Seus pensamentos mais íntimos, entretanto, dilaceram-nos o coração. Como conduzirá doentes à cura, se prossegue magoado com aqueles que o feriram aparentemente? Como dará lições de bom ânimo aos tristes, se se demora tanto tempo na ilusão do desalento? Ó filho amado, ninguém serve à obra do Pai com a mente toldada pelo vinho amargoso das paixões! Abra o entendimento à passagem das bênçãos divinas! Não guarde vermes venenosos no jardim da esperança… Estragariam as mais belas flores, aniquilando a promessa dos frutos… Interrompeu-se a mensageira, por um momento, parecendo coordenar a argumentação, e prosseguiu:
— É razoável que você demore neste asilo de amor, colaborando na cura de desequilibrados mentais, longe dos Círculos mais densos. Contudo, não pretende ganhar o Mais Além? Admite, satisfeito, o cárcere do estacionamento, malgrado o caráter do trabalho edificante? Não desejará libertar-se para libertar, efetivamente, os prisioneiros da ignorância? Não demandará o Plano superior para ser mais útil aos que intentam galgar a escada reveladora da luz imortal? Não falo a você, agora, dentro da afetuosa impertinência de mãe. Nossos laços, presentemente, em relação ao passado, são muito diversos. Somos, ambos, filhos do Pai Altíssimo, e creia que minha devoção por você não é menor. Não o abandonarei às inclinações menos elevadas, não obstante justificáveis na tabela das convenções puramente humanas. E, em razão disso, venho ouvi-lo sobre os seus propósitos. Você tem cooperado, espontâneo e assíduo, nas tarefas do bem. É um trabalhador com direito a descobrir os próprios erros e a retificar o caminho que lhe compete. Ouça, porém, meu filho, e compreenda-me: venho intercedendo, junto às autoridades que nos regem os destinos, para que a sua consciência desperte para a divina luz. O grupo doméstico, amado e inesquecível, espera por você na preparação da felicidade porvindoura!… As palavras pronunciadas exprimiam enorme bagagem de considerações que ficariam por dizer. Cada conceito envolvia-se em significativa onda de pensamentos, que evidenciavam, de modo indireto, os sagrados fins da visita materna. Após longa pausa, Letícia indagou delicadamente:
— Que responde, filho meu? Fez-se comovedor silêncio; percebemos que Gotuzo chorava, entre a respiração opressa e os soluços mal-contidos. Ao termo de alguns instantes, replicou, humilde:
— Minha mãe! Minha boa mãe! Estou pronto!… A comunicante, cuja presença sentíamos sem ver, tornou, visivelmente emocionada:
— Rendo graças ao Senhor pela sua compreensão. Sim, meu filho, organizaremos todas as medidas indispensáveis. Voltará, em breve, ao agrupamento familiar. Prepare-se, considerando a luta imprescindível à iluminação. O instituto doméstico, legitimamente considerado, é celeiro de supremos valores educativos para quantos procurem os interesses divinos, acima das cogitações humanas. O lar terrestre é bendita forja de redenção. Reencontrará as simpatias e antipatias de outro tempo, oferecendo possibilidades felizes de reajustamento emocional. Recapitule mentalmente as lições aprendidas, peça a inspiração de Jesus e disponha-se a partir, tranquilo. Não desanime diante do serviço a fazer. Somos milhões de criaturas, disputando o ensejo de santificar sentimentos. No passado, raras vezes procedíamos em obediência aos ditames da Lei. Se exteriorizávamos estima, perdíamo-nos em excessos de paixão, como perdulários do afeto; se manifestávamos atitudes de corrigenda, cedíamos à cegueira do ódio, como cultores do exclusivismo feroz. É necessário regressar ao curso, para conquistar o equilíbrio espiritual necessário à elevação. Gotuzo, em lágrimas, não conseguia falar. A ex-genitora, todavia, deixando-nos perceber que lhe captava os mais íntimos pensamentos, acentuou, depois de mais longo interregno:
— A esposa dedicada que deixou na Crosta não poderá servir-lhe de mãe; entretanto, ser-lhe-á carinhosa e experiente avó. Seu adversário gratuito, pobre homem que se entregou à inveja e à ambição destruidoras, receberá seus beijos infantis e com eles os eflúvios de seu perdão renovador. Que coração enganado pelos maus sentimentos não se dobrará entre as mudanças da vida? O ex-inimigo penetra, agora, no declínio das ilusões. Sua alma atravessa atualmente o pórtico que dá acesso à velhice do corpo temporário. Ao invés de lembranças doces que lhe afaguem o espírito, curtirá aflitivas reminiscências. Sua presença atenuar-lhe-á os pesares. Enquanto as doenças do desequilíbrio lhe vergastarem a carne e as recordações penosas lhe castigarem a mente, será você o neto consolador, mensageiro de paz em forma de criança. Ajudá-lo-emos a consagrar-lhe atenção e carinho. No desencanto do corpo cansado e na ternura infantil, o Espírito consegue sublimes realizações para a vida eterna. Novo intervalo da visitante, que continuou, em seguida:
— Seu futuro pai, na efêmera existência humana, coração particularmente amado do seu, receberá concurso amoroso e decisivo dum filho muito caro, elevando-se a nobilitante altura moral, pelo sagrado estímulo de sua companhia. Sua volta infundir-lhe-á mais respeito ao mundo e aos semelhantes. Desejará cultivar virtudes e valores, a fim de que você lhe abençoe a paternidade. Chorará com as suas dores, rir-se-á com as suas alegrias. Sentir-se-á novo homem, ao contacto de suas mãos pequeninas. Seu esforço futuro, após as realizações que vem levando a efeito, beneficiará todo o grupo familiar, em abençoada tarefa que não pôde realizar na condição que passou. Ó meu filho! Haverá ventura maior que a de liquidar nossos débitos e partir unidos para os júbilos do cântico imortal de integração com a Divindade? Outras escolas mais belas esperam por nós, outras glórias nos felicitarão para sempre! Sigamos para Deus!… Nesse ponto, interrompera-se-lhe a palavra, talvez absorvida pela emoção profunda. Respeitoso e humilde, Gotuzo rogou à Irmã Zenóbia lhe permitisse aproximar-se. Obtido o consentimento, avançou para a poltrona em que Luciana traduzia a personalidade materna, e ajoelhou-se, beijando-lhe as mãos: Letícia, bondosa, recomendou:
— Levante-se, meu filho… Sei que você me ama, intensamente. Todavia, há irmãos nossos que lhe esperam a estima e a compreensão. Não venho sozinha ao seu encontro. Enquanto me dispunha a visitá-lo, solicitei o comparecimento de alguém dos Círculos mais densos, para colher a certeza de suas disposições. Para a nossa felicidade completa não basta que você me beije e admire. É indispensável que se aproxime fraternalmente daqueles a quem ainda não sabe amar. Alguém confabulará conosco, dentro de minutos breves. Abrir-se-ão as portas desta casa de bênçãos, em benefício de nossa congregação familiar. Espere. Mantinha-se Gotuzo em ansiosa expectativa, em face das singulares observações. Surpreendendo-nos a todos, poucos segundos após, duas senhoras penetraram o recinto. A que apresentava maior número de anos, revelava alta posição de orientadora, na luz que a circundava, mas a segunda mostrava a obscura condição de alma encarnada, em temporário afastamento do corpo, através do sono físico. Reconheceu Gotuzo, de longe, e, evidenciando incontestável deficiência de disciplina emotiva, estendeu-lhe os braços, descontrolada e inquieta, bradando:
— Gotuzo! Gotuzo! Que felicidade, este reencontro! Parecendo, porém, perturbada pelo choque das lembranças relativas à diferente situação que o desprendimento do primeiro esposo lhe trouxera, acrescentava, aflita:
— Não me queira mal! Ajude-me por amor de Deus! Não me abandone, não me abandone!… Dolorosos soluços rebentavam-lhe do peito. O interpelado quedou silencioso, atendendo, talvez, à íntima angústia que o dominava, mas Letícia interveio, generosa. Erguendo-se, firme, recolheu a nora nos braços e tranquilizou-a:
— Venha, Marília, venha ao meu coração. Sabemos quanto tem sofrido, na silenciosa depuração espiritual. Nunca fomos surdos aos seus rogos e conhecemos, de perto, a extensão das provas amargurosas que lhe colheram a alma sensível. A visitante da Crosta Terrestre contemplava a benfeitora, enlevada e feliz, sentindo-se na presença dum anjo bom, já que não conseguia coordenar raciocínios para compreender o fenômeno em curso. Através da luminosidade de seu olhar, observávamos a ventura que lhe banhava o Espírito, jubilosa ao contacto de tão belo entendimento. Depois de acariciá-la com meiguice materna, a venerável amiga dirigiu-se ao nosso companheiro, acentuando:
— Meu filho, não queria você abraçar-me e beijar-me? Acredita que a esposa terrestre mereça menos que eu? Admite, ainda, que a mãe de seus filhinhos estremecidos, saudosa e devotada, tenha sido ingrata ao seu desvelado amor? Continuará esquecido do bem para agravar o mal? A viúva, na Crosta, em muitas ocasiões, deve aceitar o segundo matrimônio como sacrifício necessário, por supremo respeito ao consorte que partiu. Retire dos olhos a venda do egoísmo que lhe vem interceptando a visão e interprete com naturalidade as exigências da vida terrena. Num gesto conciliador, confiou-lhe a esposa, acrescentando:
— Ajude-a para que você possa ser ajudado. Não recuse a lição, porque o futuro virá aclará-la inteiramente. Magnetizado, talvez, pela carinhosa advertência materna, Gotuzo abriu os braços e recolheu-a, solícito, na atitude de irmão compadecido e desvelado. Marília observava-o, em êxtase.
— Oh! Que sonho bom! — Exclamou, sob indefinível expressão de ventura.