E os protetores verdadeiros são aqueles que, como nós, lhe conhecem os padecimentos ocultos. Não é justo que se submeta às arbitrariedades do marido infiel. Abstenha-se de receber-lhe o séquito de companheiros hipócritas, interessados em orações coletivas, que mais se assemelham a palhaçadas inúteis. É um perigo entregar-se a práticas mediúnicas, qual vem fazendo em companhia de gente dessa espécie… Tome cuidado!… A médium invigilante arregalou os olhos, impressionada com a estranha inflexão impressa nas palavras ouvidas, e gritou:
— Aconselhe-me, Espírito generoso e amigo, que tão bem me conhece o martírio silencioso! O interlocutor, na intenção de destruir a célula iluminativa que funcionava com imenso proveito no santuário doméstico da jovem senhora, assediada agora por seus argumentos adocicados e venenosos, observou com malícia:
— A senhora não nasceu com a vocação do picadeiro. Não permita a transformação de sua casa em sala de espetáculo. Seu marido e suas relações sociais exageram-lhe as faculdades. Precisa ainda de longo tempo para desenvolver-se suficientemente. E envolvendo-a nos pesados véus da dúvida que anulam tantos trabalhadores bem intencionados, aduziu:
— Já meditou bastante na mistificação inconsciente? Está convencida de que não engana os outros? É indispensável acautelar-se. Se estudar a grave questão do Espiritismo, com inteligência e acerto, reconhecerá que as mensagens escritas por seu intermédio e as incorporações de entidades supostamente benfeitoras não passam de pálidas influências de Espíritos perturbados e de alta percentagem dos produtos de seu próprio cérebro e de sua sensibilidade agitada pelas exigências descabidas das pessoas que lhe frequentam a casa. Não vê a plena consciência com que se entrega ao imaginado intercâmbio? Não creia em possibilidades que não possui. Trate de preservar a dignidade de sua casa, mesmo porque seu esposo não tem outro objetivo senão o de utilizar-lhe a credulidade excessiva, lançando-a a triste aventura do ridículo. A pobre criatura, tão ingênua e prestimosa, registava com visível terror aquela conceituação do assunto. Espantado com a passividade de Sidônio, ante aquele assalto, enderecei-lhe a palavra, respeitoso, porém menos tranquilo:
— Não será razoável defendê-la? Ele sorriu compreensivamente e elucidou:
— Todavia, que fizemos, há poucas horas, no culto da prece e do socorro fraternal, senão prepará-la à própria defensiva? Trabalhou mediunicamente conosco; ouviu formosa e comovedora preleção evangélica contra os perigos do egoísmo enfermiço; colaborou, decidida, para que o bem se concretizasse e ela própria emprestou-nos os lábios a fim de ensinarmos princípios de salvação em nome do Cristo, a quem deveria confiar-se. Entretanto, apenas porque o esposo se dispôs a justa gentileza com as damas que lhe buscaram a companhia esclarecedora e fraterna, obscureceu o pensamento no ciúme destruidor e perdeu o equilíbrio íntimo, entregando-se, inerme, a entidades que lhe exploram o sentimentalismo. Fez significativo gesto, apontando os malfeitores desencarnados, e explicou:
— Estes companheiros retardados procedem com os médiuns à maneira de ladrões que, depois de saquearem uma casa, acordam o dono, hipnotizam-no e obrigam-no a tomar-lhes o lugar, compelindo-o a sentir-se na condição de mentiroso e mistificador. Aproximam-se da mente invigilante, dilaceram-lhe a harmonia, furtam-lhe a tranquilidade e, depois, com sarcasmo imperceptível e sutil, obrigam-na a acreditar-se fantasiosa e desprezível. Muitos missionários se deixam atropelar pela falsa argumentação que acabamos de ouvir e menosprezam as sublimes oportunidades de estender o bem, através de preciosa sementeira que lhes enriqueça o futuro.
— Mas não há recurso, — inquiri, sensibilizado, — de afastar semelhantes malfeitores?
— Sem dúvida, — elucidou Sidônio, bem humorado, — em toda parte existe contenção e panaceia, remediando situações pela violência ou pelo engodo prejudiciais, mas, na intimidade de nossa tarefa, que será mais aconselhável? Espantar moscas ou curar a ferida? Sorriu, enigmático, e prosseguiu:
— Tais dificuldades são lições valiosas que o Espírito do medianeiro, entre encarnados e desencarnados, deve aproveitar em benditas experiências e não nos compete subtrair o ensinamento ao aprendiz. Enquanto um trabalhador da mediunidade empresta ouvidos a histórias que lhe lisonjeiem a esfera pessoal, disso fazendo condição para cooperar na obra do bem, quer dizer que ainda estima o personalismo inferior e o fenômeno, acima do serviço que lhe cabe no plano divino. Nessa posição, demorar-se-á longo tempo entre desencarnados ociosos que disputam a mesma presa e anula valiosa ocasião de elevar-se, porque, depois de certo tempo de auxílio desaproveitado, perde provisoriamente a companhia edificante de irmãos mais evolvidos que tudo fazem inutilmente pelo reerguer no caminho. Então cai vibratoriamente no nível moral a que se ajusta, convive com as entidades cujo contato prefere, e acorda, mais tarde, verificando as horas preciosas que desprezou. A esse tempo, o obsidente de Dona Isaura afirmava-lhe, palrador:
— Estude a senhora o próprio caso. Consulte cientistas competentes. Leia as últimas novidades em psicanálise e não perca sua oportunidade de restauração, sob pena de enlouquecer. E comentava, sacrílego:
— Falo-lhe em nome das Esferas Superiores, na qualidade de amigo fiel.
— Sim… compreendo… — concordava a interlocutora, tímida e desapontada. Nesse momento, Sidônio abeirou-se do grupo e fez-se visível para Dona Isaura, hipnotizada pelos perseguidores, e a médium registou-lhe a presença com alguma dificuldade, exclamando:
— Vejo Sidônio, nosso devotado amigo espiritual! O verboso obsessor, que de maneira alguma percebia a nossa vizinhança, em virtude do baixo padrão emocional em que se mantinha, zombou, franco:
— Nada disso. A senhora nada vê. É pura ilusão. Abandone o vício mental para furtar-se a maiores desequilíbrios. Sidônio voltou algo triste e informou sem rebuços:
— Desde o instante em que Isaura se projetou na zona sombria do ciúme, tem a matéria mental em posição difícil e não se acha em condições de compreender-me. Mas, poderemos socorrê-la de outro modo. Em volitação rápida, no que foi seguido por mim, encontrou o marido da medianeira numa reunião instrutiva, junto de vários amigos espirituais, e recomendou-lhe tomar o corpo físico sem perda de tempo, a fim de auxiliar a esposa em dificuldade. O irmão Silva não hesitou. Em breve, regressava à câmara conjugal, reapossando-se do veículo denso. O corpo da senhora, ao lado dele, arfava em reiteradas contorções, acorrentado a indizível pesadelo. Dócil à influenciação de Sidônio, procurou despertá-la, sacudindo-lhe o busto, delicadamente. Isaura, em copioso pranto, retornou ao campo carnal sem detença, abrindo os olhos assustadiços:
— Oh! Como sou infeliz!
— Bradou, angustiada, — estou sozinha! Sozinha! Sidônio, quase incorporado ao marido complacente e bondoso, levava-o a falar, construtivamente:
— Lembra-te, querida, de nossa fé e de quanto temos recebido de nossos amados benfeitores espirituais!
— Nada disso! — Retrucou, irritada.
— Como assim? — Tornou ele, paciente, — não temos sido tão amparados, através de tua própria mediunidade?
— Nunca! Nunca… — protestou a pobre senhora, — tudo é uma farsa. As mensagens que recebo são pura atividade de minha imaginação. Tudo é expressão de mim mesma.
— Mas ouve, Isaura! — Aduziu o esposo, sorrindo, — jamais foste mentirosa. Já sei. Caíste nas malhas dos nossos infelizes irmãos que te conduzem ao purgatório do ciúme terrível, mas Jesus nos auxiliará no oportuno reajustamento. Nesse momento, Sidônio voltou-se para mim e lembrou:
— Penso, André, que já assististe à fase culminante da lição. E esta conversa agora seguirá até muito longe. Com o milagroso concurso das horas, pacificaremos a mente da servidora respeitável, mas exclusivista e invigilante. Volta ao teu círculo de trabalho e guarda o ensinamento desta noite. Profundamente tocado pelo que vira, agradeci e afastei-me.