Na manhã imediata, a administração da Casa Transitória achava-se de posse do roteiro a seguir. Os cronômetros acusavam seis horas; no entanto, as sombras densas e monótonas dominavam a região. O instituto recebia o concurso de vários servidores de outras organizações socorristas da mesma natureza, enquanto a Irmã Zenóbia se mantinha absorvida pelos quefazeres imperiosos do momento, cercada de assessores, orientando atividades alusivas à mudança próxima. Ardendo de ansiedade por obter maiores esclarecimentos acerca dos trabalhos em execução, acompanhei o padre Hipólito, que me convidou a inspecionar os movimentos do átrio. Segui-o gostosamente. O serviço ativo exigia a atenção e o esforço de grande número de colaboradores. Instado pelas minhas interrogações insistentes, o prezado companheiro informou:
— As instituições socorristas, como esta, podem alçar voos de grande alcance. E, diante da minha funda admiração, continuou:
— Permanecemos, porém, noutros domínios vibratórios e não podemos ter grandes surpresas. As leis da matéria densa, nossas velhas conhecidas da Crosta Planetária, não são as que presidem aos fenômenos da matéria quintessenciada que nos serve de base às manifestações também transitórias. O homem encarnado somente agora começa a perceber certos problemas inerentes à energia atômica do Plano grosseiro em que situa, temporariamente, a personalidade. Como você não ignora, as descargas elétricas do átomo etérico, em nossa Esfera de ação, fornecem ensejo a realizações quase inconcebíveis à mente humana. Nos Círculos carnais, em favor da solução dos nossos enigmas evolutivos ou redentores, somos francos prisioneiros do campo sensorial, que se comunicam com a Vida Infinita pelas estreitas janelas dos cinco sentidos. Não obstante o progresso da investigação científica entre as criaturas terrenas, o homem comum apenas conhece, por enquanto, uma oitava parte do Plano onde passa a existência. A vidência e a audição, as duas portas que lhe podem dilatar a pesquisa intelectual, permanecem excessivamente limitadas. Vejamos, por exemplo, a luz solar, que condensa as cores básicas, suscetíveis de serem assinaladas pelo nosso olho, quando na Terra. Percebemos, tão somente, as cores que vão do vermelho ao violeta, salientando-se que a maioria das pessoas nada enxerga além das últimas cinco, que são o azul, o verde, o amarelo, o laranja e o vermelho, não registando o índigo e o violeta. Existem, porém, outras cores no espectro, correspondentes a vibrações para as quais o olho humano não possui capacidade de sintonia. Manifestam-se raios infravermelhos e ultravioletas que o pesquisador humano consegue identificar imperfeitamente, mas que não pode ver. Ocorre o mesmo com a potência auditiva. O ouvido da mente encarnada assinala apenas os sons que se enquadram na tabela de “16 vibrações sonoras a 40.000 por segundo”. As ondas mais lentas ou mais rápidas escapam-lhe integralmente. Há que obedecer às leis da gravitação e da estrutura das formas, na zona de matéria densa, para que a vida atinja seus divinos objetivos espirituais. O ex-sacerdote fez breve parada, sorriu afavelmente, e acentuou:
— Os movimentos de trabalho em nossa Esfera de luta, portanto, não podem ser vistos com a mesma deficiência de exame que antigamente nos presidia às observações. A matéria e as leis, em nosso Plano, permanecem bastante diferenciadas, embora emanem da mesma Origem Divina. As considerações eram sumamente interessantes para mim, em tal conjuntura, apesar de já não ser leigo no conhecimento da aplicação de energia elétrica, na colônia espiritual em que mantinha residência. As palavras de Hipólito tinham a virtude de aliviar-me o cérebro atulhado ainda de reminiscências viciosas da Crosta. O estimado amigo, não obstante reconhecer a leveza da substância etérica, em comparação com os fluidos grosseiros que constituem os corpos terrenos, chamou-me a atenção para o esforço hercúleo dos trabalhadores que articulavam diversos serviços, atinentes à próxima modificação. A tarefa exigia decisão e boa vontade, assombrando o ânimo mais forte. A utilização de recursos, ali, naquela casa de benemerência, insulada em tão escura paisagem, custava inauditos sacrifícios. A densidade da região influía inequivocamente nos serviços, e os colaboradores despendiam atividades de gigantescas proporções. Todo o pessoal disponível fora convocado ao trabalho dos motores e, quando me entregava a transportes admirativos, diante da maquinaria complexa, indescritível na técnica humana, a Irmã Zenóbia, através de Jerônimo, nos pediu colaboração nas defesas magnéticas, em vista da necessidade de empregar maior número de cooperadores na preparação ativa do voo. Não tínhamos tempo a perder. O próprio Assistente que nos orientava, num belo exemplo de renúncia fraternal, tomou a dianteira, encaminhando-se para as faixas de defesa. Não eram, essas, altas e verticais como as muralhas das fortificações terrestres, mas [barras paralelas] horizontalmente estendidas e formadas em substância escura, que emitiam forças elétricas de expulsão num raio de cinco metros de largura, aproximadamente, circulando toda a casa. Diversos focos de luz permaneciam acesos e, em rápidos minutos, determinado responsável pela tarefa colocava-nos ao corrente do trabalho a executar. Velaríamos pelo funcionamento regular de certos aparelhos geradores de energia electromagnética, destinados à emissão constante de forças defensivas, e vigiaríamos o setor que nos fora confiado, de modo a sanar qualquer anormalidade. Finalizando as explicações, assegurou o colaborador:
— Temos determinação para receber todos os sofredores que se apresentarem renovados, facultando-lhes ingresso ao pátio interno. Nas últimas horas, a Irmã Zenóbia e os demais administradores da instituição ordenaram acolhimento a todos os transviados que se aproximassem de nós, com sinais legítimos de transformação moral para o bem. Certo, Jerônimo estaria informado quanto às providências necessárias; entretanto, dentro de minha ignorância, não contive a interrogação:
— Como nos asseguraremos, porém, da renovação a que alude? O prestimoso Assistente não permitiu que o interpelado me respondesse. Adiantou-se, ele mesmo, e informou:
— Os sofredores, já modificados para o bem, apresentarão círculos luminosos característicos em torno de si mesmos, logo que, estejam onde estiverem, concentrem suas forças mentais no esforço pela própria retificação. Os outros, os impenitentes e mentirosos sistemáticos, ainda que pronunciem comovedoras palavras, permanecerão confinados nas nuvens de treva que lhes cercam a mente endurecida no crime. O esclarecimento era bastante significativo; e silenciei, satisfeito, compreendendo, mais uma vez, a grandeza da purificação consciencial, em lugar dos protestos verbalísticos que se fazem através dos jogos brilhantes da palavra. Entregávamo-nos, tranquilos, ao trabalho, quando indescritível choque atmosférico abalou o escuro céu. Clarão de terrível beleza varou o nevoeiro de alto a baixo, oferecendo, por um instante, assombroso espetáculo. Não era bem o relâmpago conhecido na Crosta, por ocasião das tempestades, porquanto as descargas elétricas da Natureza, sobre o chão denso, são menos precisas no que se refere à orientação técnica de ordem invisível. Observava-se, ali, o contrário: a tormenta de fogo ia começar, metódica, mecanicamente. Dominou-me angustioso pavor, mas o Assistente Jerônimo revelava-se tão calmo que a sua serenidade era contagiante.
— É o primeiro aviso da passagem dos desintegradores, — explicou-nos, solícito. À distância de muitos quilômetros, víamos os clarões da fogueira ateada pelas faíscas elétricas na desolada região. Decorridos alguns minutos, chegaram novos reforços para a guarda. Todos os servos do bem, em trânsito na Casa Transitória, foram chamados a cooperar na vigilância. O assessor que os distribuía, em variados setores do serviço, esclareceu que o instituto socorrista deveria partir dentro de quatro horas, e que, nesse tempo, em circunstâncias como aquelas, seria grande o número de infortunados a procurar-lhe as portas, acentuando que não se dispunha de colaboradores em quantidade suficiente para atender às tarefas do átrio. Antes de maiores explicações, ribombou novo trovão nas alturas. O fogo riscou em diversas direções, muito longe ainda, como a notificar-nos de sua aproximação gradativa. Dessa vez, todavia, recebi a nítida impressão de que a descarga elétrica não se detivera na superfície. Penetrara a substância sob nossos pés, porque espantoso rumor se fez sentir nas profundezas. Muitas vezes ouvira viajantes que afrontaram sinistros do mar, e todos eram unânimes em asseverar a beleza cruel das grandes tormentas no dorso do abismo equóreo, bem como afirmavam que viajor algum, por mais incrédulo, conseguia subtrair-se às ponderações místicas da fé, perante o turbilhão escachoante do desconhecido. Ali, no entanto, a emoção era mais solene, os fatores mais complexos, tal o patético do fenômeno. Buscando talvez tranquilizar-me, o Assistente afiançou:
— O trabalho dos desintegradores etéricos, invisíveis para nós, tal a densidade ambiente, evita a eclosão das tempestades magnéticas que surgem, sempre, quando os resíduos inferiores de matéria mental se amontoam excessivamente no Plano. Jerônimo, experiente e bondoso, tentava sossegar-me o coração.