventurada genitora, sentindo-se responsável pela sementeira de enganos que lhe arruinou a vida, hoje se esforça por reavê-lo. — E realizará semelhante propósito? — Perguntou Hilário com interesse. — Não podemos duvidar, — replicou nosso amigo, convincente. — Mas… Como? — Nossa amiga, que amoleceu a fibra da responsabilidade moral no excesso de reconforto, voltará à reencarnação em círculo paupérrimo, recebendo aí, quando novamente mulher jovem, então desprotegida, o filho que ela própria complicou nas antigas fantasias de mulher fútil e rica. Ser-lhe-á, na carência de recursos econômicos, a inspiradora de heroísmo e coragem, regenerando-lhe a visão da vida e purificando-lhe as energias na forja da dificuldade e do sofrimento. — E vencerão no difícil tentame? — Indagou meu companheiro, de novo, evidentemente intrigado. — A vitória é a felicidade que todos lhes desejamos. — E se perderem na batalha projetada? — Decerto, — falou o orientador com expressiva inflexão de voz, — regressarão em piores condições aos precipícios que nos circundam… Depois de um sorriso triste, Druso ajuntou: — Cada um de nós, os Espíritos endividados, em renascendo na carne, transporta consigo para o ambiente dos homens uma réstia do Céu que sonha conquistar e um vasto manto do inferno que plasmou para si mesmo. Quando não temos força suficiente para seguir ao encontro do Céu que nos confere oportunidades de ascensão até ele, retornamos ao inferno que nos fascina à retaguarda… Nosso anfitrião ia continuar, no entanto, um velhinho cambaleante veio até nós e disse-lhe humildemente: — Ah! Meu Instrutor, estou cansado de trabalhar nos tropeços daqui!… Há vinte anos carrego doentes loucos e revoltados para este asilo!… Quando terei meu corpo na Terra para descansar no esquecimento da carne, aos pés dos meus?… Druso afagou-lhe a cabeça e respondeu, comovido: — Não desfaleça, meu filho! Console-se! Também nós, faz muitos anos, estamos presos a esta casa, por injunções de nosso dever. Sirvamos com alegria. O dia de nossa mudança será determinado pelo Senhor. Calou-se o ancião, de olhos tristes. Logo após, o orientador fez vibrar pequena campainha e a assembleia se colocou à vontade para a livre conversação. Um moço de expressão simpática abeirou-se de nós e, depois de saudar-nos afetuosamente, observou, inquieto: — Instrutor amigo, ouvindo-lhe a palavra educativa e ardente, fico a cismar nos enigmas da memória… Por que este olvido para cá da morte física? Se tive existências outras, antes da última, cujos erros agora procuro reparar, por que razão me não lembro delas? Antes de partir para o campo físico, na romagem que me fixou o nome pelo qual hoje respondo, devo ter deixado bons amigos na vida espiritual, assim como alguém que, viajando na Terra de um continente para outro, comumente deixa no cais afeições queridas que não o esquecem… Como justificar a amnésia que me não permite recordar os companheiros que devo possuir a distância? — Bem, — ponderou o interpelado, sabiamente, — os Espíritos que na vida física atendem aos seus deveres com exatidão, retomam pacificamente os domínios da memória, tão logo se desenfaixam do corpo denso, reentrando em comunhão com os laços nobres e dignos que os aguardam na Vida Superior, para a continuidade do serviço de aperfeiçoamento e sublimação que lhes diz respeito; contudo, para nós, consciências intranquilas, a morte no veículo carnal não exprime libertação. Perdemos o carro fisiológico, mas prosseguimos atados ao pelourinho invisível de nossas culpas; e a culpa, meu amigo, é sempre uma nesga de sombra eclipsando-nos a visão. Nossas faculdades mnemônicas, ante as nossas quedas morais, assemelham-se, de certo modo, às películas sensíveis do serviço fotográfico que se inutilizam, sempre que mantidas em posição imprópria, através da qual se fazem vítimas de lamentáveis perturbações. O mentor imprmiu breve pausa aos apontamentos e continuou: — Imaginemos a mente como sendo um lago. Se as águas se acham pacificadas e límpidas, a luz do firmamento pode retratar-se nele com segurança. Mas, se as águas vivem revoltas, as imagens se perdem ao quebro das ondas móveis, principalmente quando o lodo acumulado no fundo aparece à superfície. A rigor, somos aqui, nas zonas inferiores, seres humanos muito distantes da renovação espiritual, não obstante desencarnados. O consulente escutava-o, visivelmente surpreendido, e dispunha-se a formular interrogações novas, ante a pausa que se fizera, mas Druso, antecipando-se-lhe à palavra, acentuou em tom amigo: — Observe a realidade em si mesmo. Embora os estudos a que presentemente se confia e apesar das sublimes esperanças que lhe ocupam agora o coração, seu pensamento vive preso aos sítios e paisagens de que, pela morte, supostamente se desvencilhou. Em pleno caminho da espiritualidade, você se identifica com as escuras reminiscências que permanecem ao longe, no tempo: o lar, a família, os compromissos imperfeitamente solucionados… Tudo isso é lastro, inclinando a sua mente para o mundo físico, onde nossos débitos reclamam sacrifício e pagamento. É verdade, é verdade… — Suspirou o rapaz, compungidamente. Mas o Instrutor prosseguiu: — Sob a hipnose provocada, nossa memória pode regredir e recuperar-se por momentos. Isso, porém, é um fenômeno de compulsão… E em tudo convém satisfazer à sabedoria da Natureza. Libertemos o espelho da mente que jaz sob a lama do arrependimento e do remorso, da penitência e da culpa, e esse espelho divino refletirá o sol com todo o esplendor de sua pureza. Druso ia continuar, mas a chegada de um colaborador impeliu-nos à conclusão do assunto.
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