1ª Parte - Cap. 1: Corações flagelados
A manhã enfeitava -se de muita alegria e de sol, mas as ruas centrais de Corinto estavam quase desertas. No ar brincavam as mesmas brisas perfumadas, que sopravam de longe; entretanto, não se observava, na fisionomia suntuosa das vias públicas, o sorriso de suas crianças despreocupadas, nem o movimento habitual das liteiras de luxo, em seu giro costumeirO. A cidade, reedificada por Júlio César, era a mais bela jóia da velha Aca ia, servindo de capital à formosa pro víncia. Não se podia encontrar, na sua intimidade, o espírito helênico em sua pureza antiga, mesmo porque, depois de um século de lamentável abandono, após a destruição operada por Múmio, restaurando-a, o grande imperador transformara Corinto em colônia importante de romanos, para onde acorrera grande número de liber tos ansiosos de trabalho remunerador, ou proprietários de promissoras fortunas. A estes, associara-se vasta corrente de israelitas e considerável percenta gem de filhos de outras raças que ali se aglomeravam, transformando a cidade em núcleo de convergência de todos os aventu reiros do Oriente e do Ocidente. Sua cultura estava muito distante das realizações intelectuais do gosto grego mais eminente, misturando-se, em suas praças, os templos mais diversos. Obedecendo, talvez, a essa heterogeneidade de sentimentos, Corinto tornara-se famosa pelas tradições de libertinagem da grande maioria dos seus habitantes. Os romanos lá encontravam campo largo para a s suas paixões, entregando-se, desvairadamente, ao vene noso perfume desse jardim de flores exóticas. Ao lado dos aspectos soberbos e das pedrarias rutilantes, o pân tano das misérias morais exalava nauseante bafio. A tragédia foi sempre o preço doloroso dos prazeres fáceis. De quando em quando, os grandes escândalos reclamavam as grandes repressões. Nesse ano de 34, a cidade em peso fora atormentada por violenta revolta dos escravos oprimidos. Crimes tenebrosos foram perpetrados na sombra, exigindo severa s devassas. O Pró-consul não hesitara, ante a gravidade da situação. Expedindo mensageiros oficiais, solicitara de Roma os recursos precisos. E os recursos não tardaram. Em breve, a galera das águias dominadoras, auxiliada por ventos favoráveis, trazia no bojo as autoridades da missão punitiva, cuja ação deveria esclarecer os acontecimentos. Eis por que, nessa manhã radiosa e alegre, os edi fícios residenciais e as lojas do comércio apresentavam -se envolvidos em profundo silêncio, semicerrados e tristes. Os transeuntes eram raros, com exceção de vários ma gotes de soldados, que cruzavam as esquinas despreocupa dos e satisfeitos, como quem se entregava, de bom grado, ao sabor das novidades. Já de alguns dias, um chefe romano, cujo nome se fazia acompanhar de sombrias tradições, fora recebido pela Corte Provincial, ali desempenhando as elevadas fünções de legado de César, cercado de grande número de agentes políticos e militares e estabelecendo o terror entre todas as classes, com os seus processos infaman tes. Licínio Minúcio chegara ao poder, mobilizando todos os recursos da intriga e da calúnia. Conseguindo voltar a Corinto, onde estacionara anos antes, sem maior auto ridade, tudo ousava agora, por aumentar seus cabedais, fruto de avareza insaciável e sem esc rúpulos. Pretendia recolher-se, mais tarde, àqueles sítios, onde suas pro priedades particulares atingiam grandes proporções, es perando aí a noite da decrepitude. Assim, de maneira a consumar seus criminosos desígnios, iniciou largo mo vimento de arbitrárias expropriações, a pretexto de ga rantir a ordem pública em benefício do poderoso Império, que a sua autoridade representava. Numerosas famílias de origem judaica foram esco lhidas como vítimas preferenciais da nefanda extorsão. Por toda parte começavam a chorar os oprimidos; entretanto, quem ousaria o recurso das reclamações pú blicas e oficiais? A escravidão esperava sempre os que se entregassem a qualquer impulso de liberdade contra as expressões da tirania romana. E não era só a figura desprezível do odioso funcionário que constituía para a cidade uma angustiosa e permanente ameaça. Seus asseclas espalhavam-se em vários pontos das vias públicas, provocando cenas insuportáveis, características de uma perversidade inconsciente. A manhã ia alta, quando um homem idoso, dando a entender que buscava o mercado, pelo cesto que lhe pendia das mãos, atravessava a passos vagarosos uma praça ensolarada e extensa. Um grupo de tribunos alvejava -o com ditérios deprimentes, entre gargalhadas de ironia. O velhinho, que denunciava nos traços fisionômicos a linha israelita, demonstrava perceber o ridículo de que vinha sendo objeto; mas, distanciando se dos militares patrícios, como desejoso de resguardar -se, caminhou com mais timidez e humildade, desviando -se em silêncio. Foi nesse instante que um dos tribunos, em cujo olhar autoritário perpassava acentuada malícia, acercou -se dele, interrogando-o asperamente: — Olá, judeu desprezível, como ousas passar sem saudar os teus senhores? O interpelado estacou, pálido e trêmulo. Seus olhos revelaram estranha angústia que resumia, na sua elo qüência silenciosa, todos os martírios infinitos que flagelavam a sua raça. As mãos enrugadas lhe tremiam ligeiramente, enquanto o busto se arqueava reverente, premindo a longa barba encanecid a. — Teu nome? — tornou o oficial, entre desrespeitoso e irônico. — Jochedeb, filho de Jared — respondeu timidamente. — E por que não saudaste os tribunos imperiais? — Senhor, eu não ousei! — explicou quase lacrimoso. — Não ousaste? — perguntou o oficial com profunda aspereza. E, antes que o interpelado conseguisse oportunidade para mais amplas desculpas, o mandatário imperial as sentou-lhe os punhos cerrados no rosto venerável, em bofetões sucessivos e impiedosos. — Toma! Toma! — exclamava rudemente, ao estridor das gargalhadas dos companheiros presentes à cena, em tom festivo — guarda mais esta lembrança! Cão asqueroso, aprende a ser educado e agradecido!... O velhinho cambaleou, mas não reagiu. Percebia -se-lhe a surda revolta íntima, a traduzir-se no olhar chamejante, indignado, que lançou ao agressor com uma serenidade terrível. Num movimento espontâneo, olhou os braços encarquilhados na luta e no sofrimento, reconhe cendo a inutilidade de qualquer revide. Foi quando o verdugo inesperado, obser vando-lhe a calma silenciosa, pareceu medir a extensão da própria covardia e, colando as mãos na complicada armadura do cinto, voltou a dizer com profundo desdém: — Agora que recebeste a lição, podes procurar o mercado, judeu insolente! A vítima dirigiu-lhe, então, um olhar de ansiosa amargura, no qual transpareciam as dolorosas angústias em toda uma longa existência. Emoldurado na túnica singela e na velhice venerável, aureolada por cabelos branqueados nas mais penosas experiências da vida, o olhar do ofen dido semelhava-se a um dardo invisível que penetraria, para sempre, a consciência do agressor desrespeitoso e mau. No entanto, aquela dignidade ferida não se demorou muito na atitude de exprobração, intra duzível em palavras. Em breves instantes, suportando os ditérios da geral zombaria, prosseguiu no objetivo que o levara a sair à rua. O velho Jochedeb experimentava agora estranhas e amargas reflexões. Duas lágrimas quentes e doloridas sulcavam -lhe as rugas da face macilenta, perdendo-se nos fios grisalhos da barba veneranda. Que fizera para merecer tão pesados castigos? A cidade fora trabalhada pelos movimentos de rebeldia de numerosos escravos, mas seu pequeno lar prosseguia com a mesma paz dos que trabalham com dedicação e obediência a Deus. A humilhação experimentada fazia-o regressar, pela imaginação, aos períodos mais difíceis da história de sua raça. Por que motivo, e até quando sofreriam os israelitas a perseguição dos elementos mais poderosos do mundo? Qual a razão de serem sempre estigmatiza dos, como indignos e miseráveis, em todos os recantos da Terra? Entretanto, amavam sinceramente aquele Pai de justiça e amor, que velava dos Ceus pela grandeza da sua fé e pela eternidade dos seus destinos. Enquanto OS outros povos se entregavam ao relaxamento das forças espirituais, transformando esperanças sagradas em expressões de egoísmo e idolatria, Israel sustentava a lei do Deus único, esforçando-se, em todas as circunstâncias, por conservar intacto o seu patrimônio religioso, com sacrifício embora da su a independência política. Acabrunhado, O pobre velho meditava na própria sorte. Esposo dedicado, enviuvara quando aquele mesmo Licínio Minúcio, questor do Império, anos antes, instau rara nefandos processos em Corinto, a fim de punir alguns elementos de su a população descontente e rebe lada. Sua grande fortuna pessoal fora extremamente re duzida e houve de amargar uma prisão injusta, resultante de falsas acusações, que lhe valeram pesados dissabores e terríveis confiscos. Sua mulher não havia resistido aos sucessivos golpes que lhe feriram fatalmente o cora ção sensível, mergulhando -se na morte, ralada de acerbos desgostoS e deixando -lhe os dois filhinhos que constituíam a coroa de esperança da sua laboriosa existência. Jeziel e Abigail desenvolviam-se sob o carinho de seuS braços afetuosos e, por eles, no acúmulo dos sagrados deveres domésticos, sentia que a neve da estrada humana lhe alvejara precocemente os cabelos, consagrando a Deus as suas mais santas experiências. À mente lhe veio então, mais viva, a silhueta graciosa dos filhos. Era um leni tivo conhecer o sabor agradável das experiências do mundo, a benefício deles. O tesouro filial compensava -o das flagelações em cada acidente do caminho. A evoca ção do lar, onde o amor carinhoso dos filhos alimenta va as esperanças paternas, suavizou -lhe as amarguras. Que importava a brutalidade do romano conquista dor, quando sua velhice se aureolava dos mais santos afetos do coração? Experimentando resignado consolo, chegou ao mercado, onde se abasteceu do que nece søitava.
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Capítulo 1
Nome do Capítulo Corações flagelados
Parte Primeira Parte