Capítulo 17
Parecia alucinado, abatido. Com a expressão típica da loucura cronicificada, falou, aflito: — Permite-me indagar? — Perfeitamente, — respondi surpreso. — Que é o pensamento? Não aguardava a pergunta que me era desfechada, mas, centralizando minha capacidade receptiva, no propósito de responder com acerto, elucidei como pude: — O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal. — Ah! — Fez o estranho cavalheiro, um tanto atormentado, — a explicação significa que as nossas ideias exteriorizadas criam imagens, tão vivas quanto desejamos? — Indiscutivelmente. — Que fazer, então, para destruir nossas próprias obras, quando interferimos, erroneamente, na vida mental dos outros? — Auxilie-nos a apreciar seu caso, contando-nos alguma coisa de sua experiência, — pedi com interesse fraternal. O interlocutor, provavelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa, expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo, com frases incisivas, quentes de sinceridade e dor: — Fui homem de letras, mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia, estendendo minhas criações à mocidade de meus dias. Não consegui posição de evidência, nos galarins da fama; entretanto, mais que eu poderia imaginar, impressionei, destrutivamente, muitas mentalidades juvenis, arrastando-as a perigosos pensamentos. Depois do meu decesso, sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis, que me não deixam em paz, e, enquanto isto ocorre, outras entidades me buscam, formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar. Compreendi que me achava em ligação, desde a existência terrestre, com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações indesejáveis. No fundo, eu mantinha por mim mesmo, no próprio espírito, suficiente material de leviandade e malícia, que eles exploraram largamente, adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar, sem meu concurso ativo. Acontece, porém, que abrindo meus olhos à verdade, na Esfera em que hoje respiramos, em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas ideias que lhes infundi, na romagem carnal, certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior, como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. Assemelham-se a personalidades autônomas, se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam, gesticulam, acusam-me e riem-se de mim. Reconheço-as sem dificuldade. São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Investem contra mim, apupam-me e vergastam-me o brio, como se fossem filhos rebelados contra um pai criminoso. Tenho vivido ao léu, qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender, porém, os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas ideias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco? Havia nos ouvintes significativa expectação, não obstante a calma reinante. O infeliz deixou de falar, titubeante. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo, apalermado e trêmulo à nossa vista. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e, correndo aos meus braços, bradou: — Ei-lo! Ei-lo que chega por dentro de mim… É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! Acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!… Alçando a destra à garganta, denunciava, aflito: — Serei assassinado! Socorro! Socorro!… Os demais companheiros perturbados e sofredores, ali presentes, alarmaram-se, desditosos. Houve quem tentasse fugir, mas, com uma frase apenas, sustei o tumulto iniciante. O pobre beletrista desencarnado contorcia-se em meus braços, sem que eu pudesse socorrer-lhe a mente transviada e ferida. Cautelosamente, enviei um emissário a Gúbio, que compareceu, em alguns segundos. Examinou o caso e pediu a presença de Leôncio, o ex-hipnotizador de Margarida. À frente do recém-chegado, indicou-lhe o doente em crise e falou peremptório, mas bondoso: — Opera, aliviando. — Eu? eu? — Falou o convertido, semi-apalermado, — merecerei a graça de transmitir alívio?… Gúbio, no entanto, obtemperou, sem hesitar: — Serviço construtivo e atividade destrutiva constituem problema de direção. A corrente líquida, devastadora, que derruba e mata, pode sustentar uma usina de força edificante. Em verdade, meu amigo, todos somos devedores, enquanto nos situamos nas linhas do mal. É imperioso reconhecer, contudo, que o bem é a nossa porta redentora. O maior criminoso pode abreviar longos anos de pena, entregando-se ao resgate próprio, através do serviço benéfico aos semelhantes. Dissipando-lhe as dúvidas, acentuou com inflexão de ternura: — Começa hoje, aqui e agora, com o Cristo. Em tua determinação de ajudar, esconde-se a solução do segredo da felicidade própria. Leôncio não mais vacilou. Magnetizou o enfermo dementado que, poucos minutos depois, silenciou, em profundo repouso. Desde esse instante, o ex-perseguidor não mais me abandonou nas experiências do dia, desempenhando as funções de excelente companheiro. A assembleia, porém, crescia de hora a hora. Entidades de boa intenção buscavam-nos sequiosas de paz e esclarecimento, mas, francamente, doía-me observar tanta ignorância, além da morte do corpo. Na maior parte dos presentes não surgia o mais leve traço de compreensão da espiritualidade. Raciocínios e sentimentos jaziam presos ao chão terrestre, vinculados a interesses e paixões, angústias e desencantos. E nosso orientador fora categórico, nas últimas informações que transmitira. A noite próxima assinalar-nos-ia o término da permanência junto ao lar de Margarida, e cabia-nos preparar quantos nos buscavam, famintos de conhecimento santificante, para os serviços de oração que ele pretendia realizar. Não convinha comparecessem desprevenidos de avisos salutares e oportunos, acerca das obrigações e esperanças que lhes competiam desenvolver. Em razão disso, interferi nas conversações, disseminando os esclarecimentos de que podia dispor. Ao entardecer, a conformação e o contentamento reinavam em todos os rostos. Nosso Instrutor prometera conduzir os companheiros de boa vontade a Esfera mais elevada, garantindo-lhes a passagem para a condição superior, e doce júbilo transparecia de todos os olhares. Na exaltação da fé e confiança que nos dominavam, simpática senhora pediu-me permissão para cantar um hino evangélico, ao que anuí, prazeroso, e era de ver a beleza da melodia desferida em notas de maravilhoso encantamento. Alegre e reconfortado pela expressão do serviço que nos fora conferido, tinha meus olhos nublados de pranto, quando, aos últimos versos do cântico de esperança, jovem dama, de triste fisionomia, avançou para mim e disse, em voz súplice: — Meu amigo, de hoje em diante adotarei novo rumo. Sinto, neste cenáculo de fraternidade, que o mal nos afundará invariavelmente nas trevas. Fixou os olhos lacrimosos nos meus e rogou, depois de comovente intervalo: — Promete-me, porém, a bênção do olvido na “esfera do recomeço”! Fui mãe de dois filhinhos, tão belos e tão puros como duas estrelas, mas a morte me arrebatou muito cedo do lar. Mas não foi a morte o único algoz que me feriu, desapiedado… Meu marido, em seis meses, esqueceu as promessas de muitos anos e entregou-me os dois anjos à madrasta sem entranhas, que cruelmente os amesquinha… Há vinte meses luto contra ela, tomada de incoercível revolta; todavia, estou entediada do ódio que me constringe o coração! Preciso renovar-me para o bem, a fim de ser mais útil. Entretanto, meu amigo, tenho sede de esquecimento. Ajuda-me por piedade! Prende-me em algum lugar, onde minhas recordações amargas possam tranquilamente morrer. Não me deixes, por mais tempo, entregue aos caprichos que me arrastam. Minha inclinação ao bem é insignificante réstia de luz, no seio da noite do mal que me envolve. Compadece-te e ajuda-me! Não sei amar, ainda, sem o ciúme violento e aviltante! Entretanto, não ignoro que o Mestre Divino se entregou à cruz, em extrema renúncia! Não permitas que as minhas elevadas aspirações desta hora venham a perecer! As rogativas e lágrimas daquela mulher acordaram-me a lembrança viva do próprio passado. Eu também sofrera intensivamente para desvencilhar-me dos laços inferiores da carne. Sensibilizado, nela enxerguei uma irmã pelo coração e que me cumpria esclarecer e amparar. Abracei-a, comovido, como se o fizesse a uma filha, chorando por minha vez. E refletindo nas dificuldades de quantos empreendem a reveladora viagem da morte, sem bases de verdadeiro amor e de legítimo entendimento nos corações que permanecem à retaguarda, exclamei: — Sim, farei tudo quanto estiver em minhas forças para auxiliar-te. Fixa-te em Jesus e doce esquecimento do perturbado campo terrestre te balsamizará o espírito, preparando-te para o voo às torres celestes. Serei teu amigo e desvelado irmão. Ela abraçou-me, confiante, como a criancinha quando se sente segura e feliz.
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Nome do Capítulo Assistência fraternal