Livros Espíritas
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Nossos filhos, ainda frágeis, necessitam de amparo amigo na orientação da vida prática… Dona Mercedes, enxugando os olhos lacrimosos, esboçou gesto de quem ia protestar, todavia, adiantou-se-lhe o doente, acrescentando: — Já sei o que dirá. Nunca duvidei de sua virtude incorruptível, de seu desvelado amor. Nem estou a desinteressar-me da abnegada companheira de luta que o Senhor me confiou. Reconheça, porém, que temos vivido em profunda comunhão espiritual e devemos encarar, com sinceridade e lógica, minha partida próxima. Se você conseguir triunfar de todas as necessidades da vida humana, mantendo-se a cavaleiro das exigências naturais da existência terrestre, certamente Jesus compensará seu esforço com a láurea dos bem-aventurados. Todavia, não procure escalar o cume glorioso da plena vitória espiritual num só voo. Nossos corações, Mercedes, são como as aves: alguns já conquistaram a prodigiosa força da águia; outros, contudo, guardam, ainda, a fragilidade do beija-flor. Sofreria, de fato, por minha vez, se a visse afrontando a montanha redentora, com falsa energia. Não tenha medo. Criaturas perversas não amedrontam almas prudentes. Concedeu-nos o Senhor bastante luz espiritual para discernir. Você jamais poderá ser vítima de exploradores inconscientes, porque o Evangelho de Jesus está colocado diante de seus olhos para iluminar o caminho escolhido. Portanto, a observação e o juízo, o exercício espiritual e a inspiração de ordem superior, permanecerão a serviço de suas decisões sentimentais. E creia que farei tudo, em espírito, por auxiliá-la nesse sentido. Sorriu, com esforço, enquanto a esposa chorava, discreta. Após longo interregno, frisou: — Se eu puder, trarei estrelas do firmamento para enfeite de suas esperanças. Você estará sempre mais viva em meu coração; amarei também a todos aqueles que forem assinalados por sua estima enobrecedora. Em seguida, após fitar demoradamente os filhinhos, aduziu: — A palavra apostólica no Evangelho conforta-nos e esclarece-nos, como se faz indispensável. Em breve tempo, reunir-me-ei aos nossos na Vida Maior. Perderei meu corpo animal, mas conquistarei a ressurreição no corpo espiritual, a fim de esperá-los, alegremente. Verificava-se que o enfermo despendera muito esforço. Fatigara-se. O genitor retirou a destra da fronte de Fábio, desaparecendo a corrente fluídico-luminosa que o ajudara a pronunciar aquela impressionante alocução de amor acrisolado. Demonstrando sublime serenidade nos olhos brilhantes, recostou-se nos volumosos travesseiros, algo abatido. Dona Mercedes compôs a fisionomia, afastando os vestígios das lágrimas, e falou para o filhinho mais velho: — Você, Carlindo, fará a prece final. Fábio mostrou satisfação no semblante, enquanto o rapazinho se erguia, obediente à recomendação ouvida. Com naturalidade, recitou curta oração que aprendera dos lábios maternos: — Poderoso Pai dos Céus, abençoa-nos, concedendo-nos a força precisa para a execução de tua lei, trazida ao mundo com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Faze-nos melhores no dia de hoje para que possamos encontrar-te amanhã. Se permites, ó meu Deus! Nós te pedimos a saúde do papai, de acordo com a tua soberana vontade. Assim seja!… Terminada a rogativa e quando os pequenos beijavam sua mamãe, antes do sono tranquilo, o enfermo pediu à esposa, com humildade: — Mercedes, se você concorda, sentir-me-ia feliz por beijar, hoje, os meninos… A senhora aquiesceu, comovida. — Traga-me um lenço novo, — solicitou o esposo, enternecido. A dona da casa, em poucos instantes, apresentava-lhe alvo fragmento de linho. Emocionado, vi que o pai cristão aplicou o nevado pano à cabeleira das crianças e beijou o linho, ao invés de oscular-lhes os cabelos. Contudo, havia tanta alma, tanto fervor afetivo naquele gesto, que reparei o jato de luz que lhe saía da boca, atingindo a mente dos pequeninos. O beijo saturava-se de magnetismo santificante. Jerônimo, comovido de maneira especial, dirigiu-se a mim, em voz sussurrante: — Outros verão micróbios; nós vemos amor… Logo após, a pequena família recolheu-se. O enfermo sentia-se singularmente melhorado, bem disposto. Em nosso grupo havia geral contentamento. As crianças dormiram sem demora e foram, por Aristeu, conduzidas, fora do corpo físico, a uma paisagem de alegria, de modo a se entreterem, descuidadas… A sós com o doente e a esposa, que tentavam conciliar o sono, encetamos o serviço de libertação. Enquanto Silveira amparava o filho, com inexcedível carinho, Jerônimo aplicou ao enfermo passes anestesiantes. Fábio sentiu-se bafejado por deliciosas sensações de repouso. Em seguida, o Assistente deteve-se em complicada operação magnética sobre os órgãos vitais da respiração e observei a ruptura de importante vaso. O paciente tossiu e, num átimo, o sangue fluiu-lhe à boca aos borbotões. Dona Mercedes levantou-se, assustada, mas o esposo, falando dificilmente, tranquilizou-a: — Pode chamar o médico… entretanto, Mercedes… não se preocupe… é justamente o fim… Enquanto prosseguia Jerônimo separando o organismo perispiritual do corpo débil, Dona Mercedes pediu o socorro de um vizinho, que saiu prestativo, em busca do clínico especializado. O médico não tardou, trazido celeremente por automóvel, mas embalde aplicaram a solução de adrenalina, a sangria no braço, os sinapismos nos pés e as ventosas secas no peito. O sangue, em golfadas rubras, fluía sempre, sempre… Reparei que Jerônimo repetia o processo de libertação praticado em Dimas, mas com espantosa facilidade. Depois da ação desenvolvida sobre o , o coração e o cérebro, desatado o nó vital, Fábio fora completamente afastado do corpo físico. Por fim, brilhava o cordão fluídico-prateado, com formosa luz. Amparado pelo genitor, o recém-liberto descansava, sonolento, sem consciência exata da situação. Supus que o caso de Dimas se repetiria, ali, minudência por minudência; porém, uma hora depois da desencarnação, Jerônimo cortou o apêndice luminoso. — Está completamente livre, — declarou meu orientador, satisfeito. O pai enternecido depositou sobre a fronte do filho desencarnado, em brando sono, um beijo repassado de amor e entregou-o a Jerônimo, asseverando: — Não desejo que ele me reconheça de pronto. Não seria aproveitável levá-lo agora a recordações do passado. Encontrá-lo-ei mais tarde, quando tenha de partir da instituição socorrista para as zonas mais altas. Pode conduzi-lo sem perda de tempo. Incumbir-me-ei de velar pelo cadáver, inutilizando os derradeiros resíduos vitais contra o abuso de qualquer entidade inconsciente e perversa. O Assistente agradeceu, emocionado, e partimos, conduzindo o sagrado depósito que nos fora confiado. Enquanto prosseguíamos, espaço acima, contemplei, respeitoso, o primeiro anúncio da aurora e, observando Fábio adormecido, tive a impressão de que gloriosos portos do Céu se iluminavam de sol para receber aquele homem, de sublime exemplo cristão, que subia vitorioso, da Terra…
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