Capítulo 16
A tarefa, porém, não é muito fácil, porque, se Otávia é dócil aos Espíritos do Bem, o esposo é obediente aos cultivadores do mal. Basta, às vezes, traçarmos um programa construtivo com a colaboração dela, para que Leonardo, cedendo aos portadores da treva, nos perturbe a ação, criando-nos graves dificuldades. Percebendo que o abatimento da médium não me passava despercebido, Euclides acrescentou: — Tão logo prometi ontem, alegremente, a vinda de Dionísio, desejoso de incentivar o bom ânimo dos amigos encarnados, contando com o concurso mediúnico de nossa irmã, piorou a situação psíquica do esposo imprevidente. Leonardo amanheceu hoje mais nervoso que de costume, embebedou-se pouco antes do almoço, insultou a companheira humilde e chegou mesmo a infligir-lhe tormentos físicos. Assustada, a bondosa senhora sofreu tremendo choque nervoso que lhe atingiu o fígado, encontrando-se, no momento, sob forte perturbação gastrintestinal. Por isso, a alimentação dela foi muito deficiente durante o dia e não tem podido manter a harmonia precisa da mente para atender, com exatidão, aos nossos propósitos. Já trouxe diversos recursos de assistência, inclusive a cooperação magnética de competentes enfermeiros espirituais, para levantar-lhe o padrão das energias necessárias, e só por isto é que a pobrezinha ainda não tombou acamada, embora se encontre bastante enfraquecida, apesar de todos os socorros. Algo desapontado, Euclides considerou, após curto silêncio: — Como sabe, a harmonia não é realização que se improvise, e, se nós, os desencarnados devotados ao bem, estamos em luta frequente pela nossa iluminação íntima, os médiuns são criaturas humanas, suscetíveis às vicissitudes e aos desequilíbrios da Esfera carnal… — Oh! — Exclamei, fixando a pobre mulher, — não teremos alguém que a substitua? Ela está quase cambaleante… — Todos os serviços exigem preparo, treinamento, — observou o meu interlocutor, sensatamente, — e não poderemos trazer alguém que faça as vezes de Otávia, dum instante para outro. — Não supõe que ela deveria ser feliz para ser mais útil? — Indaguei. — Quem sabe? — Respondeu Euclides, com intenção. — A mediunidade ativa e missionária não é incompatível com o bem-estar e, a rigor, todas as pessoas que gozam de relativo conforto material, poderiam disputar excelentes oportunidades de serviço em seus quadros de trabalho e edificação; entretanto, as almas encarnadas, quando favorecidas pela tranquilidade natural da existência física, se mantêm na região de serviço comum que lhes é própria às necessidades individuais, e, como o cumprimento do dever com exatidão já representa grande esforço, raramente ultrapassam a fronteira das obrigações legítimas, em busca do campo divino da renunciação. A luta intensiva, porém, dilata as aspirações íntimas. O sofrimento, quando aceito à luz da fé viva, é uma fonte criadora de asas espirituais. A essa altura dos esclarecimentos fraternos, o companheiro sorriu e observou: — Formulando semelhantes considerações, não queremos dizer que a mediunidade construtiva deva ser apanágio dos corações algemados à dor. Isto não. As missões da Espiritualidade Superior pertencem a todas as criaturas de boa vontade. Apenas expressamos a nossa convicção de que almas existem, fervorosas no ideal do Bem e da Verdade, que se valem dos obstáculos para melhor escalarem o monte da redenção divina. A dona da casa terminara a tarefa de aprontar o jantar humilde e, antes que o esposo voltasse ao lar, dirigiu-se ao quarto íntimo, em que, conforme a notificação de Euclides, costumava fazer as suas preces preparatórias. Penetramos o aposento em sua companhia. Euclides acomodou Dionísio ao lado dela, e, enquanto a médium se concentrava em oração, o dedicado amigo aplicava-lhe passes magnéticos, fortalecendo o nervo das vísceras () e ministrando, ao que percebi, vigorosas cotas de força, não somente às fibras nervosas, mas também às células gliais. Dona Otávia pedia a Jesus bastante energia para o cumprimento de sua tarefa, comovendo-nos a sua rogativa silenciosa, simples e sincera. Meditou na promessa que os amigos espirituais haviam levado a efeito, na véspera, relativamente à comunicação de Dionísio, recém-desencarnado. Procurava dispor-se ao concurso mediúnico eficiente, tentando isolar a mente das contrariedades de natureza material. Aos poucos, sob a influenciação de Euclides, formou-se um laço fluídico que ligou a médium ao próximo comunicante. O companheiro que preparava o trabalho recomendou ao amigo desencarnado falasse a Dona Otávia, com todas as suas energias mentais, organizando o ambiente favorável para o serviço da noite. Dionísio começou a falar-lhe de suas necessidades espirituais, comentando a esperança de fazer-se sentir, junto da família terrena e dos antigos colegas de aprendizado espiritualista, notando eu que a médium lhe registava a presença e a linguagem, em forma de figuração e lembrança, aparentemente imaginárias, na esfera do pensamento. Observei, com interesse, a extensão da fronteira vibratória que nos separa dos Espíritos encarnados, porquanto, em nos achando ali, em frente a uma organização mediúnica adestrada, precisávamos iniciar o trabalho de comunicação, como quem estivesse muitíssimo distante, vencendo, devagarinho, os círculos espessos de resistência. Longo tempo durou o singular diálogo, reconhecendo que, ao fim da interessante conversação prévia, entre a médium e o comunicante, palestra essa que foi plenamente orientada pelo tato fraterno de Euclides, em todas as minúcias, Dona Otávia parecia mais ambientada com o assunto, aderindo com clareza ao que Dionísio pretendia fazer. Tudo ia bem e não me cansava de admirar aquele inesperado serviço de preparação mediúnica, quando aconteceu alguma coisa muito grave. O dono da casa chegava, de volta, quebrando, de modo violento, a tranquilidade das vibrações em que nos mergulhávamos. Vociferando, logo à entrada, obrigou a esposa a levantar-se, de súbito. O infortunado senhor semelhava-se a um brutamontes, nas suas características de tirano doméstico. Algumas entidades galhofeiras e perversas constituíam-lhe o séquito. Dona Otávia serviu o jantar, fazendo prodígios no campo da paciência evangélica. Finda a refeição muito simples, a que compareceu o esposo junto de dois filhos maiores, a nobre senhora falou ao marido em particular: — Leonardo, como você sabe, irei hoje à reunião, saindo antes das oito. — Quê?! — Exclamou o interlocutor, encharcado de vinho, a cofiar os bigodes grisalhos, — a senhora hoje não pode sair! Nada de sessões! Hoje, não! Impressionado com aquela atitude intempestiva, perguntei a Euclides, que seguia a cena, muito calmo: — E agora? — Já previa a ocorrência, — redarguiu-me, com manifesta tristeza no olhar, — e pedi a uma de nossas irmãs trouxesse até aqui uma tia do bulhento Leonardo, que intercederá a favor de nossos desejos. Não devem tardar. Trata-se de pessoa a que se renderá, sem esforço. Com efeito, enquanto Dona Otávia enxugava o pranto em silêncio, recompondo a mesa de refeições, ouviram-se palmas à porta. Leonardo foi atender e, em breves minutos, uma entidade desencarnada, muito simpática, penetrava o interior, acompanhando uma velha senhora de semblante acolhedor e risonho. A cooperadora de Euclides veio até nós, cumprimentando-nos, sorridente. Profundamente surpreendido, em face de tantos trabalhos para a organização de pequeno serviço consolador, fiz-me atento à conversação que se desdobrou entre os encarnados: — Ainda bem que a luta do dia terminou, — disse a respeitável matrona, dirigindo-se à médium, depois das primeiras saudações, — vim até aqui para irmos juntas. Otávia procurou esconder sua mágoa, sorriu com esforço, e respondeu: — Ora, minha boa Georgina, hoje não posso… Leonardo está indisposto e pretende recolher-se mais cedo. — Já sei, já sei, — observou a visitante, com carinho nas palavras e severidade nas atitudes, fixando o chefe da casa; — você, Otávia, tem compromisso e não pode faltar! Em seguida, levantou-se, tocou os ombros do sobrinho, que se derramara no divã, e falou-lhe com franqueza: — Meu filho, que você se regale em prazeres e adie a sua realização espiritual, por imprevidência e má vontade, eu não posso impedir; mas advirto-o, quanto aos deveres de sua mulher em nosso núcleo de iluminação, pedindo-lhe não se interponha entre ela e os desígnios superiores. Otávia é uma esposa exemplar, tem tolerado suas impertinências a vida inteira e já entregou ao seu Espírito de pai dois filhos maiores, rigorosamente educados na inteligência e no coração. Não lhe impeça agora o serviço divino. Poderia insurgir-me contra você, induzindo-a a resistir, mas prefiro avisá-lo de que a sua atuação contra o bem não ficará impune. Observei que as palavras da veneranda senhora eram emitidas conjuntamente com grandes jatos de energia magnética, que envolviam Leonardo, obrigando-o a melhor raciocínio. Ele meditou, por alguns momentos, e respondeu, vencido: — Otávia poderá ir, quando quiser, desde que seja em sua companhia. A matrona agradeceu, estimulando-o no estudo das questões da Espiritualidade, e, quando se dispunham as duas senhoras a tomar o caminho do grupo de estudos, chegou Alexandre, de volta, a fim de acompanhar-nos, por sua vez.
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