2ª Parte - Cap. 2: O tecelão
Se fosse possível, exerceria a profissão aqui mesmo, em Palmira... Falava hesitante, deixando perceber ao venerável amigo a vergonha que experimentava com o fazer -lhe essa confissão. — Como não? — obtemperou Gamaliel solícito - considero que as dificuldades da volta não seriam pe quenas. Entretanto, não incluo nos obstáculos os problemas do dinheiro, porque, de qualquer forma, podería mos obtê-lo para as despesas mais urgentes. Refiro -me simplesmente aos perigos da situação que passou. Acho justo que regresses a Jerusalém ou a Tarso, plenamente integrado nos teus novos deveres. Toda planta é frágil quando começa a crescer. As tricas do farisaísmo, a falsa ciência dos doutores, as vaidades familiares poderiam abafar a semente gloriosa que Jesus te lançou no coração ardente, O rebento mais promissor não se desen volverá se o cobrirmos de detritos e lama. Ë bom que voltes ao berço, aos nossos companheiros e à família, como árvore frondejante, honrando a dedicação do Divino Cultivador. — Mas que fazer? — tornou Saulo preocupado. O antigo mestre refletiu um instante e esclareceu: — Sabes que as zonas do deserto são grandes mer cados dos artigos de couro, O serviço de transporte. depende inteiramente dos tecelões mais hábeis e dedicados. Assim o compreendendo, meu irmão estabeleceu diversas tendas de trabalho nos oásis mais distantes, para atender às necessidades do seu comércio. Conversarei com Ezequias a teu respeito. Não direi que se trata de um grande chefe de Jerusalém, que pretende exilar -se por algum tempo, não pelo receio de envergo nhar teu nome ou tua origem, mas por julgar útil que proves a humildade e a solidão no teu novo caminho. As considerações convencionais poderiam perturbar -te, agora que necessitas exterminar o “homem velho” a golpes de sacrifício e disciplina. — Compreendo e obedeço em meu próprio benefício murmurou Saulo com atenção. — Aliás, Jesus exemplificou tudo isso, permane cendo em nosso meio, sem que o percebêssemos. O moço tarsense pôs-se a meditar na elevação dos alvitres recebidos. Iniciaria uma existência nova. To maria o tear com humildade. Alegrava -se, ao recordar que o Mestre não desdenhara, por sua vez, o banco de carpinteiro. O deserto lhe proporcionaria consolação, tr abalho, silêncio. Ganharia não mais o dinheiro fácil da admiração indevida, mas os recursos necessários à existência, com o subido valor dos obstáculos vencidos. Gamaliel tinha razão. Não era lícito rogar o favor dos homens quando Deus lhe havia feito o ma ior de todos os favores, iluminando-lhe a consciência para sempre. É verdade que em Jerusalém havia sido cruel verdugo, mas contava apenas trinta anos. Buscaria reconciliar-se com todos a quem havia ofendido no seu rigorismo sectário. Sentia-se jovem, trabalharia para Jesus enquanto lhe restassem energias. A palavra carinhosa do ancião veio arrancá -lo das profundas cismas. — Tens o Evangelho? — perguntou o velhinho com bondoso interesse. Saulo mostrou-lhe a parte fragmentária que trazia, explicando -lhe o trabalho que teve, em Damasco, para copiá -la dos manuscritos do generoso pregador que lhe curara a cegueira repentina. Gamaliel examinou -a com atenção e, depois de concentrar-se longo tempo, acrescentou: — Tenho uma cópia integral das anotações de Levi, cobr ador de impostos em Cafarnaum, que se fez Após tolo do Messias — lembrança generosa de Simão Pedro à minha pobre amizade: presentemente não necessito mais desses pergaminhos, que considero sagrados. Para gravar na memória as lições do Mestre, procurei copi ar todos os ensinos, fixando -os na retentiva, para sempre. Já possuo três exemplares completos do Evangelho, sem a cooperação de escriba algum. Desse modo, por con siderar a dádiva de Pedro como santificada relíquia de nobre afeição, quero depô -la em tuas mãos. Levarás contigo as páginas escritas na igreja do “Caminho”, como fiéis companheiras do teu novo trabalho. O ex-rabino escutava-lhe as declarações afetuosaS, tomado de profunda emoção. — Mas, por que desfazer-vos de uma lembrança cari nhosa, por minha causa? — perguntou sensibilizado. —Ficaria muito contente com uma das cópias feitas por vossas mãos!... O velho mestre fixou o olhar tranqüilo na paisagem e murmurou com voz profética: — Cheguei ao fim da carreira, devo esperar a morte do corpo. Se hei d e abandonar a dádiva de Pedro a pes soas que lhe não podem reconhecer o valor que lhe atribuímos, é justo entregá -la a um amigo fiel, que pode ajuizar do seu caráter sagrado. Além disso, tenho a convicção de que não mais poderei voltar a Jerusalém; neste mundo, não me será possível qualquer entendi mento direto com os Apóstolos galileus, a respeito das luzes que o Salvador derramou em meu espírito. E temo que os adeptos de Jesus te não possam compreender de pronto, quando regressares à cidade santa. Terás, então, esta lembrança para te apresentares a Pedro em meu nome. Aquele tom profético impressionava o moço tarsense, que baixou a cabeça, de olhos úmidos. Depois de longo intervalo, como que procurando recompor as idéias com perfeita sabedoria, Gamaliel con tinuava solícito: — Vejo-te, no futuro, dedicado a Jesus, com o mes mo zelo ardente com que te conheci consagrado a Moisés! Se o Mestre te chamou ao serviço é porque confia na tua compreensão de servo fiel. Quando o esforço das mãos te haja granjeado a liberdade para escolheres o novo caminho a seguir, Deus há de abençoar-te o coração, para difundires a luz do Evangelho entre os homens, até ao último dia de vida aqui na Terra. Nesse labor, meu filho, se topares incompreensão e luta em Jerusalém, não deses peres nem esmoreças. Semeaste por lá certa confusão nos espíritos, é justo recolhas os resultados. Em toda tarefa, porém, lembra -te do Cristo e passa adiante com o teu esforço sincero. Não te perturbem as desconfianças, a calúnia e a má -fé, atento a que Jesus venceu galhardamente tudo isso!... Saulo sentia profundo descanso naquela exortação amorosa, terna, leal. Ouvindo-a, deixou-se ficar, longo tempo, entre lágrimas ardentes que testemunhavam o arrependimento do passado e as esperanças do futuro. Naquela tarde, Gamaliel deixou a rústica choupana, dirigindo -se com o exdiscípulo à casa do irmão, que acolheu, desde então, o jovem tarsense sob o seu teto, com indisfarçável contentamento. A inteligência fulgurante e a juventude comunica tiva do ex-doutor da Lei conquistaram Ezequias e os seus, numa bela expressão de amizade espontânea. Nessa mesma noite, concluídas as cerimônias do mésticas da última colação habitual, o velho rabino de Jerusalém expôs ao negociante a situação do seu protegido. Explicou-lhe que Saulo fora seu discípulo, desde menino, exaltando-lhe o valor pessoal e concluindo com a exposição de suas necessidades econômicas, verdadei ramente críticas. E diante do próprio interessado, que acentuava sua admiração por aquele velhinho sábio e generoso, esclareceu que ele tencionava trabalhar como tecelão nas tendas do deserto, rogando a Ezequias auxiliasse, com sua bondade, tão nobres aspirações de trabalho e esforço próprios. O comerciante de Palmira admirou -se. — Mas o rapaz, de modo algum — advertiu atencioso — necessitará insular-se para ganhar a vida. Tenho meios de localizá -lo aqui mesmo, na cidade, onde ficará em contacto permanente conosco. — Entretanto, preferiria vosso amparo generoso lá no deserto — acentuou Saulo em tom significativo. — Por quê? — indagou Ezequias interessado — não compreendo mocidades como a tua exiladas nos esten dais de areia intermináveis. Os imigrantes do êxodo de Jerusalém, na condição de solteiros, não toleraram os elementos que lhes ofereci nos oásis distantes. Apenas alguns casais aceitaram as propostas e partiram. Quanto a ti, com os teus dotes intelectuais, não compreendo como preferes ser tecelão humilde, segregado de todos... Gamaliel compreendeu que a estranheza do irmão poderia levá -lo a suposições errôneas, acerca do jovem amigo, e, antes que alguma suspeita injusta se lhe esboçasse ao espírito indagador, ponderou com prudência: — Tua pergunta, Ezequias, é natural, pois as re soluções de Saulo inspiram estranheza a qualquer homem prático. Trata -se de um moço cheio de talento, credor de belas promessas e, ao demais, muito instruído. Os menos avisados poderão chegar ao extremo de presumi rem na sua atitude o desejo de fugir a conseqüências de algum crime. Mas não há tal. Para ser mais franco, devo dizer que meu antigo discípulo quer consagrar -se, mais tarde, à difusão da palavra de Deus. Achas, então, que Saulo se elegesse a carreira da mocidade triunfante, da nossa época, preferiria Palmira a Jerusalém? A situa ção, portanto, não é apenas de necessidade pecuni ária, é também de carência de meditação nos problemas mais graves da vida. Bem sabemos que os profetas e homens de Deus foram aos lugares ermos, a fim de sentirem as reais inspirações do Altíssimo, antes de ministrarem, com êxito, a santidade da palavra. — Se é assim... replicou o outro, vencido. E após meditar alguns momentos, o negociante vol tou a dizer: — Na região que conhecemos por “oásis de Dan”, daqui distante mais de cinqüenta milhas, precisamente, instalei há cerca de um mês um jovem casal de tecelões que chegou na última leva de refugiados. Trata -se de Áquila, cuja mulher, de nome Prisca, foi serva de minha esposa, quando menina, é órfã desamparada. Esses bons operários são, atualmente, os únicos habitantes do oásis. Saulo poderá fazer -lhes companhia. Ali há tendas pró prias, casa confortável e teares indispensáveis ao serviço. — E qual o sistema do trabalho? — interrogou o jovem tarsense interessado pela nova tarefa. — A especialidade desse posto avançado — esclareceu Ezequias com certo orgulho — é a preparação de tapetes de lã e dos tecidos resistentes de pelo caprino, destinados a barracas de viagem.
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Capítulo 2
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