XVI
Sempre que você quer comunicar-se com outra pessoa, contudo, já precisa da palavra ou de algum outro símbolo que tenha para essa pessoa o mesmo significado que tem para você. Em outras palavras, esse símbolo tem de ser comum a ambos. Daí o termo comunicar, ou seja, tornar comum. A palavra é, portanto, um código de comunicação, um símbolo uma convenção. Ficou acertado, por exemplo, que juntando quatro letras P - A - T - O temos, em português, a representação escrita de um palmípede que suscita ou não em nossa mente a imagem correspondente. É como um dicionário. Para traduzir na nossa Linguagem comum a imagem pensada, temos a palavra pato. Já se você for falar com um inglês, ou americano, a palavra pato não serve para suscitar a mesma imagem ou por outra, não corresponde à imagem do palmípede que tanto o brasileiro, como o inglês e o chinês, têm em mente. A imagem é sempre, mesma, em toda parte onde o bicho seja conhecido, qualquer que seja símbolo gráfico ou falado que tenha sido convencionado para representá-lo. Por isso, a escrita começou com os pictogramas. Observe a ilustração abaixo. Era assim que se expressava quem desejava dizer que saiu de barco, passou três dias caçando com quatro companheiros e caçou cinco patos. Aí estão: a canoa, os quatro homens, os cinco patos, e os três dias expressos em três sóis cruzando o céu. Simples. não é? As coisas se complicaram quando se passou ao uso de símbolos, ou seja, uma segunda gravação de símbolos. E isso só foi possível depois de inúmeras e complexas convenções, como a de modularizar os sons a fim de poder reconhecê-los, Por exemplo, um pauzinho com a barriga para a esquerda é um d, se a barriga estiver para a direita é um b; se estiver em cima, é um p, se forem duas barrigas, é um B maiúsculo, e assim por diante, Se você tiver de mencionar um pato numa conversa ou numa carta com alguém inglesa, terá de utilizar os termos duck (ou drake, se quiser ser mais preciso, caso se trate de um pato macho). Isto significa que você tem de transformar a imagem de um pato na palavra correspondente e depois vertê-la para a língua que você desejar, senão o norte-americano ou o inglês não irão entender o que você quer dizer. Observamos, portanto, que temos de usar um código bastante complicado a fim de nos entendermos pelo mundo afora. O ideal seria (digamos será), quando o sonho do ilustre e respeitado dr. Zamenhof tornar-se realidade. Então o nosso código de comunicação será um só - o esperanto. Enquanto isso não acontece, temos de aprender, penosamente, um por um, e somos considerados verdadeiros gênios quando sabemos manipular, com relativa segurança, oito ou dez desses códigos. Mas que é isso ante os milhares que existem por aí, vivos e mortos, línguas e dialetos? Não é de se admirar que seja tão confusa a humanidade, pois não consegue se entender adequadamente 7. MECANISMOS DE CONVERSÃO Cada vez que precisamos comunicar nosso pensamento a alguém, temos de confrontar nossos códigos a fim de nos entendermos razoavelmente. E isso ocorre até quando falamos a mesma língua, dado que, raramente, dois códigos são exatamente iguais. A dificuldade aumenta quando, por exemplo. A fala português, B fala alemão e procuram entender-se em inglês. Quando iniciamos o estudo de uma língua estrangeira, temos necessidaade de traduzir para a nossa cada palavra lida ou ouvida, do contrário ficaremos sem entender o que estamos lendo ou escutando. Só com bom desenvolvimento posterior teremos condições de ler ou ouvir diretamente, sem recorrer à tradução. Ficamos, assim, com um código adicional à nossa disposição, de modo a receber informações naquela língua sobressalente. Para recorrer a um dos nossos esquemas habituais - ou códigos - vamos em busca de socorro na eletrônica. Conforme ficou dito em A memória e o tempo, o espírito recebe ao renascer um cassete virgem, novinho em folha, onde vai gravar as experiências que tiver no decorrer da nova existência que se inicia. Embora memórias de todas as existências anteriores continuem preservadas no seu inconsciente, ele renasce sem lembranças anteriores. Por isso, na fase infantil, ele se deixa guiar docilmente pelos instintos, e, embora como espírito tenha consciência de tudo, não consegue expressá-la através do novo corpo ao qual acaba de ligar-se. Desde os primeiros momentos, contudo, todas as experiências vividas vão sendo gravadas, aliás, em video-teipe, como se pode comprovar com os fenômenos de replay que costumam ocorrer nas proximidades da morte ou em face de algum perigo em que a morte seja bem provável ou iminente. No fim de alguns anos de gravação, o cassete já dispõe de elementos suficientes para possibilitar ao novo ser reencarnado o mínimo necessário de condições de vida. Ele já sabe falar mais ou menos a língua que seus pais falam e, com alguns anos mais, terá condições de escrevê-la também e ler o que nela estiver escrito. Ampliando o seu aprendizado, terá posteriormente o seu cassete todo programado para aquela existência, não apenas com a linguagem com a qual ele pode se comunicar com os que o cercam, mas com hábitos e costumes em que foi treinado. Por isso, se alguém se aproxima para transmitir-lhe alguma informação, tem de usar cassete idêntico ou muito parecido com o seu, onde as palavras e imagens tenham o mesmo significado. Nem ele irá entender alguém com um cassete diferente (alemão x português, por exemplo), nem terá condições de captar o pensamento puro, onde imagens e conceitos são idênticos. É nesse sentido que dizíamos há pouco que o aprendizado de uma língua adicional representa a criação de um cassete sobressalente que nos serve para a comunicação com pessoas que usualmente estariam fora do alcance da nossa compreensão. Seja como for, porém, a personalidade (isto é, a pessoa encarnada) fica programada dentro de certas limitações que paradoxalmente lhe são necessárias, indispensáveis mesmo, ao seu intercâmbio com outras pessoas também encarnadas. No nível da individualidade, porém, continuam livres tais limitações e podem entender-se pelo pensamento, sem necessidade de palavras. Na intimidade do ser, ainda é possível perceber um ou outro informe vindo da individualidade para a personalidade por via intuitiva ou pelo sonho; mas de uma personalidade para outra recorre-se à comunicação codificada, num confronto de cassetes, ainda que seja também possível a comunicação telepática, ou seja, mente a mente. O sonho, aliás, é veículo constante de mensagens da individualidade para a personalidade e, como em qualquer outro mecanismo de comunicação, a estrutura e a dinâmica do processo são idênticas às da mediunidade, de vez que também se trata de converter pensamentos em imagens, símbolos ou palavras. Em seu já citado livro, Insights for the Age of Aquarius Gina Cerminara lembra um exemplo ilustrativo não apenas do trabalho intelectual realizado enquanto o corpo repousa, mas dos recursos de que se utiliza a mente para converter em símbolos inteligíveis ao ser encarnado pensamentos não formulados em palavras, ou seja, como faz a mente para 'vestir' o pensamento de forma a torná-lo perceptível. (Isto me faz lembrar uma antiga versão cinematográfica de O homem invisível, baseado numa história de R.G. Wells. O "homem invisível" somente aparecia quando 'vestido', ou melhor, o que aparecia mesmo era a roupa dele. Numa das cenas ele vai desaparecendo, enquanto se desembaraça de uma espécie de gaze enrolada em torno da cabeça e cobrindo todo o rosto. Li posteriormente uma explicação de como foi filmada a cena. Pintaram-lhe o rosto de negro, enfaixaram-no com a gaze e depois filmaram a cena contra um background totalmente negro. À medida que ele desenrolava a gaze, o rosto como que sumia contra o fundo negro, o que causava a ilusão de que ele desaparecia. Em suma: ele só se fazia visível quando enfaixado e vestido, tal como o pensamento, que precisa se converter em símbolos ou códigos, quando não pode ser transmitido em seu estado puro, de mente a mente). A dra. Cerminara conta que o inventor da máquina de costura Singer, mundialmente conhecida, estava tendo dificuldades com a agulha. Tudo o mais funcionava satisfatoriamente, mas o ponto da costura, problema fundamental a todo o processo, era ainda inadequado. Certa noite, ele sonhou com uma tropa apresentando armas e notou que as pontas das baionetas eram furadas ! Ao despertar, sabia como fazer suas agulhas: era só colocar o furo bem junto da extremidade inferior. E por que não sonhou logo com a agulha furada na ponta? Podemos perguntar. Não sei que resposta teria o leitor. De minha parte, acho que agulha furada na ponta era um dado de que ele ainda não dispunha na sua memória e, segundo nos ensinaram os espíritos, o pensamento utiliza para expressar-se o 'material' guardado na memória. Por isso, são, às vezes, tão confusas as imagens do sonho, precisamente por estarem a expressar, em símbolos, pensamentos meramente formulados (ou aventuras) numa dimensão em que os nossos conceitos habituais são inadequados, para dizer o mínimo. Robert Monroe, em seu livro 'Journeys out of the body', conta episódio semelhante ao citado pela dra. Cerminara. Em julho de 1959, ele sonhou que voava em um avião que passou por baixo de fios telegráficos ou telefônicos e caiu pouco adiante, espatifando-se contra o solo. Somente ele conseguira sobreviver ao desastre. Dentro de três semanas, ele teve de fazer uma viagem ao estado de Carolina do Norte e reconheceu os passageiros, que já vira no seu sonho ou vidência. Mesmo assim, resolveu seguir viagem. A certa altura, o aparelho começou a enfrentar turbulências provocadas pelo mau tempo e Monroe achou que a tempestade aparecera no sonho simbolizada pelos fios. Mas não houve nada de grave; chegaram todos sãos e salvos ao destino. Quatro dias depois, Monroe teve um ataque cardíaco, em conseqüência do qual passou vários meses hospitalizado.
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