Prosseguindo em meus estudos sobre os fenômenos mediúnicos de variada expressão, sempre que meus serviços habituais mo permitiam, regressava à Crosta, aprendendo e cooperando no grupo em que Alexandre funcionava na qualidade de orientador. Minha frequência, porém, em virtude das obrigações por mim assumidas em nossa colônia espiritual, não podia ser assídua, razão por que procurava aproveitar as mínimas oportunidades a fim de enriquecer as minhas experiências. Numa das reuniões a que compareci, um dos cooperadores de nossa Esfera aproximou-se do compassivo instrutor e pediu, humilde:
— Nossos companheiros encarnados, em solicitações sucessivas, insistem pela vinda do irmão Dionísio Fernandes, atualmente recolhido, como sabeis, numa organização de socorro. Alegam que a família se encontra inconsolável, que haveria conveniência na visita dele e que seria interessante ouvir um antigo companheiro de lutas doutrinárias… Enquanto Alexandre ouvia em silêncio, o colaborador simpático prosseguiu, depois de ligeira pausa:
— Estimaríamos receber a devida autorização para trazê-lo… Poderia incorporar-se na organização mediúnica de nossa irmã Otávia e fazer-se ouvir, de algum modo, diante dos amigos e familiares… O mentor pensou durante alguns momentos e redarguiu:
— Não tenho qualquer objeção pessoal, em face da providência que você sugere, meu caro Euclides; entretanto, embora se constitua o nosso grupo de cooperadores encarnados de excelentes amigos, não os vejo convenientemente preparados para o integral aproveitamento do feito. Sobra em quase todos eles, na investigação e no raciocínio, o que lhes falta em sentimento e compreensão. Colocam a pesquisa muito acima do entendimento e, como você sabe, as organizações mediúnicas não são filtros mecânicos… Além disso, Dionísio conta com reduzido tempo em nossa Esfera; ainda não pôde nem mesmo retirar-se do asilo que o acolheu em nosso Plano. Adicionemos a esses fatores a intranquilidade da família, pouco observadora da fé viva, a diferença de vibrações da nova Esfera a que o nosso amigo procura adaptar-se, presentemente, a profunda emoção dele com essa reaproximação talvez prematura, a instabilidade natural do aparelhamento mediúnico e, possivelmente, concordaremos com a inoportunidade de semelhante medida. Euclides, o interlocutor, advogando o pedido veemente do círculo, não se desencorajou e insistiu:
— Reconheço que a vossa palavra é sempre ponderada e amiga. Concordo em que não alcançaremos o objetivo desejado; todavia, reitero-vos a solicitação. Ainda mesmo que o fato não ultrapasse a feição de simples experiência… É que existem irmãos esforçados aos quais muito devemos aqui, no trabalho do bem diário ao próximo sofredor, e sentiríamos felicidade em demonstrar-lhes o testemunho do nosso reconhecimento e estima sincera… Alexandre sorriu com a generosidade que lhe era característica e observou:
— Só possuo razões para endossar seus pedidos, e, já que você insiste na providência para atender aos companheiros que se sentem igualmente credores de sua confiança e estima, pode avisá-los de que Dionísio virá. Eu mesmo cuidarei de trazê-lo pessoalmente. E como Euclides agradecesse tocado de imensa alegria, Alexandre encerrou a conversação, acrescentando:
— Faça a promessa para a noite de amanhã. É sempre mais fácil dar com alegria que receber com acerto. Afastamo-nos. Porque o interrogasse, quanto ao processo fenomênico da incorporação, o benigno instrutor esclareceu de boa vontade:
— Mediunicamente falando, as medidas são as mesmas adotadas nos casos de psicografia comum, acrescentando-se, porém, que necessitaremos proteger, com especial carinho, o centro da linguagem na zona motora, fazendo refletir nosso auxílio magnético sobre todos os músculos da fala, localizados ao longo da boca, da garganta, laringe, tórax e abdômen. Atendendo-me as interpelações, o instrutor relacionou diversas elucidações de ordem moral, alusivas ao assunto, comentando as dificuldades para difundir nos corações terrenos os valores da consolação legítima, em virtude das exigências descabidas da pesquisa intelectual. Admirava-lhe a sabedoria profunda e a sublime compreensão das humanas fraquezas, quando atingimos a instituição de socorro a que Dionísio se recolhera, em plena região inferior, não muito distante da Crosta Terrestre. Entendendo-se com os Espíritos do Bem, consagrados aos serviços do amor cristão, em zonas semelhantes, conduziu-me à presença do recém-desencarnado, que se mantinha sob forte excitação.
— Dionísio, — falou-lhe Alexandre, bondoso, após a saudação usual, — lembra-se do nosso grupo de estudos espiritualistas?
— Como não? E com que saudades!
— Suspirou o interlocutor.
— Nossos amigos do círculo pedem a sua presença, pelo menos por alguns minutos, — prosseguiu o mentor, gentil, — e deliberei conduzi-lo até lá, para que você fale, não somente a eles, mas também aos familiares… — Que ventura! — Exclamou Dionísio, quase chorando de contentamento.
— Ouça, porém, meu amigo! — Tornou Alexandre, sereno e enérgico, — é indispensável que você medite sobre o acontecimento. Lembre-se de que você vai utilizar um aparelho neuro-muscular que lhe não pertence. Nossa amiga Otávia servirá de intermediária. No entanto, você não deve desconhecer as dificuldades de um médium para satisfazer a particularidades técnicas de identificação dos comunicantes, diante das exigências de nossos irmãos encarnados. Compreende bem?
— Sim, — replicou Dionísio, algo desapontado, — estou agora no mundo da verdade e não devo faltar a ela. Recordo-me de que muitas vezes recebi as comunicações do Plano invisível, através de Otávia, com muitas prevenções, e, não raro, vacilei, acreditando-a vítima de inúmeras mistificações. Alexandre, muito calmo, observou:
— Pois bem, agora chegou a sua vez de experimentar. E se, antigamente, era tão fácil para você duvidar dos outros, desculpe a fraqueza dos nossos irmãos encarnados, caso agora duvidem de seu esforço. É possível que não alcancemos o objetivo; entretanto, nossos colaboradores insistem pela sua visita e não devemos impedir a experiência. Antes que Dionísio se internasse em novas considerações, o instrutor rematou:
— Concentre-se, com atenção, sobre o assunto, peça a luz divina em suas orações e espere-me. Conduzi-lo-ei em nossa companhia, deixando-o, na residência da médium, com algumas horas de antecedência, para que você encontre facilidades no serviço de harmonização. Despedimo-nos em seguida, registando efusivos agradecimentos do interlocutor. O caso interessava-me. Por isso mesmo, roguei a permissão de Alexandre para acompanhá-lo de mais perto. Autorizado a fazê-lo, segui o instrutor que se dirigiu, no dia seguinte, à instituição a que Dionísio se recolhera, amparando-o convenientemente para a visita projetada. Com a gentileza de sempre, Alexandre guiou-nos até à moradia da médium Otávia, onde Euclides, o benevolente amigo da véspera, nos aguardava, cheio de atenções. O prestimoso mentor despediu-se com delicadeza extrema e, deixando-me em companhia dos novos colegas, acrescentou:
— A reunião dos companheiros encarnados terá início às vinte horas; todavia, entre dezoito e dezenove horas, estarei aqui de regresso, a fim de acompanhá-los ao nosso núcleo de serviço. E, fixando-me, concluiu bondosamente:
— Aproveite a aproximação de Euclides, meu caro André. Um bom trabalhador tem sempre proveitosas lições a ensinar. Euclides, sorrindo, agradeceu, comovido, e conduziu-nos ao interior doméstico, enquanto Alexandre se afastava noutra direção. Detivemo-nos em humilde aposento.
— Nesta parte da casa, — explicou-nos o guia acolhedor, — a nossa irmã Otávia costuma fazer meditações e preces. A atmosfera reinante, aqui, é, por isso, confortadora, leve e balsâmica. Estejam à vontade. Em vista de ser hoje um dos dias consagrados ao serviço mediúnico, terminará ela os trabalhos da refeição da tarde, mais cedo, a fim de orar e preparar-se. Consultei o mostruário do grande relógio de parede, não longe de nós, que marcava precisamente dezesseis horas, e manifestei o desejo de ver a nossa irmã que atuaria, naquela noite, como intermediária entre os dois Planos. Deixando Dionísio no aposento a que me referi, Euclides conduziu-me a pequena cozinha, onde uma senhora idosa se mantinha atenta à preparação de alguns pratos modestos. Tudo limpeza, ordem e harmonia doméstica. Notei-a, porém, algo pálida, abatida… Ouvindo-me a inquirição discreta, o companheiro informou:
— Otávia é uma excelente colaboradora de nossos serviços espirituais, mas, pela força das provas necessárias à redenção, permanece unida a um homem ignorante e quase cruel. Enquanto o companheiro brutal está ausente, nas horas do “ganha-pão”, a casa é tranquila e feliz, porquanto a nossa amiga não oferece hospedagem às entidades perturbadoras da sombra. Todavia, quando o infeliz Leonardo penetra este pequeno domínio, a situação se modifica, porque o pobre esposo é um legítimo “canteiro espinhoso”, no jardim deste lar. Faz-se acompanhar de perigosos elementos das zonas mais baixas… — Não conseguiu ele identificar-se com a missão espiritualizante da esposa? — Perguntei, com interesse.
— Não, — explicou Euclides, sem titubear, — de modo algum. Não é novo para a compreensão elevada; contudo, é teimoso nos erros que lhe são próprios. Permite que a consorte nos ajude, em vista da insistência de parentes consanguíneos dele, dedicados à nossa causa e que, influenciados por nós, não lhe permitem afastá-la.