Capítulo 17
No segundo dia de serviço espiritual definitivo, na tarefa de socorro a Margarida, nossa movimentação aureolava-se de sublime entusiasmo no santuário doméstico, que novamente se revestia das doces claridades da paz. A casa transformou-se. Desde a véspera, Saldanha e Leôncio eram os primeiros a pedir instruções de trabalho. Teimavam em dizer que os adversários do bem voltariam à carga. Conheciam a crueldade dos ex-companheiros e, porque muitos apaniguados de Gregório viriam fiscalizar a normalidade do processo alienatório da esposa de Gabriel, Gúbio começou por traçar expressivas fronteiras ao redor da casa, mantidas dali em diante sob a responsabilidade dos colaboradores que Sidônio nos cedera por gentileza. Enquanto aprestávamos a defensiva, o jovem casal louvava a alegria que lhes retornara aos corações. Margarida sentia-se leve, bem disposta, e rendia graças ao Eterno pelo “milagre” com que fora contemplada. O esposo formulava mil promessas de trabalho espiritual, com o júbilo do neófito embriagado de sublime esperança. De nosso lado, porém, as responsabilidades passaram a crescer. Atendendo às determinações de Gúbio, Saldanha dirigiu-se ao interior da casa e trouxe, por influência indireta, velha serva encarnada, que espanou móveis, bruniu adornos e abriu as janelas, dando passagem a vastas correntes de ar fresco. O prédio como que se reconciliava com a harmonia. As medidas referentes à limpeza prosseguiam adiantadas, quando vozes ásperas se fizeram ouvir, partidas da via pública. Elementos da falange gregoriana gritavam por Saldanha, que compareceu, junto de nós, desapontado e algo aflito. Nosso Instrutor paternalmente lhe recomendou: — Vai, meu amigo, e mostra-lhes o novo rumo. Tem coragem e resiste ao venenoso fluido da cólera. Usa a serenidade e a delicadeza. Saldanha estampou na fisionomia perceptível gesto de reconhecimento e avançou na direção dos recém-chegados. Uma das entidades de horrível semblante, de mãos à cintura, gritou-lhe, irreverente: — Então? Que houve aqui? Traindo o comando? O interpelado, que os últimos sucessos haviam alterado profundamente, respondeu humilde, mas firme: — Meus compromissos foram assumidos com a própria consciência e acredito dispor do direito de escolher a minha rota. — Ah! — Disse o outro, sarcástico, — tens agora o direito… Veremos… E tentando insinuar-se de maneira direta, clamou: — Deixa-me entrar! — Não posso, — esclareceu o ex-perseguidor, — a casa segue noutra direção. O interlocutor lançou-lhe um olhar de revolta insofreável e indagou estentórico: — Onde tens a cabeça? — No lugar próprio. — Não temes, porventura, as consequências do gesto impensado? — Nada tenho de que penitenciar-me. O visitante fez carantonha de irritação extrema e aduziu: — Gregório saberá. E retirou-se acompanhado pelos demais. Transcorridos alguns instantes, outros elementos assomaram à entrada, assustadiços e insolentes, com a repetição dos mesmos quadros. Em breve, cenas diversas passaram a desdobrar-se. Gúbio colocou sinais luminosos nas janelas, indicando a nova posição daquele abrigo doméstico, opondo-se às manchas de sombra que provinham dali; e, naturalmente atraídos por eles, Espíritos sofredores e perseguidos, mas bem intencionados, apareceram em grande número. A primeira entidade a aproximar-se foi uma senhora que se ajoelhou, à entrada, suplicando: — Benfeitores de Cima, que vos congregastes nesta casa, em serviço de luz, livrai-me da aflição!… Piedade! Piedade!… O nosso Instrutor atendeu-a, imediatamente, permitindo-lhe a passagem. E, no pátio ao lado, contou em pranto que se mantinha, há muito tempo, num edifício próximo, segregada por verdugos impassíveis que lhe exploravam antigas disposições mórbidas para o vício. Achava-se, porém, cansada do erro e suspirava por mudança benéfica. Penitenciava-se. Pretendia outra vida, outro rumo. Implorava asilo e socorro. O orientador consolou-a, bondoso, e prometeu-lhe amparo. Logo após, surgiram dois velhos, rogando pousada, Ambos haviam desencarnado em extrema indigência num hospital. Revelavam-se possuídos de imenso terror. Não se conformavam com a morte. Temiam o desconhecido e mendigavam elucidações. Padeciam de verdadeira loucura. Curiosa dama compareceu pedindo providências contra Espíritos pervertidos e perturbadores que, em grande bloco, lhe não permitiam aproximar-se do filho, instigando-o à embriaguez. Outra veio solicitar recursos contra os maus pensamentos de um Espírito vingativo que lhe não dava ensejo à oração. A corrente dos pedintes, contudo, não ficou aí. Tive a ideia de que a missão de Gúbio se convertera, de repente, numa avançada instituição de pronto-socorro espiritual. Dezenas de criaturas desencarnadas, sob regime de prisão aos Círculos inferiores, alinhavam-se, agora, ao lado da residência de Gabriel, sob a determinação de Gúbio que dizia aguardar a noite para os serviços da prece em geral. Antes, porém, que o dia expirasse, começaram a surgir vários elementos da falange de Gregório, afirmando-se dispostos à renovação de caminho. Procediam da própria colônia que visitáramos, e um deles, com grande assombro para mim, foi claro na enunciação dos propósitos de que se achava inspirado. — Salvem-me dos juízes cruéis! — Suplicou, emocionando-nos pela inflexão de voz, — não posso mais! Não suporto, por mais tempo, as atrocidades que sou constrangido a praticar. Soube que o próprio Saldanha se transformou. Eu não posso persistir no erro! Temo a perseguição de Gregório, mas, se é necessário arrostar as maiores dores, enfrentá-las-ei de bom grado, preferindo-lhes o golpe fulminatório a regressar. Ajudem-me! Aspiro à nova estrada, com o bem. Apelos como este foram repetidos muitas vezes. Enfileirando os sofredores de intenções nobres e retas que nos alcançavam, no vasto recinto de que dispúnhamos, nosso Instrutor recomendou que eu e Elói nos colocássemos à disposição deles, ouvindo-os com paciência e prestando-lhes a assistência possível, a fim de se prepararem mentalmente para as orações da noite. Confesso que me senti à vontade. Dividimo-nos, então, em dois setores distintos. Organizei os irmãos que me cabia atender em assembleia fraternal; contudo, em vista de os necessitados continuarem chegando, de espaço a espaço, era imperioso abrir novos lugares no extenso grupo dos ouvintes. Muitas entidades em desequilíbrio, lá fora, reclamavam acesso, pronunciando rogativas comovedoras; todavia, o nosso orientador aconselhara fosse a entrada privativa dos Espíritos que se mostrassem conscientes das próprias necessidades. De há muito aprendera que uma dor maior sempre consola uma dor menor e limitava-me a pronunciar frases curtas, para que os infelizes, ali congregados, encontrassem reconforto, uns com os outros, sem necessidade de doutrinação de minha parte. Conduzindo-me desse modo, pedi a uma das irmãs presentes, em deploráveis condições perispiríticas, expor-nos, por gentileza, a experiência de que fora objeto. A infortunada concentrou a atenção de todos, em virtude das feridas extensas que mostrava no semblante agora erguido. — Ai de mim! — Começou, penosamente, — ai de mim, a quem a paixão cegou e venceu, transportando-me ao suicídio! Mãe de dois filhos, não suportei a solidão que o mundo me impusera com a morte de meu marido tuberculoso. Cerrei os olhos ao campo de obrigações que me convidavam ao entendimento e sufoquei as reflexões ante o futuro que se avizinhava. Olvidei o lar, os filhos, os compromissos assumidos e precipitei-me no vale fundo de sofrimentos inenarráveis. Há quinze anos, precisamente, vagueio sem pouso, à feição da ave imprevidente que aniquilasse o ninho… Leviana que fui! Quando me vi só e aparentemente desamparada, entreguei meus pobres filhos a parentes caridosos e sorvi, louca, o veneno que me desintegraria o corpo menosprezado. Supunha reencontrar o esposo querido ou chafurdar-me no abismo da inexistência; todavia, nem uma realização nem outra me surpreenderam o coração. Despertei sob denso nevoeiro de lama e cinza e debalde clamei socorro, à face dos padecimentos que me asfixiavam. Coberta de chagas, qual se o tóxico letal me atingisse os mais finos tecidos da alma, gritei sem destino certo! A essa altura, porque a emotividade lhe interceptasse a voz, interferi, perguntando, de modo a fixar o ensinamento: — E não conseguiu retornar ao santuário doméstico? — Ah! Sim! Fui até lá, — informou a interpelada tentando dominar-se, — mas, para acentuar-me a angústia, o toque de meu carinho nos filhos amados, que confiara aos parentes próximos, provocava-lhes aflição e enfermidade. As irradiações de minha dor lhes alcançavam os corpos tenros, envenenando-lhes a carne delicada, através da respiração. Quando compreendi que a minha presença lhes inoculava pavoroso “vírus fluídico”, deles fugi aterrada. É preferível suportar o castigo de minha própria consciência isolada e sem rumo que infligir-lhes sofrimento sem causa! Experimentei medo e horror de mim mesma. Desde então, perambulo sem consolo e sem norte. É por isto que venho até aqui implorando alívio e segurança. Estou cansada e vencida… — Convença-se de que receberá os recursos que pleiteia, por intermédio da prece, — esclareci, prometendo-lhe a colaboração eficiente de Gúbio. A pobrezinha sentou-se, mais calma; e reparando que um dos irmãos presentes buscava salientar-se, no intuito de relatar-nos a experiência de que era vítima, roguei atenção, em torno das palavras que pronunciaria. Fitei-o, vigilante, e notei-lhe o singular brilho dos olhos.
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Nome do Capítulo Assistência fraternal