2ª Parte - Cap. 7: As Epístolas
O neto de Lóide trazia ao ex -rabino muitas novidades confortadoras. Já havia instalado as duas senhoras na cidade, era portador de alguns recursos e falou-lhe do desenvolvimento da doutrina cristã, na velha capital da Acaia. Uma notícia lhe foi, sobretudo, particularmente grata. É que Timóteo mencionava o encontro com Áquila e Prisca. Aquelas duas criaturas, que se lhe fizeram solidárias nas dificuldades extremas do dese rto, trabalhavam agora em Corinto pela glória do Senhor. Ale grou-se íntima, profundamente. Além das muitas razões pessoais que o chamavam a Acaia, isto é — às recordações indeléveis de Jeziel e Abigail, o desejo de abraçar o casal amigo foi também uma circunstância decisiva da sua partida imediata. O valoroso pregador saía de Atenas assaz abatido. O insucesso, em face da cultura grega, compelia -lhe o espírito indagador aos mais torturantes raciocínios. Começava a compreender a razão por que o Mestre pre ferira a Galiléia com os seus cooperadores humildes e simples de coração; entendia melhor o motivo da palavra franca do Cristo sobre a salvação, e decifrava a sua predileção natural pelos desamparados da sorte. Timóteo notou-lhe a tristeza singular e debal de procurou convencê-lo da conveniência de seguir por mar, em vista das facilidades no Pireu. Ele fez questão de ir a pé, visitando os sítios isolados no percurso. — Mas, sinto-vos doente — objetava o discípulo, tentando dissuadi -lo. — Não será mais razoável descansardes? Lembrando os desalentos experimentados, o Após tolo acentuava: — Enquanto pudermos trabalhar, há que esmarmos no trabalho um elixir para todos os males. Além do mais, é justo aproveitar o tempo e a oportunidade. — Julgo, entretanto — justificava o jovem amigo —, que poderíeis adiar um pouco... — Adiar por quê? — redarguiu o ex-rabino fazendo o possível por desfazer as mágoas de Atenas. — Sempre tive a convicção de que Deus tem pressa do serviço bem feito. Se isso constitui uma característ ica de nossas mesquinhas atividades nas coisas deste mundo, como adiar ou faltar com os deveres sagrados de nossa alma, para com o Todo -Poderoso? O rapaz ponderou no acerto daquelas alegações e calou -se. Assim venceram mais de sessenta quilômetros, com al guns dias de marcha e intervalos de prédicas. Nessa tarefa entre gente simples, Paulo de Tarso sen tia-se mais feliz. Os homens do campo receberam a Boa Nova com maior alegria e compreensão. Pequenas igrejas domésticas foram fundadas, não longe do golfo de Saron. Enlevado pelas recordações cariciosas de Abigail, atravessou o istmo e penetrou na cidade, movimentada e rumorosa. Abraçou Lóide e Eunice numa casinha do porto de Cencréia e logo procurou avistar -se com os velhos amigos do “oásis de Dan”. Os três abraçaram-se, tomados de infinito júbilo. Áquila e a companheira falaram longamente dos servi ços evangélicos, aos quais haviam sido chamados pela misericórdia de Jesus. De olhos brilhantes, como se houvessem vencido grande batalha, contaram ao Apóstolo ha verem realizado o ideal de permanecer em Roma, algum tempo. Como tecelões humildes, habitaram um velho casarão em ruínas, no Trastevere, fazendo as pri meiras pregações do Evangelho no ambiente mesmo das pompas cesarianas. Os judeus haviam declarado guerra franca aos novos princípios. Desde o primeiro rebate da Boa Nova, iniciaram -se grandes tormentas no “ghetto” do bairro pobre e desprotegido. Prisca relatou como um grupo de israelitas apaixonados lhe assaltara o aposento, à noite, com instrumentos de fla gelação e castigo. O marido demorava-se na oficina, e assim não pôde ela esquivar -se aos impiedosos açoites. Só muito tarde, fora socorrida por Áquila, que a encontrou banhada em sangue. O Apóstolo tarsense exultava. Contou aos amigos, por sua vez, as dores experimentadas em toda parte, pelo nome de Jesus -Cristo. Aqueles martírios em comum eram apresentados como favores de Jesus, como títulos eternos da sua glória. Quem ama inquieta -se por dar alguma coisa e os que amavam o Mestre sentiam -se extremamente venturosos em sofrerem algo por devotamento ao seu nome. Desejoso de reintegrar-se na serenidade de suas realizações ativas, olvidando a frieza ateniense, Paulo comentou o projeto da fundação de uma igreja em Corinto, ao que Áquila e sua mulher se prontif icaram para todos os serviços. Aceitando-lhes o oferecimento gene roso, o ex-rabino passou a residir em sua companhia, ocupando -se diariamente do seu oficio. Corinto era uma sugestão permanente de lembran ças queridas do seu coração. Sem comunicar aos amig os as reminiscências que lhe borbulhavam na alma sensível, procurou rever os sítios a que Abigail se referia sempre com enlevo. Com extremo cuidado, localizou a região onde deveria ter existido o pequeno sítio do velho Jo chedeb, agora incorporado ao imens o acervo de propriedades dos herdeiros de Licínio Minúcio; contemplou a velha prisão de onde a noiva pudera evadir -se para salvar-se dos celerados que lhe haviam assassinado o pai e escravizado o irmão; meditou no porto de Cencréia, de onde Abigail partira, um dia, para conquistar -lhe o coração, sob os desígnios superiores e imutáveis do Eterno. Paulo entregou-se, de corpo e alma, ao serviço rude. O labor ativo das mãos proporcionara-lhe brando esquecimento de Atenas. Compreendendo a necessidade de um período de calma, induzira Lucas a descansar em Trôade, já que Timóteo e Silas haviam encontrado trabalho como caravaneiros. Antes, porém, de retomar as pregações, começaram a chegar a Corinto emissários de Tessalônica, de Beréia e outros pontos da Macedônia , onde fundara suas bem-amadas igrejas. As comunidades tinham assuntos ur gentes, que requeriam delicadas intervenções da sua parte. Sentindo -se em dificuldades para tudo atender com a presteza devida, chamou novamente Silas e Timó teo para a cooperação indispensável. Ambos, valendo -se das oportunidades da profissão, poderiam contribuir de maneira eficaz na solução dos problemas imprevistos. Confortado pelo concurso dos amigos, Paulo falou, pela primeira vez, na sinagoga. Sua palavra vibrante logrou êxito e xtraordinário. Judeus e gregos falaram de Jesus com entusiasmo. O tecelão foi convidado a pros seguir nos comentários religiosos, semanalmente. Mas tão logo começou a abordar as relações existentes entre a Lei e o Evangelho, repontaram os atritos. Os israe litas não toleravam a superioridade de Jesus sobre Moisés, e, se consideravam o Cristo como profeta da raça, não o suportavam como Salvador. Paulo aceitou os desafios, mas não conseguiu demover corações tão endurecidos; as discussões prolongaram -se por vários sábados, seguidamente, até que, um dia, quando o verbo inflamado e sincero do Apóstolo zurzia os erros farisaicos com ve emência, um dos chefes principais da sinagoga íntima -o com aspereza: — Cala-te, palrador impudente! A sinagoga tem to lerado teus embustes por verdadeiros prodígios de paciên cia; mas, em nome da maioria, ordeno que te retires para sempre! Não queremos saber do teu Salvador, exter minado como os cães da cruz!. Ouvindo expressões tão desrespeitosas ao Cristo, o Apóstolo sentiu os olhos úmidos. Refletiu maduramente na situação e replicou: — Até agora, em Corinto, procurei dizer a verdade ao povo escolhido por Deus para o sagrado depósito da unidade divina; mas, se não a aceitais desde hoje, procurarei curarei os gentios!... Caiam sobre vôs mesmos as injus tas maldições lançadas sobre o nome de Jesus -Cristo!... Alguns israelitas mais exaltados quiseram agredi -lo, provocando tumulto. Mas um romano de nome Tito Justo, presente à assembléia, e que, desde a primeira pregação, sentira -se fortemente atraído pela poderosa personalidade do Apóstolo, aproximou-se e estendeu-lhe os braços de amigo. Paulo pôde sair incólume do recinto, enca minhando-se para a residência do benfeitor, que pôs à sua disposição todos os elementos imprescindíveis à orga nização de uma igreja ativa. O tecelão estava jubiloso. Era a primeira conquista para uma fundação definitiva. Tito Justo, com auxílio de todos os simpatizantes do Evangelho, adquiriu uma casa para início dos serviços religiosos. Áquila e Prisca foram os principais colaboradores, além de Lóide e Eunice, para que se executas sem os programas traçados por Paulo, de acordo com a querida organização de Antioquia. A igreja de Corinto começou, então, a produzir os frutos mais ricos de espiritualidade. A cidade era famosa por sua devassidão, mas o Apóstolo costumava dizer que dos pântanos nasciam, muitas vezes, os lírios mais belos; e como onde há muito pecado há muito remorso e sofri mento, em identidade de circunstâncias, a comunidade cresceu, dia a dia, reunin do os crentes mais diversos, que chegavam ansiosos por abandonar aquela Babilônia incendiada pelos vícios. Com a presença de Paulo, a igreja de Corinto adqui ria singular importância e quase diariamente chegavam emissários das - regiões mais afastadas. Eram portadores da Galácia a pedirem providências para as igrejas de Pisídia; companheiros de Icônio, de Listra, de Tessalô nica, de Chipre, de Jerusalém. Em torno do Apóstolo formou -se um pequeno colégio de seguidores, de com panheiros permanentes, que com el e cooperavam nos mínimos trabalhos. Paulo, entretanto, preocupava -se intensamente. Os assuntos eram urgentes quão variados. Não podia olvidar o trabalho de sua manutenção; assu mira compromissos pesados com os irmãos de Corinto; devia estar atento à colet a destinada a Jerusalém; não podia desprezar as comunidades anteriormente fundadas. Aos poucos, compreendeu que não bastava enviar emis sários. Os pedidos choviam de todos os sítios por onde pe rambulara, levando as alvíssaras da Boa Nova. Os irmãos, carin hosos e confiantes, contavam com a sua sinceridade e dedicação, compelindo -o a lutar intensamente.
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Capítulo 7
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Parte Segunda Parte