2ª Parte - Cap. 7: As Epístolas
Sentindo-se incapaz de atender a todas as necessi dades ao mesmo tempo, o abnegado discípulo do Evan gelho, valendo-se, um dia, do silêncio da noite, quando a igreja se encontrava deserta, rogou a Jesus, com lágri mas nos olhos, não lhe faltasse com os socorros necessá rios ao cumprimento integral da tarefa. Terminada a oração, sentiu -se envolvido em branda claridade. Teve a impressão nítida de que recebia a v isita do Senhor. Genuflexo, experimentando indizível comoção, ouviu uma advertência serena e carinhosa: — Não temas — dizia a voz —, prossegue ensinando a verdade e não te cales, porque estou contigo. O Apóstolo deu curso às lágrimas que lhe fluíam do cora ção. Aquele cuidado amoroso de Jesus, aquela exortação em resposta ao seu apelo, penetravam-lhe a alma em ondas cariciosas. A alegria do momento dava para compensar todas as dores e padecimentos do cami nho. Desejoso de aproveitar a sagrada inspiração do m omento que fugia, pensou nas dificuldades para atender às várias igrejas fraternas. Tanto bastou para que a voz dulcíssima continuasse: — Não te atormentes com as necessidades do ser viço. É natural que não possas assistir pessoalmente a todos, ao mesmo t empo. Mas é possível a todos satisfazeres, simultaneamente, pelos poderes do espírito. Procurou atinar com o sentido justo da frase, mas teve dificuldade íntima de o conseguir. Entretanto, a voz prosseguia com brandura: - Poderás resolver o problema escrevendo a todos os irmãos em meu nome; os de boa-vontade saberão compreender, porque o valor da tarefa não está na presença pessoal do missionário, mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida. Doravante, Estevão permanecerá mais conchegado a ti, trans mitindo-te meus pensamentos, e o trabalho de evangeli zação poderá ampliar-se em benefício dos sofrimentos e das necessidades do mundo. O dedicado amigo dos gentios viu que a luz se extinguira; o silêncio voltara a reinar entre as paredes singelas da igreja de Corinto; mas, como se houvera sorvido a água divina das claridades eternas, conservava o Espírito mergulhado em júbilo intraduzível. Recome çaria o labor com mais afinco, mandaria às comunidades mais distantes as notícias do Cristo. De fato, logo no dia seguinte, chegaram portadores de Tessalônica com notícias desagradabilíssimas. Os ju deus haviam conseguido despertar, na igreja, novas e estranhas dúvidas e contendas. Timóteo corroborava com observações pessoais. Reclamavam a presença do Após tolo com urgência, mas este deliberou pôr em prática o alvitre do Mestre, e recordando que Jesus lhe prometera associar Estevão à divina tarefa, julgou não dever atuar por si só e chamou Timóteo e Silas para redigir a prim eira de suas famosas epístolas. Assim começou o movimento dessas cartas imor tais, cuja essência espiritual provinha da esfera do Cristo, através da contribuição amorosa de Estevão — companheiro abnegado e fiel daquele que se havia arvorado, na mocidade, em primeiro perseguidor do Cristianismo. Percebendo o elevado espírito de cooperação de todas as obras divinas, Paulo de Tarso nunca procurava escre ver só; buscava cercar-se, no momento, dos companheiros mais dignos, socorria -se de suas inspirações, consc iente de que o mensageiro de Jesus, quando não encontrasse no seu tono sentimental as possibilidades precisas para transmitir os desejos do Senhor, teria nos amigos instrumentos adequados. Desde então, as cartas amadas e célebres, tesouro de vibrações de um mundo superior, eram copiadas e senti das em toda parte. E Paulo continuou a escrever sempre, ignorando, contudo, que aqueles documentos sublimes, escritos muitas vezes em hora de angústias extremas, não se destinavam a uma igreja particular, mas à cri standade universal. As epístolas lograram êxito rápido. Os irmãos as disputavam nos rincões mais humildes, por seu conteúdo de consolações, e o próprio Simão Pedro, recebendo as primeiras cópias, em Jerusalém, reuniu a comunidade e, lendo -as, comovido, declarou que as cartas do convertido de Damasco deviam ser interpretadas como cartas do Cristo aos discípulos e seguidores, afirmando, ainda, que elas assinalavam um novo período luminoso na história do Evangelho. Altamente confortado, o ex -doutor da Lei procurou enriquecer a igreja de Corinto de todas as experiências que trazia da instituição antioquense. Os cristãos da cidade viviam num oceano de júbilos indefiníveis. A igreja possuía seu departamento de assistência aos que necessitavam de pão, de vestuário, de remédios. Venerandas velhinhas revezavam -se na tarefa santa de aten der aos mais desfavorecidos. Diariamente, à noite, havia reuniões para comentar uma passagem da vida do Cristo; em seguida à pregação central e ao movimento das manifestações de cada um, todos entravam em silêncio, a fim de ponderar o que recebiam do Céu através do pro fetismo. Os não habituados ao dom das profecias pos suíam faculdades curadoras, que eram aproveitadas a favor dos enfermos, em uma sala próxima. O mediunismo evangeliza do, dos tempos modernos, é o mesmo profe tismo das igrejas apostólicas. Como acontecia, por vezes, em Antioquia, surgiam também ali pequeninas discussões em torno de pontos mais difíceis de interpretação, que Paulo se apressava a acalmar, sem prejuízo da f raternidade edificadora. Ao fim dos trabalhos de cada noite, uma prece cari nhosa e sincera assinalava o instante de repouso. A instituição progredia a olhos vistos. Aliando -se à generosidade de Tito Justo, outros romanos de for tuna aproximaram-se do Evangelho, enriquecendo a organização de possibilidades novas. Os israelitas pobres encontravam na igreja um lar generoso, onde Deus se lhes manifestava em demonstrações de bondade, ao contrário das sinagogas, em cujo recinto, em vez de pão para a fome voraz, de bálsamo para as chagas do corpo e da alma, encontravam apenas a rispidez de preceitos tirânicos, nos lábios de sacerdotes sem piedade. Irritados com o êxito inexcedível do empreendimento de Paulo de Tarso, que se demorava na cidade já por um ano e sei s meses, tendo fundado um verdadeiro e perfeito abrigo para os “filhos do Calvário”, os judeus de Corinto tramaram um movimento terrível de perse guição ao Apóstolo. A sinagoga esvaziava-se. Era necessário extinguir a causa do seu desprestígio social. O ex-rabino de Jerusalém pagaria muito caro a audácia da propaganda do Messias Nazareno em detrimento de Moisés. Era procônsul da Acaia, com residência em Corinto, um romano generoso e ilustre, que costumava agir sem pre de acordo com a justiça, em sua vida pública. Irmão de Sêneca, Júnio Gálio era homem de grande bondade e fina educação. O processo iniciado contra o ex -rabino foi às suas mãos, sem que Paulo tivesse a mínima notícia e era tão grande a bagagem de acusações levantadas pelos israelitas, que o adm inistrador foi compelido a determi nar a prisão do Apóstolo para o inquérito inicial. A sina goga pediu, com particular empenho, que lhe fosse dele gada a tarefa de conduzir o acusado ao tribunal. Longe de conhecer o móvel do pedido, o procônsul concedeu a permissão necessária, determinando o comparecimento dos interessados à audiência pública do dia seguinte. De posse da ordem, os israelitas mais exaltados deli beraram prender Paulo na véspera, num momento em que o fato pudesse escandalizar toda a comunidade. A noite, justamente quando o ex -rabino comentava o Evangelho, tomado de profundas inspirações, o grupo armado parou à porta, destacando -se alguns judeus mais eminentes que se dirigiram ao interior. Paulo ouviu a voz de prisão, com extrema sereni dade. Outro tanto, porém, não aconteceu com a assem bléia. Houve grande tumulto no recinto. Alguns moços mais exaltados apagaram as tochas, mas o Apóstolo valoroso, num apelo solene -e comovedor, bradou alto: — Irmãos, acaso quereis o Cristo sem testemunho? A pergunta ressoou no ambiente, contendo todos os ânimos. Sempre sereno, o ex-rabino ordenou que acen dessem as luzes e, estendendo os pulsos para os judeus admirados, disse com acento inesquecível: — Estou pronto!... Um componente do grupo, despeitado com aq uela superioridade espiritual, avançou e deu-lhe com os açoites em pleno rosto. Alguns cristãos protestaram, os portadores da ordem de Gálio revidaram com aspereza, mas o prisioneiro, sem demonstrar a mais leve revolta, clamou em voz mais alta: — Irmãos, regozijemo-nos em Cristo Jesus. Este jamos tranqüilos e jubilosos porque o Senhor nos julgou dignos!... Grande serenidade estabeleceu -se, então, na assembléia. Várias mulheres soluçavam baixinho. Áquila e a es posa dirigiram ao Apóstolo um inolvidáv el olhar e a pequena caravana demandou o cárcere, na sombra da noite. Atirado ao fundo de uma enxovia úmida, Paulo foi atado ao tronco do suplício e houve de suportar a flagelação dos trinta e nove açoites. Ele próprio estava surpreendido. Sublime paz banh ava-lhe o coração de brandos consolos. Não obstante sentir-se sozinho, entre perseguidores cruéis, experimentava nova confiança no Cristo. Nessas disposições, não lhe doíam as vergas tadas impiedosas; debalde os verdugos espicaçavam -lhe o espírito ardente, com insultos e ironias. Na prova rude e dolorosa, compreendeu, alegremente, que havia atingido a região de paz divina, no mundo interior, que Deus concede a seus filhos depois das lutas acerbas e incessantes por eles mantidas na conquista de si mesmos. De outras vezes, o amor pela justiça o conduzira a situações apaixonadas, a desejos mal contidos, a polê micas ríspidas; mas ali, enfrentando os açoites que lhe caíam nos ombros seminus, abrindo sulcos sangrentos, tinha uma lembrança mais viva do Cristo, a impressão de estar chegando aos seus braços misericordiosos, depois de caminhadas terríveis e ásperas, desde a hora em que havia caído às portas de Damasco, sob uma tempestade de lágrimas e trevas. Submerso em pensa mentos sublimes, Paulo de Tarso sentiu o seu primeiro grande êxtase.
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Capítulo 7
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Parte Segunda Parte