2ª Parte - Cap. 2: O tecelão
Desejei voltar a Jerusalém, mas, através do quadro da Sinagoga de Damasco, compreendi o que me esperava em grande escala junto às autoridades do Sin édrio e do Templo. Naturalmente, a profissão de rabino não me poderá interessar o espírito sincero, porque, de outro modo, seria mentir a mim mesmo. Sem trabalho, sem dinheiro, acho-me num labirinto de ques tões insolúveis, sem o auxílio de um coração mais experiente que o meu. Resolvi, então, demandar o deserto e procurar-vos para o socorro necessário. E concluindo a rogativa, com os olhos súplices, revelando as ansiedades tormentosas que lhe povoavam a alma, exclamou: — Mestre amado, sempre enxergastes as soluções do bem, onde minha imperfeição não devassava senão sombras amargurosas!... Amparai meu coração mergulhado em dolorosos pesadelos. Preciso servir Àquele que se dignou arrancar-me das trevas do mal, não posso dispensar vosso auxílio neste transe difícil da minha vida!... Essas palavras eram ditas com inflexão profunda mente comovedora. Olhos firmes, embora iluminados de intensa ternura, o generoso velhinho acariciou lhe as mãos e começou a falar comovidamente: — Examinemos tuas dúvidas, de maneir a particular, a fim de estudarmos uma solução adequada a todos os problemas, à luz dos ensinamentos que hoje nos iluminam. E, após uma pausa em que parecia catalogar os assuntos, continuava: — Falas do desprezo experimentado na Sinagoga de Damasco; mas, os exemplos são claros e convincentes. Também eu, atualmente, sou considerado como louco pacífico, no ambiente dos meus. Em Jerusalém, viste Simão Pedro vilipendiado por amar os pobres de Deus e dar -lhes acolhida; viste Estevão morrer sob pedradas e que mais ? O próprio Cristo, redentor dos homens, não se furtou aos martírios de uma cruz infamante, entre malfeitores condenados pela justiça do mundo. A lição do Mestre é grande demais para que seus discípulos estejam a espera de dominações políticas ou de altas expressões financeiras, em seu nome. Se ele que era puro, e inimitável, por excelência, andou entre sofrimentos e incompreensões neste mundo, não é justo aguar demos repouso e vida fácil em nossa miserável condição de pecadores. O moço tarsense ouvia aque las palavras mansas e enérgicas, com a alma dolorida, mormente no que se referia às perseguições infligidas a Pedro e no capítulo das lembranças de Estevão, às quais o velho amigo tinha a delicadeza de não aludir nominalmente ao verdugo. — A respeito das dificuldades que dizes experimen tar depois dos sucessos de Damasco — prosseguia Gamaliel serenamente —, nada mais justo e natural a meus olhos experimentados nos problemas do mundo. Nossos avós, antes de receber o maná do céu, atravessaram tempos sombrios de miséria, escravidão e sofrimento. Sem as angústias do deserto, Moisés jamais encontraria na rocha estéril a fonte de água viva. E talvez ainda não tenhas meditado melhor nas revelações da Terra Prometida. Que região seria essa, se, guardando a compreensão mais vasta de Deus, descobrimos em todos os pontos do mundo mananciais de sua proteção? Há tama reiras, frondosas e amigas, medrando nos areais ardentes. Essas árvores generosas não transformam o próprio deserto em caminhos abençoados, cheios do pão d ivino para matar nossa fome? Nas minhas reflexões solitárias, cheguei à conclusão de que a Terra Prometida pelas divinas revelações é o Evangelho do Cristo Jesus. E a meditação nos sugere comparações mais profundas. Quando nossos ascendentes mais corajosos trabalhavam por conquistar a região privilegiada, numerosas pessoas tentavam desanimar os mais pertinazes, asseverando que o terreno era inóspito, que os ares eram insalubres e portadores de febres mortais; que os habitantes eram intratáveis, devoradores de carne humana; mas Josué e Caleb, num esforço heróico, penetraram a terra desconhecida, venceram os primeiros obstáculos e voltaram dizendo que dentro da região manavam leite e mel. Não temos aí um símbolo perfeito? A revelação divina deve referir -se a uma região bendita, cujo clima espi ritual seja feito de paz e luz. Adaptarmo -nos ao Evangelho é descobrir outro país, cuja grandeza se perde no Infinito da alma. A nosso lado permanecem aqueles que tudo fazem por nos desanimar na empresa conquistada. Acusa m a lição do Cristo de criminosa e revolucionária, enxergam no seu exemplo intuitos de desorganização e de morte; qualificam um apóstolo, como Simão Pedro, de pescador presunçoso e ignorante; mas pensando na quela estupenda serenidade com que Estevão entre gou a alma a Deus, vi nele a figura do companheiro corajoso e digno, que voltava das lições do “Caminho” para nos afirmar que na Terra do Evangelho há fontes do leite da sabedoria e do mel do amor divino. É preciso, pois, marchar sem repouso e sem contar o s obstáculos da viagem. Procuremos a mansão infinita que nos seduz o coração. Gamaliel fizera uma pausa em suas expressões ami gas e altamente consoladoras. Saulo estava admirado. Aquelas comparações tão simples, aquelas deduções preciosas do estudo da A ntiga Lei, com relação a Jesus, deixavam-no perplexo. A sabedoria do ancião renovava -lhe as forças. — Alegas tua estranheza — continuou o venerando amigo, enquanto o jovem o fixava com interesse crescente — com a mudança de profissão e a falta de dinheiro para as necessidades mais imediatas... Entretanto, Saulo, basta meditar um pouco na realidade dos fatos, para que vejas claramente. Um velho, como eu, está na situação de Moisés contemplando a Terra Pro metida, sem poder alcançá-la. Mas, quanto a ti, é pre ciso convir que estás ainda muito moço. Podes multiplicar as energias com o adestramento de tuas forças e penetrar o terreno das aspirações do Salvador, a nosso respeito. Para isso, é indispensável simplificar a vida, recomeçar a luta. Josué não poderia ter vencido os óbices do caminho tão -só com a leitura dos textos sa grados, ou com os favores de quantos o estimavam. Certamente, manipulou instrumentos rudes, aplainou estradas onde havia abismos, à custa de esforços sobre humanos. — E que me aconselhais neste sentido? — interrogou o rapaz com profunda atenção, enquanto o velho mestre fazia longa pausa. — Quero dizer que conheço teu pai, bem como sua situação de abastança. Naturalmente, nas suas expres sões de afeto, não se negaria a te prestar todo o auxílio, nesta emergência. Mas teu pai é humano e pode ser chamado amanhã à vida espiritual. Seu amparo, portanto, seria valioso, mas não deixaria de ser precário, se não cooperasses com teu esforço próprio na solução dos teus problemas. E vives uma fase em que todo trabalho enérgico se faz indispensável. Examinada a questão de família, vejamos tua condição profissional. Até agora foste rabino da Lei, preocupado com os erros alheios, com as discussões da casuística, com a situação de evidência entre os doutor es; ganhavas dinheiro na vigilância dos outros, mas Deus te chamou à verificação dos teus próprios desvios, como chamou a mim mesmo. A Terra Prometida desenha -se aos nossos olhos. Ë preciso vencer os obstáculos e marchar. Como doutor da Lei, isso não mais te seria possível. Então é necessário recomeçar a tarefa como o homem que procurava inutil mente o ouro no lugar onde ele não existia. O problema é de trabalho, de esforço pessoal. O moço de Tarso demorou o olhar úmido de emoção no velho generoso e exclamou: — Sim, agora compreendo... — Que aprendeste na infância, antes da posição conquistada? — perguntou o ancião previdente. — Consoante os costumes da nossa raça, meu pai mandou -me aprender o ofício de tecelão, como sabeis. — Não podias receber das mãos pa ternas dádiva mais generosa — acrescentou Gamaliel com um sorriso sereno —; teu pai foi previdente, como todos os chefes de família do povo de Deus, procurando afeiçoar tuas mãos ao trabalho, antes que o cérebro se povoasse de muitas idéias. Está escrito q ue devemos comer o pão com o suor do rosto, O trabalho é o movimento sagrado da vida. Fazendo um intervalo, como que procurando refletir mais profundamente, o velho mentor da mocidade fa nanica voltou a dizer: — Foste humilde tecelão antes de conquistares os títulos honoríficos de Jerusalém... Agora que te candidatas a servir ao Messias na Jerusalém da Humanidade, é bom que voltes a ser modesto tecelão. As tarefas apagadas são grandes mestras do espírito de submissão. Não te sintas humilhado regressando ao tear que nos surge, presentemente, qual amigo generoso. Estás sem dinheiro, sem recursos materiais... À primeira vista, considerando tua situação de realce no mundo, seria justo recorrer a parentes ou amigos. Mas não estás doente, nem envelhecido. Tens a saúde e a força. Não será mais nobre convertê -las em elemento de socorro a ti mesmo? Todo trabalho honesto está selado com a bênção de Deus. Ser tecelão, depois de ter sido rabino, é para mim mais honroso que descansar sobre os títulos ilusórios, conquista dos num mundo onde a maioria dos homens ignora o bem e a verdade. Saulo compreendeu a grandeza dos conceitos e, to mando-lhe a mão, beijou-a com profundo respeito, mur murando: — Não esperava de vós senão esta franqueza e esta sinceridade que iluminam meu espírito. Aprenderei, de novo, o caminho da vida, encontrarei no ruído do tear os estímulos brandos e amigos do trabalho santificante. Conviverei com os mais desfavorecidos da sorte, pene trarei mais intimamente nas suas amarguras de cada dia; em contacto com as dores alheias hei de saber dominar meus próprios impulsos inferiores, tornando -me mais paciente e mais humano!... Tomado de grande alegria, o sábio velhinho acari ciou-lhe os cabelos, exclamando emocionado: — Deus abençoará tuas esperanças!... Longo tempo ficaram em silêncio, como desejosos de prolongar, indefinidamente, aquele instante glorioso de compreensão e harmonia. Foi Saulo quem, denotando no olhar as muitas preo cupações íntimas, quebrou o silêncio, dizendo receoso: — Pretendo retomar o ofíc io da primeira idade, mas estou sem dinheiro para a viagem.
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Capítulo 2
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