Capítulo 16
Nossos filhos, ainda frágeis, necessitam de amparo amigo na orientação da vida prática… Dona Mercedes, enxugando os olhos lacrimosos, esboçou gesto de quem ia protestar, todavia, adiantou-se-lhe o doente, acrescentando: — Já sei o que dirá. Nunca duvidei de sua virtude incorruptível, de seu desvelado amor. Nem estou a desinteressar-me da abnegada companheira de luta que o Senhor me confiou. Reconheça, porém, que temos vivido em profunda comunhão espiritual e devemos encarar, com sinceridade e lógica, minha partida próxima. Se você conseguir triunfar de todas as necessidades da vida humana, mantendo-se a cavaleiro das exigências naturais da existência terrestre, certamente Jesus compensará seu esforço com a láurea dos bem-aventurados. Todavia, não procure escalar o cume glorioso da plena vitória espiritual num só voo. Nossos corações, Mercedes, são como as aves: alguns já conquistaram a prodigiosa força da águia; outros, contudo, guardam, ainda, a fragilidade do beija-flor. Sofreria, de fato, por minha vez, se a visse afrontando a montanha redentora, com falsa energia. Não tenha medo. Criaturas perversas não amedrontam almas prudentes. Concedeu-nos o Senhor bastante luz espiritual para discernir. Você jamais poderá ser vítima de exploradores inconscientes, porque o Evangelho de Jesus está colocado diante de seus olhos para iluminar o caminho escolhido. Portanto, a observação e o juízo, o exercício espiritual e a inspiração de ordem superior, permanecerão a serviço de suas decisões sentimentais. E creia que farei tudo, em espírito, por auxiliá-la nesse sentido. Sorriu, com esforço, enquanto a esposa chorava, discreta. Após longo interregno, frisou: — Se eu puder, trarei estrelas do firmamento para enfeite de suas esperanças. Você estará sempre mais viva em meu coração; amarei também a todos aqueles que forem assinalados por sua estima enobrecedora. Em seguida, após fitar demoradamente os filhinhos, aduziu: — A palavra apostólica no Evangelho conforta-nos e esclarece-nos, como se faz indispensável. Em breve tempo, reunir-me-ei aos nossos na Vida Maior. Perderei meu corpo animal, mas conquistarei a ressurreição no corpo espiritual, a fim de esperá-los, alegremente. Verificava-se que o enfermo despendera muito esforço. Fatigara-se. O genitor retirou a destra da fronte de Fábio, desaparecendo a corrente fluídico-luminosa que o ajudara a pronunciar aquela impressionante alocução de amor acrisolado. Demonstrando sublime serenidade nos olhos brilhantes, recostou-se nos volumosos travesseiros, algo abatido. Dona Mercedes compôs a fisionomia, afastando os vestígios das lágrimas, e falou para o filhinho mais velho: — Você, Carlindo, fará a prece final. Fábio mostrou satisfação no semblante, enquanto o rapazinho se erguia, obediente à recomendação ouvida. Com naturalidade, recitou curta oração que aprendera dos lábios maternos: — Poderoso Pai dos Céus, abençoa-nos, concedendo-nos a força precisa para a execução de tua lei, trazida ao mundo com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Faze-nos melhores no dia de hoje para que possamos encontrar-te amanhã. Se permites, ó meu Deus! Nós te pedimos a saúde do papai, de acordo com a tua soberana vontade. Assim seja!… Terminada a rogativa e quando os pequenos beijavam sua mamãe, antes do sono tranquilo, o enfermo pediu à esposa, com humildade: — Mercedes, se você concorda, sentir-me-ia feliz por beijar, hoje, os meninos… A senhora aquiesceu, comovida. — Traga-me um lenço novo, — solicitou o esposo, enternecido. A dona da casa, em poucos instantes, apresentava-lhe alvo fragmento de linho. Emocionado, vi que o pai cristão aplicou o nevado pano à cabeleira das crianças e beijou o linho, ao invés de oscular-lhes os cabelos. Contudo, havia tanta alma, tanto fervor afetivo naquele gesto, que reparei o jato de luz que lhe saía da boca, atingindo a mente dos pequeninos. O beijo saturava-se de magnetismo santificante. Jerônimo, comovido de maneira especial, dirigiu-se a mim, em voz sussurrante: — Outros verão micróbios; nós vemos amor… Logo após, a pequena família recolheu-se. O enfermo sentia-se singularmente melhorado, bem disposto. Em nosso grupo havia geral contentamento. As crianças dormiram sem demora e foram, por Aristeu, conduzidas, fora do corpo físico, a uma paisagem de alegria, de modo a se entreterem, descuidadas… A sós com o doente e a esposa, que tentavam conciliar o sono, encetamos o serviço de libertação. Enquanto Silveira amparava o filho, com inexcedível carinho, Jerônimo aplicou ao enfermo passes anestesiantes. Fábio sentiu-se bafejado por deliciosas sensações de repouso. Em seguida, o Assistente deteve-se em complicada operação magnética sobre os órgãos vitais da respiração e observei a ruptura de importante vaso. O paciente tossiu e, num átimo, o sangue fluiu-lhe à boca aos borbotões. Dona Mercedes levantou-se, assustada, mas o esposo, falando dificilmente, tranquilizou-a: — Pode chamar o médico… entretanto, Mercedes… não se preocupe… é justamente o fim… Enquanto prosseguia Jerônimo separando o organismo perispiritual do corpo débil, Dona Mercedes pediu o socorro de um vizinho, que saiu prestativo, em busca do clínico especializado. O médico não tardou, trazido celeremente por automóvel, mas embalde aplicaram a solução de adrenalina, a sangria no braço, os sinapismos nos pés e as ventosas secas no peito. O sangue, em golfadas rubras, fluía sempre, sempre… Reparei que Jerônimo repetia o processo de libertação praticado em Dimas, mas com espantosa facilidade. Depois da ação desenvolvida sobre o , o coração e o cérebro, desatado o nó vital, Fábio fora completamente afastado do corpo físico. Por fim, brilhava o cordão fluídico-prateado, com formosa luz. Amparado pelo genitor, o recém-liberto descansava, sonolento, sem consciência exata da situação. Supus que o caso de Dimas se repetiria, ali, minudência por minudência; porém, uma hora depois da desencarnação, Jerônimo cortou o apêndice luminoso. — Está completamente livre, — declarou meu orientador, satisfeito. O pai enternecido depositou sobre a fronte do filho desencarnado, em brando sono, um beijo repassado de amor e entregou-o a Jerônimo, asseverando: — Não desejo que ele me reconheça de pronto. Não seria aproveitável levá-lo agora a recordações do passado. Encontrá-lo-ei mais tarde, quando tenha de partir da instituição socorrista para as zonas mais altas. Pode conduzi-lo sem perda de tempo. Incumbir-me-ei de velar pelo cadáver, inutilizando os derradeiros resíduos vitais contra o abuso de qualquer entidade inconsciente e perversa. O Assistente agradeceu, emocionado, e partimos, conduzindo o sagrado depósito que nos fora confiado. Enquanto prosseguíamos, espaço acima, contemplei, respeitoso, o primeiro anúncio da aurora e, observando Fábio adormecido, tive a impressão de que gloriosos portos do Céu se iluminavam de sol para receber aquele homem, de sublime exemplo cristão, que subia vitorioso, da Terra…
TAG Valor
Nome do Capítulo Exemplo cristão