1ª Parte - Cap. 1: Corações flagelados
O movimento não era intenso na feira habitual, como nos dias mais comuns; entretanto, havia certa concor rência de compradores, mormente de libertos e pequenos proprietários, que afluiam das estradas de Cencréia. Mal não havia terminado a compra de peixe e legumes, luxuosa liteira parou no centro da praça e dela saltou um oficial patrício, desdobrando largo pergaminho. Ao sinal de silêncio, que fizera emudecer todas as vozes, a palavra da estranha personagem vibrou forte na leitura fiel do édito que trazia: — “Licínio Minúcio, questor do Império e legado de César, encarregado de abrir nesta província a necessária devassa para restabelecimento da ordem em toda a Acata, convida a todos os habitantes de Corinto que se consi derarem prejudicados em seus interesses pessoais, ou que se encontrarem necessitados de amparo legal, a compare cerem amanhã, ao meio -dia, no palácio provincial, junto ao templo de Vênus Pandemos, a fim de exporem suas queixas e reclamações, que serão plenamente atendidas pelas au toridades competentes.” Lido o aviso, o mensageiro retornou a elegante via tura, que, sustentada por hercúleos braços escravos, desa pareceu na primeira esquina, envolvida por uma nuvem de pó levantada em remoinho pela ventania da manhã. Entre os circunstantes, surgiram logo opiniões e comentários. Os queixosos não tinham conta. O legado e seus prepostos logo de começo se apossaram de pequenos patrimônios territoriais da maioria das famílias mais humildes, cujos recursos financeiros não davam para custear processos no foro provincial. Daí, a onda de esperanças que avassalava o coração de muitos e a opi nião pessimista de outros, que não enxergavam no édito senão nova cilada, para obrigar os reclamantes a paga rem muito caro as suas legítimas reivindicações. Jochedeb ouviu a comunicação oficial, colocando -se imediatamente entre os que se julgavam com direito a esperar legítima indenização pelos prejuízos sofridos noutros tempos. Animado das melhores esperanças, desan dou para casa, escolhendo caminho mais longo, de modo a evitar novo encontro com os que o haviam humilhado rudemente. Não havia caminhado muito, quando lhe surgiram à frente novos grupos de militares romanos, em conver sações ruidosas, que transbordavam alacremente nas claridades da manhã. Defrontando o primeiro grupo de tribunos e sentin do-se alvo de comentários deprimentes a transparecerem em risos escarninhos, o velho israelita considerou: —“Deverei saudá-los, ou passar mudo e reverente, como procurei fazer na vinda?” Preocupado com o evitar n ovo pugilato que agravasse as humilhações daquele dia, in clinou-se profundamente qual mísero escravo e murmurou, tímido: — Salve, valorosos tribunos de César! Mal acabou de o dizer e um oficial de fisionomia dura e impassível se acercou, exclamando colér ico: — Que é isso? Um judeu a dirigir -se impunemente aos patrícios? Chegou a tanto a condenável tolerância da autoridade provincial? Façamos justiça por nossas próprias mãos. E novas bofetadas estalaram no rosto dorido do infeliz, que necessitava concentrar todas as energias na vontade para não se atirar, de qualquer modo, a uma reação desesperada. Sem uma palavra de justificação, o filho de Jared submeteu-se ao castigo cruel. Seu coração precipite, parecia rebentar de angústia no peito envelhecido; todavia, o olhar refletia a intensa revolta que lhe ia na alma opressa. Impossibilitado de coordenar idéias em face da agressão inesperada, na sua atitude humilde reparou que, desta vez, o sangue jorrava das narinas, tingindo-lhe a barba branca e o linho singelo das vestiduras. Isso, porém, não chegou a sensibilizar o agressor, que, por fim, lhe vibrou a última punhada na fronte enrugada, murmurando: — Safa-te, insolente! Sustentando, a custo, o cesto que lhe pendia dos braços trêmulos, Jochedeb avançou cambalean te, sufocando a explosão do seu extremo desespero. “Ah! ser velho!” — pensava. Simultaneamente, os símbolos da fé modificavam -lhe as disposições espirituais, e sentia no íntimo a palavra antiga da Lei: — “Não matarás”. No entanto, os ensinamentos divinos, a seu ver, na voz dos profetas, aconselhavam o revide — “olho por olho, dente por dente”. Seu espírito guardava a intenção da represália como remédio às reparações a que se julgava com direito; mas as forças físicas já não eram compatí veis com os requisitos da reação. Profundamente humilhado e presa de angustiosos pensamentos, buscou recolher-se ao lar, onde se aconse lharia com os filhos muito amados, em cujo afeto encontraria, decerto, a necessária inspiração. Sua modesta vivenda não demorava longe e, ainda a distância, acabrunhado, entreviu o singelo e pequenino teto do qual fizera a edícula do seu amor. Presto, enveredou na trilha que terminava na cancelinha tosca, quase afogada pelas roseiras de Abigail, a exalarem forte e delicioso perfume. As árvores verdes e copadas espalhavam frescor e sombra, que atenuavam o rigor do sol. Uma voz clara e amiga chegava de longe aos seus ouvidos. O coração paternal adivinhava. Àquela hora, Jeziel, conforme o programa por ele mesmo traçado, arava a terra, preparand o-a para as primeiras semeadu ras. A voz do filho parecia casar -se à alegria do sol. A velha canção hebraica, que lhe saía dos lábios quentes de mocidade, era um hino de exaltação ao trabalho e à Natureza. Os versos harmoniosos falavam do amor à terra e da proteção constante de Deus. O generoso pai afogava, a custo, as lágrimas do coração. A melodia popular sugeria -lhe um mundo de reflexões. Não havia trabalhado a existência inteira? Não se presumia um homem honesto nos mínimos atos da vida, para jamais per der o título de justo? Entretanto, o sangue da per seguição cruel ali estava a pingar lhe da barba veneranda sobre a túnica branca e indene de qualquer mácula que lhe pudesse atormentar a consciência. Ainda não transpusera o cercado rústico da vivenda humi lde, quando uma voz cariciosa lhe gritava assusta diça e veemente: — Pai! Pai! que sangue é esse? Uma jovem de notável formosura corria a abraçá -lo com imensa ternura, ao mesmo tempo que lhe arrancava o cesto das mãos trêmulas e doloridas. Abigail, na candidez dos seus dezoito anos, era um gracioso resumo de todos os encantos das mulheres da sua raça. Os cabelos sedosos caíam -lhe em anéis caprichosos sobre os ombros, emoldurando -lhe o rosto atraente num conjunto harmonioso de simpatia e beleza. No en tanto, o que mais impressionava, no seu talhe esbelto de menina e moça, eram os olhos profundamente negros, nos quais intensa vibração interior parecia falar dos mais elevados mistérios do amor e da vida. — Filhinha, minha querida filha! — murmurou ele, amparan do-se nos seus braços carinhosos. Em breve, dava conta de todas as ocorrências. E, enquanto o velho genitor banhava o rosto contundido, na infusão balsâmica que a filha preparara cuidadosamente, Jeziel era chamado a inteirar -se do acontecido. O jovem acorreu solícito e pressuroso. Abraçado ao pai, ouviu -lhe o desabafo amargo, palavra por palavra. No vigor da juventude, não se lhe poderia dar mais de vinte e cinco anos; mas o comedimento dos gestos e a gravidade com que se exprimia, deixavam entrever um esp írito nobre, ponderado e servido por uma consciência cristalina. — Coragem, pai! — exclamou depois de ouvir a dolorosa exposição, pondo nas expressões de firmeza um acentuado cunho de ternura — nosso Deus é de justiça e sabedoria. Confiemos na sua proteção ! Jochedeb contemplou o filho de alto a baixo, fixan do-lhe o olhar bondoso e calmo, onde desejaria lobrigar, naquele momento, a indignação que lhe parecia natural e justa, dominado pelo desejo das represálias. Ë ver dade que criara Jeziel para as alegrias puras do dever, em obediência à leal execução da lei; entretanto, nada o compelia a abandonar suas idéias de desforra, de maneira a desafrontar-se dos ultrajes recebidos. — Filho — obtemperou depois de meditar longo tempo —, Jeová é cheio de justiça, mas os filhos de Israel, como escolhidos, precisam igualmente exercê la. Poderíamos ser justos, olvidando afrontas? Não poderei des cansar, sem o repouso da consçiência pela obrigação cum prida. Tenho necessidade de assinalar os erros de que fui vítima, no pr esente e no passado, e amanhã irei ao legado ajustar minhas contas. O jovem hebreu fez um movimento de espanto e acrescentou: — Ireis, porventura, à presença do questor Licínio, esperando providências legais? E os antecedentes, meu pai? Pois não foi esse m esmo patrício quem vos despojou de grande patrimônio territorial, atirando -vos ao cárcere? Não vedes que ele tem nas mãos as forças da iniqüidade? Não será de temer novas investidas com o fim de extorquir o pouco que nos resta? Jochedeb mergulhou no olhar do filho, olhar que a nobreza do coração orvalhava de lágrimas emotivas, po rém, na sua rigidez de caráter, acostumado a executar os desígnios próprios até ao fim, exclamou quase seca -mente: — Como sabes, tenho contas velhas e novas a acer tar, e, amanhã, de conformidade com o édito, aprovei tarei o ensejo que o Governo provincial nos faculta. — Meu pai, suplico-vos — advertiu o rapaz, entre respeitoso e carinhoso — não lanceis mão desses re cursos! — E as perseguições? — explodiu o velho energi camente — e esse turbilhãO incessante de ignomínias em torno dos homens de nossa raça? Não haverá um paradeiro nesse caminho de infinitas angústias? Assis tiremos, inermes, ao enxovalho de tudo que possuimos de mais sagrado? Tenho o coração revoltado com esses crime s odiosos, que nos atingem impunemente... A voz tornara-se-lhe arrastada e melancólica, dei xando perceber extremo desânimo; todavia, sem se per turbar com as objeções paternas, Jeziel prosseguiu: - Essas torturas, entretanto, não são novas. Há muitos séc ulos, os faraós do Egito levaram tão longe a crueldade para com os nossos ascendentes, que os meninos de nossa raça eram trucidados logo ao nascer. Antíoco Epifânio, na Síria, mandou degolar mulheres e crianças, no recesso mesmo dos nossos lares.
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Capítulo 1
Nome do Capítulo Corações flagelados
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