2ª Parte - Cap. 2: O tecelão
Esses artigos são for necidos por nossa casa comercial, em grande escala, mas, situando a manufatura desse trabalho tão distante, tive em vista as necessidades urgentes dos grupos de camelos de minha propriedade, empregados no meu tráfico comer cial com toda a Síria e pontos outros mais florescentes, do comércio em geral. — Tudo farei por corresponder à vossa confiança —confirmou o ex-rabino confortado. A palestra prosseguiu ainda, longo tempo, no comen tário das perspectivas, das condições e vantagens do negócio. Daí a três dias, Saulo despedia -se do mestre, debaixo de profunda comoção. Figurava-se-lhe que aquele abraço afetuoso era o último e, até q ue os camelos da caravana largassem em direção da imensa planície, o jovem envolveu o venerando ancião nas vibrações caridosas do an gustioso adeus. No dia imediato, os serviçais de Ezequias, ladeando a extensa fila de camelos resignados, deixavam -no com vultosa carga de couros, na companhia de Áquila e sua mulher, no grande oásis que florescia em pleno deserto. Os dois operários da pequena oficina receberam -no com as melhores mostras de fraternidade e simpatia. Saulo reconheceu neles, de relance, as mais nobres qualidades espirituais. A mocidade do generoso casal ex pandia-se em formosas expressões de trabalho e bom ânimo. Prisca desdobrava -se em atividades para assinalar em tudo as preciosidades do seu carinho. Suas velhas canções hebraicas ressoavam no grande silêncio como notas de soberana e harmoniosa beleza. Termina dos os serviços domésticos, ei -la junto do companheiro, nas lides do tear, até às horas mais avançadas do crepúsculo. O marido, por sua vez, parecia um tempera mento privilegiado, desses que se movimentam sem a pre sença do aguilhão. Plenamente integrado nas responsabilidades que lhe competiam, Áquila trabalhava sem des canso à sombra das árvores acolhedoras e amigas. Saulo compreendeu a bênção que havia recebido. Tinha a impressão de encontrar naquelas duas almas fraternas, que nunca mais se haviam de separar espiritualmente da grandeza de sua missão, dois habitantes de um mundo diferente que, até então, não lhe fora dado conhecer na vida. Áquila e Prisca, antes que esposos, pareciam ver dadeiros irmãos. No primeiro dia de esforço conjunto, o ex -doutor da Lei observou-lhes o respeito mútuo, a perfeita conformidade de idéias a elevada noção de deveres que lhes caracterizava as menores atitudes e, sobretudo, a alegria sã que irradiava dos seus menores gestos. Seus costumes puros e generosos encantavam -lhe a alma desiludida das hipocrisias humanas. As re feições eram simples; cada objeto tinha o seu aproveitamento e lugar adequado, e as palavras, quando saíam do círculo da alegria comum, jamai s incidiam em maledicência ou frivolidade. O primeiro dia correu com agradabilíssimas surpre sas para o ex-rabino, sequioso de paz e solidão para os seus novos estudos e meditações. O companheiro de trabalho desfazia -se em gentilezas para atender -lhe às pequeninas dificuldades no mister que há longo tempo deixara de praticar. Áquila estranhou, naturalmente, as mãos delicadas, as maneiras diferentes, em nada semelhantes às de um tecelão comum; mas, com a nobreza que o caracterizava, nada perguntou relativa mente aos motivos do seu insulamento. Naquela mesma tarde, cessada a tarefa, o casal acomodou -se ao pé de frondosa palmeira, não sem lançar ao novo companheiro olhares indagadores, que traduziam indisfarçável inquietude. Silenciosos, desenrolaram uns velh os pergaminhos e começaram a ler com muita atenção. Saulo percebeu aquela atitude receosa e aproxi mou-se. — De fato — disse carinhoso — a tarde no deserto convida à meditação... o lençol infinito de areia parece um oceano parado... a aragem branda representa a mensagem das cidades distantes. Tenho a impressão de estarmos num templo de paz imperturbável, fora do mundo... Áquila admirou-se daquelas imagens evocativas e experimentou maior simpatia por aquele rapaz anônimo, segregado talvez dos afetos mais caros, a contemplar a planície sem -fim, com imensa tristeza. — É verdade — respondeu atencioso —, sempre acreditei que a Natureza conservou o deserto como altar de silêncio divino, para que os filhos de Deus tenham na Terra um local de perfeito repouso. Aprov eitemos, pois, nosso estágio na solidão, para pensar no Pai justo e santo, considerando sua magnanimidade e grandeza. A esse tempo, Prisca debruçava -se sobre a primeira parte do rolo de pergaminhos, absorvida na leitura. Lendo casualmente, de longe, o nome de Jesus, Saulo aproximou -se ainda mais e, sem conseguir ocultar seu grande interesse, perguntou: - Áquila, tenho tanto amor ao profeta nazareno que me permito indagar se tua leitura sobre a grandeza do Pai Celestial é feita pelos ensinamentos do Evangelho. O jovem casal experimentou profunda surpresa em face do inesperado de semelhante pergunta. — Sim... — esclareceu o interpelado hesitante —, mas, se vens da cidade, não ignoras as perseguições movidas a quantos se encontram em ligação com o “Caminho” do Cristo Jesus... Saulo não dissimulou sua alegria, verificando que os companheiros, amantes da leitura, estavam em con dições de permutar mais elevadas idéias do novo aprendizado. Animado pela confissão do outro, sentou -se nas pedras rústicas e, tomando os pergaminhos com interesse, perguntava: — Anotações de Levi? — Sim — esclareceu Áquila mais senhor de si e certo de se encontrar em face de um irmão de ideal —, copiei-as na igreja de Jerusalém, antes de partir. Num instante, Saulo buscou a cópia do Evang elho que constituía para seu coração uma das mais preciosas lembranças da vida. Conferiram, satisfeitos, os textos e os ensinos. Tomado de sincero interesse fraternal, o ex -rabino interrogou com solicitude: — Quando saíram de Jerusalém? Folgo imenso quan do encontro irmãos que conhecem de perto nossa cidade santa. Quando saí de Damasco, não previa que Jesus me reservasse tão gratas surpresas. — Faz meses que de lá saímos — explicou Áquila, agora cheio de confiança na espontaneidade das palavras ouvidas. — Fomos compelidos a isso pelo movimento das perseguições. Aquela referência brusca e indireta ao seu passa do, perturbava o jovem tarsense no mais recôndito do coração. — Chegaste a conhecer Saulo de Tarso? — perguntou o tecelão com uma grande ingenuidade a transparecer-lhe dos olhos. Aliás — continuava, enquanto o interpelado buscava o que responder —, o célebre inimigo de Jesus tem nome igual ao teu. O ex-rabino considerou que seria melhor seguir à risca o conselho de Gamaliel. Era preferível ocultar -se, experimentar a reprovação justa do seu passado condenável, humilhar -se ante o juízo dos outros, por mais implacáveis que fossem, até que os irmãos do “Caminho” lhe comprovassem plenamente a fidelidade do testemunho. — Conheci-o — replicou vagamente. — Pois bem — prosseguia Áquila, iniciando a nar ração das suas vicissitudes —, é bem possível que, pela tua passagem em Damasco e Palmira, não tivesses conhe cimento perfeito dos martírios que o famoso doutor da Lei nos impôs, muitas vezes, arbitrariamente. Tal vez o próprio Saulo, segundo creio, não pudesse saber as atrocidades cometidas pelos homens inescrupulosos que tinha às suas ordens, porque as perseguições foram de tal natureza que, como irmão do “Caminho”, não posso admitir que um rabino educado pudesse assumir a responsabilidade pessoal de tantos feitos iníquos. Enquanto o ex-doutor procurava, em vão, uma res posta adequada, Prisca entrava na conversa, exclamando com simplicidade: — É claro que o rabino de Tarso não podia conhe cer todos os crimes cometidos em seu nome. O próprio Simão Pedro. na véspera de partirmos, ocultamente, à noite, nos afirmou que ninguém devia odiá -lo, porque, não obstante o papel que representou na morte de Estevão, era impossível fosse o mandante de tantas medi das odiosas e perversas. Saulo compreendia, agora que ouvia os mais hu mildes, a extensão da campanha criminosa que desenca deara, dando ensanchas a tantos abusos de subalternos e apaniguados. — Mas — perguntou admirado — sofreste tanto assim? Foste condenado a alguma pena? — Não foram poucos os que sofreram vexames Iguais aos que experimentei murmurou Áquila expli cando-se —, dado o condenável procedimento de uns tan tos energúmenos fanáticos, escolhidos como auxiliares prestimosos do movimento. — Como assim? inquiriu Saulo sumamente interessado. — Dar-te-ei um exemplo. Imagina que um patrício de nome Jochal, várias vezes interpelou meu pai relativamente à possibilidade da compra de uma padaria em Jerusalém. Eu cuidava de minha tenda; meu velho ge nitor, de seus serviços. Vivíamos felizes e, considerando nossa paz, apesar das investidas do ambicioso, meu pai jamais pensou em alienar a fonte dos seus recursos. Jochaí. entretanto, logo no início das perseguições, logrou posição de realce. Em tais feitos, os caracteres mesquinhos sempre levam a palma. Bastou lhe dessem um pouco de autoridade e o invejoso logo expandiu seus criminosos desejos. É verdade que eu e Prisca fomos dos primeiros a freqüentar a igreja do “Caminho”, não só por afinidade de sentimento, como por d ever a Simão Pedro a cura de antigos males que me vinham da infância. Meu pai, no entanto, apesar da simpatia pelo Salvador, sempre ale gava estar bastante idoso para mudar de idéias religiosas. Aferrado à Lei de Moisés, não podia compreender uma renovação geral de princípios em matéria de fé. Isso, todavia, não invalidou os instintos perversos do ambi cioso. Certo dia, Jochaí nos bateu à porta acompanhado de escolta armada, com ordem de prisão para os três. Era inútil resistir. O doutor de Tarso lançara um edito em que toda resistência significava morte. Lá nos fomos à prisão. Em vão meu pai jurou fidelidade à Lei. Depois do interrogatório, eu e Prisca recebemos ordem de re gressar a casa, mas o velho foi encarcerado sem com paixão. Os bens modestos foram-lhe imediatamente confiscados.
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Capítulo 2
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