Capítulo 15
Cesarina, com o excessivo cuidado das mulheres demasiadamente vaidosas e inscientes da responsabilidade moral, utilizava certos recursos para disfarçar o aspecto da gravidez adiantada, deixando adivinhar que se preparava com esmero para uma noitada de fortes emoções. Fixei minha atenção no feto, auxiliado pelo chefe dos Construtores, mas não pude esconder minha surpresa e compaixão. O caso Volpíni era muito diferente do processo de reencarnação verificado em casa de Raquel. A forma física embrionária demonstrava manchas violáceas, revelando dilacerações. Pequeninos monstros, somente perceptíveis ao nosso olhar, nadavam no líquido amniótico, invadindo o cordão umbilical e apropriando-se da maior parte do delicado alimento reservado ao corpo em formação. Toda a placenta era assediada por eles, provocando-me terrível impressão. Percebi, pela intensa anormalidade dos órgãos geradores, que o aborto não poderia demorar-se. Apuleio, igualmente, endereçando-me expressivo gesto com a cabeça, acusava forte preocupação. Abandonou subitamente o exame e falou-nos: — Se a infeliz obcecada pelos prazeres criminosos não se detiver, nesta noite, a organização fetal será expelida até amanhã. Depois de pensar alguns momentos, salientou: — Tentarei o derradeiro recurso. Apuleio dirigiu-se ao interior doméstico e voltou, seguido de uma senhora idosa. — Esta, — disse-me ele, indicando-a, — é a dona da casa e velha amiga de Cesarina, suscetível de receber-nos a influenciação. Aproveitar-lhe-ei o concurso para que a nossa desventurada irmã, de futuro, não possa dizer que lhe faltou assistência e conselho adequado. Num gesto bondadoso, já observado por mim em diversos superiores do nosso Plano, colocou a destra sobre a fronte da recém-chegada, que se acercou de Cesarina com muita ternura, e falou: — Minha amiga, estou receosa por você… Não vá. Desconfie de certas amizades, pouco dignas. Seu estado, Cesarina, é melindroso. Porque exceder-se? Uma festa de aniversário, em pleno bar, não pode servir às suas necessidades presentes. Abriguei você, em nossa residência, como se o fizesse a uma filha e devo estar vigilante. Nutro a esperança de vê-la reaproximar-se do esposo, que, segundo creio, deve estar ausente por simples questões de incompatibilidade de gênios, mas, se você não se defende do mal, como atender à situação? Um dos infelizes seres da ignorância e da sombra que perseguiam Cesarina, por invigilância dela, envolveu-a nos braços, como se desejasse comunicar-lhe o seu estranho e perigoso magnetismo. Vi que as entidades inferiores presentes observavam de perto a senhora e lhe ouviam as palavras sensatas, porque todas exibiam gestos e demonstrações de revolta e desagrado, que não podemos registar aqui. A interpelada, deixando-se envolver pela influência neutralizante do mal, riu-se de modo franco e acrescentou: — Tranquilize-se, minha boa Francisca. Não precisará ensinar-me a virtude… Tenho meu compromisso para hoje, não posso faltar!… — Não concordo, Cesarina, — tornou a interlocutora com energia, sob a inspiração direta de Apuleio, — nem estou fazendo pregação de virtude à sua consciência responsável. Quero despertar suas fibras de esposa e mãe. O homem, cujo convite você pretende atender, não merece confiança, nem é digno de consideração. Além disso, seu organismo deve ser preservado. Não lhe dói a expectativa de prejudicar o filhinho? Não pondera o futuro? E a respeitável amiga continuou advertindo com severidade maternal, enquanto a futura mãe de Volpíni se mantinha em franca posição de negativa e impermeabilidade. Duas horas durou a conversação, na qual o diretor dos Construtores usou da caridade, da lógica e da paciência, nas mais altas doses; todavia, ao fim desse tempo, um automóvel fonfonou à porta. Cerrando o pequeno estojo de perfumes, Cesarina abraçou a velha amiga desapontada e despediu-se: — Adeus, voltarei mais tarde. Não tenho tempo a perder. O veículo rodou a caminho das avenidas asfaltadas. As entidades perturbadas seguiram no carro célere, mas nós, esperando a manifestação de Apuleio, ali permanecemos, aguardando-lhe a palavra. Algo triste, o chefe de serviço dirigiu-se aos colaboradores, declarando: — Podem regressar à nossa colônia, em descanso. Nada mais têm que fazer, por agora. O dever de todos foi bem cumprido. E olhando para mim, significativamente, acrescentou: — Irei, eu mesmo, em companhia de André, buscar Volpíni para recolhê-lo em lugar conveniente. O ambiente era de consternação, porque, se os Espíritos Superiores são equilibrados, não são insensíveis. Acompanhei Apuleio, durante longos minutos de silêncio, penetrando, em seguida, numa casa de barulho ensurdecedor. O grande salão e departamentos reservados estavam repletos de homens e mulheres inquietos, excitados pela música bulhenta e estonteadora, mas a assembleia de desencarnados de condição grosseira era muito maior, tomada da mesma alucinação de perigoso prazer. — Mantenha-se em defensiva, — advertiu-me o diretor; — são poucos os desencarnados, com reduzido tempo de experiência, que podem penetrar ambientes como este, para serviços de proteção. Não nos cabe descrever as paisagens tristes, desdobradas ao nosso olhar. Cumpre-nos, tão somente, esclarecer que não tivemos dificuldade para reencontrar Cesarina em companhia de um cavalheiro menos escrupuloso, entre finas taças de alcoólicos, elegantemente disfarçados. Apuleio aproximou-se e retirou Volpíni, que a ela se abraçava como criança semiconsciente. Em seguida, vi-o aplicar passes magnéticos em toda a região uterina, empregando infinito cuidado. Retomando Volpíni, que confiara às minhas mãos, para poder operar com eficiência, falou-me, calmo: — Desliguei o reencarnante do santuário maternal; entretanto, não deveríamos esquecer de ministrar o devido socorro à mãe invigilante. Ela precisa continuar a luta terrestre, quanto possível, para aproveitar alguma coisa da oportunidade… Retiramo-nos conduzindo o companheiro, prematuramente desligado, a uma organização socorrista, mas, depois de atender a todos os deveres que me competiam, desejei, na qualidade de médico, observar o que se passava com a pobre mulher, fracassada em sua missão sublime. Nas primeiras horas da manhã, dirigi-me à residência que visitáramos na véspera. Com grande surpresa, porém, verifiquei que Cesarina não se encontrava em casa. Não se passaram muitos minutos e uma vizinha interpelava a senhora que Apuleio influenciara, perguntando-lhe o que eu desejaria saber. — Cesarina, — explicou a matrona, preocupada, — na manhã de hoje foi recolhida a uma casa de saúde, em estado grave. No decorrer da rápida conversação, recolhi as informações necessárias, relativamente ao endereço, e procurei visitar, incontinenti, a infeliz criatura que deixáramos na festa elegante da véspera. Fortemente impressionado, vim a saber que Cesarina, em gravíssimas condições, acabava de dar à luz uma criança morta.
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