Capítulo 9
E, relanceando o olhar pelo salão em luz, dirigia-se a nós outros, comovedoramente: — Tenho medo de minha velha habitação! Ah! Por favor, enviados divinos, não me deixeis voltar nunca! Nunca mais!… Compreendendo que a nora, temporariamente liberta do corpo, entrava num domínio vibratório prejudicial à organização psíquica, em virtude dos deveres que lhe cabiam na Esfera carnal, Letícia considerou, retomando-a a si: — Ouça, filha: é preciso que você não se detenha por mais tempo. Não pode permanecer entre nós, antes que os Eternos Desígnios se manifestem nesse sentido. Volte, porém, ao lar distante, convencida de nossa afeição sem mácula. Nossa tranquilidade seguir-lhe-á os dias terrenos. Não lhe faltará cooperação. Se não pode acompanhar o esposo querido, pela inoportunidade de semelhante desejo, alegre-se e confie no Poder Divino, pois Gotuzo irá ao seu encontro. Em breve, Marília, seus beijos orvalharão de amor e ventura um rosto pequenino, que sintetizará, para as suas esperanças de avó, verdadeiro mundo de felicidade redentora. Emocionada pela alegria, interrogou a pobre alma: — Gotuzo perdoou-me? — Ele nunca sofreu ofensa alguma de seu coração dedicado, — adiantou-se Letícia, bondosa, — e lembrar-se-á sempre, com desvelo e ternura, da companheira fiel que lhe amparou os filhinhos amados e lhe honrou o nome, entre renúncias e sacrifícios ignorados. — Oh! Oh! Que felicidade! — Repetia a interlocutora, afogada em pranto de júbilo e reconhecimento. Afagando a fronte do filho, que também chorava sob forte emoção, Letícia rogava-lhe: — Diga-lhe, meu filho, quanto a amamos! Tranquilize-lhe a alma sensível e afetuosa! Tal como uma criança vencida, nosso irmão assegurou: — Marília, nunca resgatarei minha dívida para com seu devotamento. Regresse, confiante, enquanto preparo minha própria volta. Brevemente, com o auxílio de Deus e de nossa abençoada mãe, estaremos, de novo, reunidos na Terra! Peça energias para mim, em suas orações de serva incompreendida. Está você em vias de terminar dolorosa prova de resgate, ao passo que vou recomeçá-la. Sou eu, portanto, agora, quem suplica auxílio e proteção… Espere-me! Não desfaleça! Aprenderemos a refundir sentimentos, purificar laços afetivos, santificar impulsos e, sobretudo, abençoaremos quem nos feriu aparentemente, amparando suposto inimigo, a fim de que nos convertamos em sinceros irmãos uns dos outros… Ambos choravam enternecedoramente. Em seguida, Letícia restituiu a nora aos braços amigos da orientadora que a reconduziu de volta ao corpo físico, no mesmo silêncio dentro do qual se mantivera até então. A ex-genitora de Gotuzo recomendou-lhe que retomasse o primitivo lugar e, recompondo o ambiente, solicitou o concurso de Zenóbia para a futura realização filial. A Diretora da Casa, rememorando talvez o esforço que levara a efeito naquela mesma noite, em benefício dum coração que lhe era particularmente amado, acusava funda emoção. — Gotuzo conta nesta instituição com amigos que lhe são infinitamente reconhecidos, — falou Zenóbia, sensibilizada. — É companheiro a quem devemos muito. Realizaremos, de bom grado, tudo quanto esteja ao nosso alcance para que a experiência nova lhe seja portadora de luzes e bênçãos. A felicidade dele, em outro setor, minha irmã, será igualmente a felicidade desta casa. Segui-lo-emos na recapitulação terrestre, atenciosos e vigilantes, não por obséquio, mas em obediência ao preito de gratidão de que somos devedores, pelos vários anos em que cooperou conosco, devotada e assiduamente. Letícia agradeceu e partiu, deixando-nos preciosos eflúvios de paz e encantamento. Outro iluminado mentor da organização socorrista, identificado por Luciana, então reintegrada na própria personalidade, ditou-nos, por ela, algumas palavras elevadas e santas de estímulo, endereçando-nos copiosa chuva de raios luminosos através da tela das bênçãos, recomendando a Zenóbia que encerrasse os serviços da prece, na paz do Senhor. A diretora pronunciou enternecida oração de reconhecimento e júbilo, encerrando a tarefa. Abraçando-nos, esclarecidos e satisfeitos pelo êxito da hora, vimos que a Irmã Zenóbia encaminhou-se para Gotuzo, enlaçando-o maternalmente: — Oh! Minha venerável irmã! — Disse ele, enternecido, — como é grande o prêmio da Misericórdia Divina!… Não mereço tanto! Auxilie-me a agradecer a Deus!… — Regozijemo-nos, Gotuzo! — Respondeu a interlocutora, — e louvemos o Pai que tanto nos engrandece o esforço obscuro e pequenino! O agraciado de hoje não foi apenas você. Também eu aumentei, de muito, meus grandes débitos para com o Altíssimo!… De voz quase embargada pela comoção, concluiu: — Também eu recebi divina concessão nesta grande noite!
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Nome do Capítulo Louvor e gratidão