Em Roma, de tempos a tempos, todos os israelitas sofrem vexames e confiscos, perseguição e morte. Mas, certamente, meu pai, Deus permite que assim aconteça para que Israel reconheça, nos sofrimentos mais atrozes, a sua missão divina. O velho israelita parecia medit ar as ponderações do filho; contudo, acrescentou resoluto: — Sim, tudo isso é verdade, mas a justiça reta deve ser cumprida, ceitil por ceitil, e nada poderá demover -me. — Então, ireis reclamar, amanhã, perante o legado? — Sim! Nesse momento, o olhar do jo vem demorou na velha mesa onde repousava a coleção dos Escritos Sagrados da família. Animado por súbita inspiraçãO, Jeziel lembrou humildemente: — Pai, não tenho o direito de exortar -vos, mas vejamos o que nos suscita a palavra de Deus a respeito do que pe nsais neste momento. E abrindo os textos ao acaso, conforme o costume da época, a fim de conhecer a sugestão que lhes pudes sem facultar as sagradas letras, leu na parte dos Provérbios: — “Filho meu, não rejeites o corretivo do Senhor, nem te enojes de su a repreensão; porque Deus repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem”. (1) O velho israelita abriu os olhos espantados, reve lando a estupefação que a mensagem indireta lhe causa va; e como Jeziel o fixasse longamente, demonstrando ansioso interesse por conhecer -lhe a atitude íntima, em face da sugestão dos pergaminhos sagrados, acentuou: — Recebo a advertência dos Escritos, meu filho, mas não me conformo com a injustiça e, segundo tenho resolvido, levarei minha queixa às autoridades competentes. O rapaz suspirou e disse resignado: — Que Deus nos proteja!... No dia seguinte, avolumava -se compacta multidão junto ao templo da Vênus popular. Do antigo casarão onde funcionava um tribunal improvisado, viam-se as luxuosas e extravagan tes viaturas que cruzavam a gran de praça em todas as direções. Eram patrícios que se dirigiam às audiências da Corte Provinciana, ou antigos proprietários da fortuna particular de Corinto, que se entregavam aos entretenimentos do dia, à custa do suor dos misérrimos cativos. Desusado movimento caracte rizava o local, observando -se, de vez em quando, os oficiais embriagados que deixavam o ambiente viciado do templo da famosa deusa, entupido de capitosos perfumes e condenáveis prazeres. Jochedeb atravessou a praça, sem se deter para fixar qualquer detalhe da multidão que o rodeava e penetrou no recinto, onde Licínio Minúcio, cercado de muitos auxiliares e soldados, expedia numerosas ordens. Os que se atreveram à queixa pública excediam tão -somente de uma centena e, depois de prestarem declara ções individuais, sob o olhar percuciente do legado, eram (1) Provérbios, capítulo 3º, versículos 11 e 12. um por um conduzidos para a solução isolada do assunto que lhes dizia respeito. Chegada a sua vez, o velho isr aelita expôs suas reclamações particulares, atinentes às indébitas expro priações do passado e aos insultos de que fora vítima na véspera, enquanto o orgulhoso patrício lhe anotava as menores palavras e atitudes, do alto de sua cátedra, como quem já conhec ia, de longo tempo, a personagem em causa. Conduzido novamente ao interior, Jochedeb esperou, como os demais, a solução dos seus pedidos de reparação à Justiça; mas aos poucos, enquanto outros eram convocados nominalmente ao acerto das contas com o Governo provincial, reparava que o antigo casarão se envolvia em grande silêncio, percebendo que sua vez, pos sivelmente, fora adiada por circunstâncias que não podia presumir. Instado nominalmente a dirigir -se ao juiz, ouviu, grandemente surpreendido, a sentença negativa, lida por um oficial que desempenhava as atribuições de secretário daquela alçada. — O legado imperial, em nome de César, resolve ordenar o confisco da suposta propriedade de Jochedeb ben Jared, concedendo -lhe três dias para desocupar as terras que ocupa indebitamente, visto pertencerem, com fundamento legal, ao questor Licinio Minúcio, habilitado a provar, a qualquer tempo, seus direitos de propriedade. A decisão inesperada causou intensa comoção ao ve lho israelita, a cuja sensibilidade aquelas palavras levaram um efeito de morte. Nem saberia definir a angustiosa surpresa. Não confiara na Justiça e não estava à procura de sua ação reparadora? Queria gritar o seu ódio, mani festar suas pungentes desilusões; mas a língua estava como que petrificad a na boca retraída e trêmula. Após um minuto de profunda ansiedade, fixou no alto a figura detestada do antigo patrício, que lhe causava, agora, a derradeira ruína, e, envolvendo-o na vibração colérica da alma revoltada e sofredora, encontrou energias para dizer: — Ó ilustríssimo questor, onde está a eqüidade das vossas sentenças? Venho até aqui implorando a interven ção da Justiça e me retribuís a confiança com mais uma extorsão que me aniquilará a existência? No passado, sofri a desapropriação descabida d e todos os meus bens territoriais, conservando com enormes sacrifícios a chá cara humilde, onde pretendo esperar a morte!... Será crivel que vós, dono de opulentos latifúndios, não sintais remorso? Era subtrair ao mísero velho a derradeira côdea de pão? O orgulhoso romano, sem um gesto que denotasse a mais leve emoção, retrucou secamente: — Ponha-se na rua; e que ninguém discuta as deci sões imperiais! — Não discutir? — clamou Jochedeb já desvairado. — Não poderei altear a voz amaldiçoando a memória d os criminosos romanos que me espoliaram? Onde colo careis vossas mãos, envenenadas com o sangue das vítimas e as lágrimas das viúvas e dos órfãos esbulha dos, quando soar a hora do julgamento no Tribunal de Deus?... Mas, recordando subitamente o lar povoa do pela ternura dos filhos amorosos, modificou a atitude mental, sensibilizado nas fibras recônditas do ser. Prostrando-se, de joelhos, em convulsivo pranto, exclamou comovedora mente: — Tende piedade de mim, Ilustríssimo!... Poupai -me a vivenda modesta, onde, acima de tudo, sou pai... Meus filhos esperam -me com o beijo da sua afeição sincera e desvelada!... E acrescentava, afogado em lágrimas: — Tenho dois filhos que são duas esperanças do coração. Poupai -me, por Deus! Prometo conformar -me com esse pouco, nunca mais reclamarei!... Entretanto, o legado impassível respondeu com frie za, dirigindo-se a um soldado: — Espártaco, para que esse judeu impertinente se afaste do recinto, com as suas lamentações, dez bas tonadas. O preposto formalizou-se para cumprir imediatamente a ordem, mas o juiz implacável acrescentou: — Tenha cuidado em não lhe cortar o rosto, para que o sangue não escandalize os transeuntes. De joelhos, o pobre Jochedeb suportou o castigo e, terminada a prova, levantou-se, cambaleante, alcançando a praça ensolarada, sob as risotas disfarçadas de quantos haviam presenciado o ignóbil espetáculo. Nunca, em sua vida, experimentara tão intenso desespero como naquela hora. Quereria chorar e tinha os olhos frios e secos, lamentar a desdita ime nsa e os lábios estavam petrificados de revolta e dor. Parecia um sonâmbulo vagando inconsciente entre as viaturas e os transeuntes que se aglomeravam na praça enorme. Contemplou com extrema e íntima repugnância o templo de Vênus. Desejava ter voz estentó rica e poderosa para humilhar todos os cir cunstantes com a palavra da condenação. Observando as cortesãs coroadas que o encontravam, as armaduras dos tribunos romanos e a ociosa atitude dos afortunados que passavam despercebidos do seu martírio, molemente recostados nas liteiras vistosas da época — sentiu-se como que mergulhado num dos pântanos mais odiosos do mundo, entre os pecados que os profetas da sua raça jamais se cansaram de profligar, com todas as veras do coração consagrado ao Todo -Poderoso. Corinto, a seus olhos, era uma nova edição da Babilônia condenada e desprezível. De súbito, apesar dos tormentos que lhe perturba vam a alma exausta, recordou novamente os filhos queridos, sentindo, por antecipação, a profunda amargura que a notícia da sentenç a lhes causaria ao espírito sen sível e afetuoso. A lembrança da ternura de Jeziel enter necia-lhe o peito galvanizado no sofrimento. Teve a impressão de vê -lo ainda a seus pés, suplicando desistisse de qualquer reclamação e, aos ouvidos, ecoava -lhe agora, com mais intensidade, a exortação dos Escritos: — “Filho meu, não rejeites a repreensão do Senhor!” Mas, ao mesmo tempo, idéias destruidoras invadiam -lhe o cérebro cansado e dolorido. A Lei sagrada estava cheia de símbolos de justiça. E, para ele, impunha-se como dever soberano providenciar a reparação que lhe parecia conveniente. Agora, em desolação suprema, regressava ao lar, despojado de tudo que possuía de mais humilde e mais simples, e já no fim da vida! Como lhe viria o pão de amanhã? Sem elemento s de trabalho e sem teto, via -se constrangido a peregrinar em situação parasitária, ao lado da juventude dos filhos. Inenarrável martírio moral sufocava -lhe o coração. Dominado por acerbos pensamentos, aproximou -se do sítio bem-amado, onde edificara o ninho familiar. O sol quente da tarde fazia mais doce a sombra das árvores, de ramarias verdes e abundantes. Jochedeb avançou no terreno, que era propriedade sua, e, angustiado pela pers pectiva de abandoná-lo para sempre, deu ensejo a que terríveis tentações lhe desvairassem a mente. As terras de Licínio não se limitavam com a chácara? Afastan do-se do caminho que o levava ao ambiente doméstico, penetrou nos matagais próximos e, depois de alguns passos, demorou o olhar na linha de demarcação, entre ele e o seu verdugo. As pastagens do outro lado não pareciam bem cuidadas. A falta de melhor distribuição da água comum, certa secura geral fazia -se sentir asperamente. Apenas algumas árvores, isoladas, ameniza vam a paisagem com a sua sombra, refrescando a região a bandonada, entre espinheiros e parasitas que sufocavam as ervas úteis. Obcecado pela idéia de reparação e vingança, o ve lho israelita deliberou incendiar as pastagens próximas.