XVI
Por isto é que tanto insistem os espíritos no cultivo da mente do médium. Se já é bem difícil a uma mente bem-arrumada e rica em informação, converter seu próprio pensamento em palavra, falada ou escrita, imagine-se a dificuldade encontrada por aquele que precisa converter em palavras o pensamento alheio e, ainda mais, sem estar devidamente preparado para isso em virtude de sua própria insuficiência de conhecimentos. Informam os espíritos a Kardec: "Efetivamente quando somos obrigados a servir-nos de médiuns adiantados, muito mais longo e penoso se torna o nosso trabalho, porque nos vemos forçados a lançar mão de formas incompletas, o que é para nós uma complicação, pois somos constrangidos a decompor nossos pensamentos e a ditar palavra por palava, letra por letra, constituindo isso uma fadiga e aborrecimento, assim como um entrave real à presteza e ao desenvolvimento das nossas manifestações". (Kardec. Allan. 1975). O leitor já pensou em ditar um texto em inglês, por exemplo, a uma pessoa inculta, que mal fale o português e que, ainda por cima, seja analfabeta? Ou tocar uma sinfonia devidamente orquestrada para cem instrumentos através de uma "gaita de dez centavos", como dizem os espíritos? Ao contrário, quando o médium oferece boas condições, "o nosso perispírito, atuando sobre o daquele a quem mediunizamos, nada mais tem que fazer senão impulsionar a mão que nos serve de lapiseira ou caneta". Mesmo nesse caso, contudo, os espíritos precisam do cérebro do médium; do contrário não conseguiriam movimentar a sua mão e nem fazê-lo expressar, na língua que lhe é própria, o pensamento que é deles. Isso ficou bem claro num incidente de aparência irrelevante que Kardec registra numa pequena nota em O livro dos médiuns. Era sua intenção classificar o fenômeno de escrita direta entre os de ordem intelectual. Contra a sua opinião, porém, - e ele o confessa honestamente - a escrita direta ficou classificada como fenômeno de efeito físico, porque disseram os instrutores: "Os efeitos inteligentes são aqueles para cuja produção o espírito se serve dos materiais existentes no cérebro do médium, o que não se dá na escrita direta. A ação do médium é aqui toda material, ao passo que no médium escrevente (psicógrafo), ainda que completamente mecânico, o cérebro desempenha sempre um papel ativo". (Idem). Com sua austeridade e franqueza habituais, os espíritos não hesitam em descrever, com realismo, aquilo que observam e transmitir, com objetividade, o que desejam ensinar. É de notar-se, ainda, 'en passant', que o núcleo mesmo de O livro dos médiuns, ou seja, o seu capítulo XIX - "Os médiuns nas comunicações espíritas" - foi elaborado à base de ensinamentos de dois competentes, lúcidos e experimentados técnicos da espiritualidade, ou seja, Erasto e Sócrates. Em uma das comunicações, Timóteo assina juntamente com Erasto. Pois bem, quando se trata de enfatizar a importância de uma mente bem arrumada e bem-provida de informações que resulte em facilidade para a comunicação, os espíritos escrevem isto: "... como já te dissemos em instrução anterior, o nosso cérebro está freqüentemente em inextricável desordem e, não só difícil, como também penoso, se nos torna mover- nos no dédalo dos vossos pensamentos". (Idem). Para concluir, Erasto e Timóteo ensinaram que: "... os espíritos não precisam vestir seus pensamentos; eles o percebem e transmitem, reciprocamente, pelo só fato de os pensamentos existirem neles. Os seres corpóreos, ao contrário, só podem perceber os pensamentos quando revestidos. Enquanto que a letra, a palavra, o substantivo, o verbo, a frase, em suma, vos são necessários para perceberdes, mesmo mentalmente, as idéias, nenhuma forma visível ou tangível nos é necessária a nós". (Idem). Boddington, de certa forma e com outras palavras, reitera essa observação ao declarar que: "... os espíritos afirmam consistentemente que é mais fácil para eles utilizarem-se das próprias palavras e expressões do médium do que despejarem sobre ele idéias completamente novas". (Boddington, Harry, 1949.) Ao sentar-se diante de uma máquina com a qual possa escrever um texto, o datilógrafo tem de aceitá-la no estado em que se encontra e ficar sujeito ao seu ritmo, ao esforço que ela exige para movimentar as teclas, bem como ao tipo de letra que ela imprime sobre o papel. Como iria ele escrever em caracteres tipo paica, se a máquina só dispõe de letras tipo elite, por exemplo? Ou escrever em preto, se a única fita de que dispõe é embebida em tinta vermelha? Se o teclado estiver na ordem habitual (asdfg,qwert etc.), ainda bem, mas e se as letras estiverem distribuídas em outro arranjo, ou melhor, desarranjo, conforme se queixam os espíritos? Em suma: no sistema que produz a comunicação mediúnica, desde a mente do espírito comunicante até o conhecimento do destinatário encarnado, o elo fraco da corrente é o médium. Quanto melhor for ele, mais seguro o sistema e, em conseqüência, o processo. Quanto menos apto e menos preparado ele, mais precária a comunicação, por melhor que se o esforço penoso dos espíritos em torná-la inteligível e coerente. Mediunidade não é, pois, tarefa que se deva assumir sem um inequívoco senso de responsabilidade. O médium desleixado, indiferente, preguiçoso, leviano, mercenário, egoísta, de má-fé, como consta da classificação proposta por Kardec, está na verdade recusando grave responsabilidade, para transferi-la, aumentadas quando de futuro lhe for cobrada sua atitude de irresponsabilidade. Por mais paradoxal que pareça, uma das mais graves responsabilidades na vida é precisamente a da irresponsabilidade. 6. Os CÓDIGOS Pelas especulações precedentes - e elas mal arranham a superfície do problema - podemos inferir como são complexos os mecanismos da comunicação mediúnica. Não é justo, contudo, atirar toda a carga às costas da mediunidade, pois a comunicação em geral é problema complexo mesmo. Muitas vezes, ficamos literalmente bloqueados, sem saber expressar uma idéia que em nossa mente parece tão clara e óbvia sempre nos conseguimos fazer entender falando ou escrevendo a alguém, e de outras vezes, não entendemos a pessoa que deseja aflitivamente explicar-nos alguma coisa que lhe parece tão evidente por si mesma. E isso quando falamos a mesma língua, vivemos no mesmo contexto histórico, geográfico, político, social, cultural etc . Imagine-se a dificuldade se os contextos são diferentes, no tempo e no espaço, na língua e nos costumes. Conta Gina Cerminara, no seu brilhante livro Insights for the Age of Aquarius, algumas curiosidades acerca da tradução da Bíblia nas inúmeras línguas e dialetos do mundo. Por exemplo: na língua falada pelos Índios da tribo Misketo, na Nicarágua, não há a palavra perdão, que também não existe entre os esquimós do Labrador. Para os Índios da América Central, perdão tornou-se: "tirar de nossos corações os erros do homem", enquanto que para os esquimós, perdão ficou sendo "ser capaz de não pensar mais nisso ... " Aliás, ela começa o capítulo 23 de seu livro com a frase de Shakespeare: "To be or not to be. That is the question". A famosa fala de Hamlet foi traduzida do inglês para o francês, em seguida para o alemão e depois para o italiano e, finalmente, retraduzida para o inglês. Só nesse pequeno giro através de três línguas modernas e ricas, a frase voltou irreconhecÍvel: "Is it or isn't? That's it". Ou seja: "É ou não é? É isso!" Um verdadeiro horror. E isto com uma idéia já posta em palavras, ou seja, que não depende mais da interpretação do pensamento. Se Shakespeare, como espírito, desejasse transmitir a algum médium conceito semelhante, como seria o seu pensamento interpretado? Talvez algo como isto: o grande problema é saber se vale ou não vale a pena viver. Ou então: será que eu existo mesmo, ou sou apenas um louco que pensa ser Hamlet? Ou ainda: eu existo porque penso ou penso porque existo? Costumo dizer (e escrever) que muitos e importantes ramos do conhecimento humano estão à espera da contribuição vital e decisiva da realidade espiritual para saírem de seus impasses e de suas perplexidades. Isto é válido para a totalidade das ciências que, de alguma forma, cuidam do ser humano direta ou indiretamente desde a psicologia até à economia e à política. As técnicas de comunicação estão incluídas aí. Começa que o mecanismo da comunicação exige nítida distinção entre individualidade (espírito) e personalidade (ser encarnado). Como já vimos, o espírito não fala nem escreve nesta ou naquela língua, ele apenas pensa. Se o leitor experimenta alguma dificuldade em aceitar isso como válido, basta dar uma parada e prestar atenção em si mesmo. Se você está pensando em comprar um livro, fazer uma viagem ou escrever um artigo, você não vai pensar palavra por palavra sobre cada passo que tiver de dar. Assim: - Amanhã, na hora do almoço, na cidade, vou entrar numa livraria, na avenida, procurar um vendedor e pedir a ele tal ou qual livro. Se ele tiver o livro, eu lhe pergunto o preço. Se for até tantos cruuzeiros, fico com ele, mando-o embrulhar, pago, recebo o troco e saio. Nada disso ocorre, a não ser que você esteja se preparando para as frases que vai dizer aos pais da moça com a qual você pretende se casar, ou pensando em como vai abordar o seu chefe para pedir um aumento de salário. Nesses casos, costumamos ensaiar algumas expressões - o que raramente dá certo, aliás, porque, na hora mesmo, sai tudo diferente. O certo é que toda a decisão de comprar um livro ou pedir aumento é formulada num impulso; é simplesmente pensada num nível onde a palavra não aparece, porque não se faz necessária. No caso em que você pensa sem palavras, é o seu espírito que está em pleno comando, e ele não precisa de nenhuma língua para falar consigo mesmo. E se fosse o caso, qual delas escolheria, diante de tantas que já falou a sua personalidade em outras quantas vidas?
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Nome do Capítulo Semiologia da comunicação