Em meio do respeito geral, Paulo subiu de novo à tribuna improvisada, explicando que ele e o com panheiro eram simples criaturas mortais, realçando a misericórdia do Cristo, que se dignara ratificar a promessa do Evangelho, naquele minuto inesquecível. Debal de, porém, multiplicava os seus esclarecimentos. Todos lhe ouviam a palavra genuflexos, em atitude estática. Foi aí que um velho sacerdote, paramentado segundo os hábitos da época, surgiu inesperadamente conduzindo dois bois engrinaldados de flores, com ademanes e mesu ras solenes. Em voz alta, o ministro de Júpiter convida o povo ao cerimonial do sacrifício aos deuses vivos. Paulo percebe o movimento popular e, descendo ao centro da praça, grita com toda força dos pulmões, abrindo a túnica na altura do peito: — Não cometais sacrilégios!... não somos deu ses... Vede!... somos simples criaturas de carne!. Seguido de perto por Barnabé, arrebata das mãos do velho sacerdote a delicada trança de couro que prendia os animais, soltando os dois touros pacíficos, que se puseram a devorar as verdes coroas. O ministro de Júpiter quis protestar, calando -se em seguida, muito desapontado. E entre os mais extrava gantes comentários, os missionários bateram em retirada, ansiosos por um local de oração, onde pudessem elevar a Jesus seus votos de alegria e reconhecimento. — Grande triunfo! — disse Barnabé quase orgu lhoso. — As dádivas do Cristo foram numerosas, o Senhor lembra -se de nós!... Paulo ficou pensativo e redargüiu: — Quando recebemos muitos favores, precisamos pensar nos muitos testemunhos. Penso que experimen taremos grandes provações. Aliás, não devemos esquecer que a vitória da entrada do Mestre em Jerusalém precedeu os suplícios da cruz. O companheiro, considerando o elevado sentido da quelas afirmações, entrou a meditar em profundo silêncio. Lóide e a filha estavam radiantes. A cura do alei jado conferia aos mensageiros da Boa Nova singular situação de evidência. Paulo valeu -se da oportunidade para fundar o primeiro núcleo do Cristianismo na pe quena cidade. As providências iniciais foram tomadas na residência da generosa viúva, que pôs à disposição dos missionários todos os recursos ao seu alcance. Tal como em Nea-Pafos, estabeleceram num case bre muito humilde a sede das atividades de informações e de auxílio. Em lugar de João Marcos, era o pequeno Timóteo quem auxiliava em todos os misteres. Numero sas pessoas copiavam o Evangelho, durante o dia, en quanto os enfermos acorriam de toda parte, carecidos de imediata assistência. Não obstante tal êxito, crescia igualmente a animo sidade de uns tantos, contra a nova doutrina. Os poucos judeus de Listra deliberaram consultar as a utoridades de Icônio, relativamente aos dois desco nhecidos. E foi isso o bastante para que se turvassem os horizontes. Os comissionários regressaram com um acervo de notícias ingratas. O caso de Tecla era pintado a cores negras. Paulo e Barnabé eram acusados de blasfemos, feiticeiros, ladrões e sedutores de mulheres honestas. Paulo, principalmente, era apresentado como revolucionário temível, O assunto, em Listra, foi dis cutido “intra muros”, Os administradores da cidade convidaram o sacerdote de Júpiter a entrar na campanha contra os embusteiros e, com a mesma facilidade com que haviam acreditado na sua condição de deuses, passaram todos a atribuir aos pregadores as maiores perversões. Combinaram -se providências criminosas. Des de a chegada dos dois desconhecidos, que falavam em nome de um novo profeta, Listra vivia sobressaltada por idéias diferentes. Era preciso coibir os abusos. A palavra de Paulo era audaciosa e requeria corretivo eficaz. Finalmente, deliberaram que o fogoso pregador fosse apedrejado na primeira ocasião que falasse em público. Ignorando o que se tramava, o Apóstolo dos gentios, deixando Barnabé acamado por excesso de trabalho, fez -se acompanhar do pequeno Timóteo, no sábado imediato, ao entardecer, foi até à praça pública onde, mais u ma vez, anunciou as verdades e promessas do Evangelho do Reino. O logradouro apresentava movimento invulgar. O pregador notou a presença de muitas fisionomias sus peitas e absolutamente desconhecidas. Todos lhe acompanhavam os mínimos gestos com evidente curiosidade. Com a máxima serenidade, subiu à tribuna e come çou a falar das glórias eternas que o Senhor Jesus havia trazido à Humanidade sofredora. No entanto, mal havia iniciado o sermão evangélico, quando, aos gritos furiosos dos mais exaltados, começa ram a chover pedras em barda. Paulo recordou subitamente a figura inesquecível de Estevão. Certo, o Mestre lhe reservara o mesmo gênero de morte, para que se redimisse do mal infligido ao mártir da igreja de Jerusalém. Os pequenos e duros granizos caíam-lhe nos pés, no peito, na fronte. Sentiu o sangue a escorrer -lhe da cabeça ferida e ajoelhou -se, sem uma queixa, rogando a Jesus que o fortalecesse no angustioso transe. Nos primeiros momentos, Timóteo, aterrado, pôs -se a gritar, suplicando socorro; mas um homem de braços atléticos aproxima -se cauto e murmura-lhe no ouvido: — Cala-te se queres ser útil!... — És tu, Gaio? — exclamou o pequeno de olhos lacrimosos, experimentando certo conforto em reconhecer um rosto amigo no pandemônio em que se via. — Sim — disse o outro baixinho —, aqui estou para socorrer o Apóstolo. Não posso esquecer que ele curou minha mãe. E olhando o movimento da turba criminosa, acres centou: — Não temos tempo a perder. Não tardará que o levem ao monturo. Se tal se der, procura seguir-nos com um pouco de água. Se o missionário não sucumbir, prestarás os primeiros socorros, até que eu consiga pre venir tua mãe!... Separaram-se imediatamente. Ralado de aflição, o rapaz viu o pregador de joelhos, olhos fitos no céu, num transporte inesquecí vel. Filetes de sangue desciam-lhe da fronte fraturada. Em dado momento, a cabeça pendeu e o corpo tombou desamparado. A multidão parecia tomada de assombro. Prevalecendo -se da situação em que não se observavam diretrizes prévias, Gaio insinuou -se. Aproximou-se do Apóstolo inerme, fez um gesto significativo para o povo e bradou: — O feiticeiro está morto!... Sua figura gigantesca despertara as simpatias da turba inconsciente. Estrugiram aplausos. Os que haviam promovido o nefando atentado desapareceram. Ga io compreendeu que ninguém ousava assumir a responsabilidade individual. Em estranhas vibrações, bradavam os mais perversos: — Fora das portas.. fora das portas!... Feiticei ro ao monturo!... Feiticeiro ao montu...u...ro!... O amigo de Paulo, disfarçando a comiseração com gestos de ironia, falou à multidão satisfeita: — Levarei os despojos do bruxo! A turba fez um alarido ensurdecedor e Gaio pro curou arrastar o missionário com a cautela possível. Atravessaram vielas extensas, em gritos, até que, atin gindo um local deserto, um tanto distante dos muros de Listra, deixaram Paulo semimorto, na montureira do lixo. O latagão inclinou-se, como a verificar a morte do apedrejado, e observando, cuidadosamente, que ainda vivia, gritou: —Deixemo-lo aos cães, que se incumbirão do resto! Ë preciso celebrar o feito com algum vinho!... E seguindo o líder daquela tarde, a multidão bateu em retirada, enquanto Timóteo se aproximava do local, valendo -se das sombras da noite que começava a fechar-se. Correndo a um poço, não m uito distante, e que se destinava à serventia pública, o pequeno encheu o gorro impermeável, de água pura, prestando os primeiros socor ros ao ferido. Banhado em lágrimas, notou que Paulo respirava com dificuldade, como se houvesse mergulhado em profundo desmaio, O jovem listrense assentou -se ao seu lado, banhou-lhe a testa ferida com extremos de carinho. Mais alguns minutos e o Apóstolo voltava a si para examinar a situação. Timóteo o informou de tudo. Muito compungido, Paulo agradeceu a Deus, pois reconhecia que somente a misericórdia do Altíssimo poderia ter operado o milagre, por seqüestrá-lo aos propósitos criminosos da turba inconsciente. Decorridas duas horas, três vultos silenciosos apro ximavam-se. Muito aflito, Barnabé deixara o leito, não obstante o estado febril, para acompanhar Lóide e Eunice, que, avisadas por Gaio, acorriam com os primeiros socorros. Todos renderam graças a Jesus, enquanto Paulo tomava pequena dose de vinho reconfortador. Organi zação espiritual poderosa, apesar das sevícias físicas, o tecelão de Tarso levantou -se e regressou a casa com os amigos, levemente amparado por Barnabé, que lhe oferecera o braço amigo. O resto da noite passou -se em conversações carinho sas. Os dois emissários da Boa Nova temiam agressão do povo às generosas senhoras que os haviam hospedado e socorrido. Era preciso partir, para evitar maiores incômodos e complicações. Em vão a palavra de Lóide se fez ouvir, procurando dissuadir os pregoeiros do Cristo; debalde Timóteo beijou as mãos de Paulo e lhe pediu que não partisse. Receosos de mais tristes conseqüências, depois de coordenarem as instruções necessárias à igreja nascente, transpuse ram as portas da cidade ao amanhecer, em direção a Derbe, que ficava algo distante. Depois de penosa caminhada, at ingiram o novo setor de trabalho, onde haveriam de estagiar mais de um ano. Embora entregues ao trabalho manual, com que ganhavam o pão da vida, os dois companheiros precisaram de seis meses para restabelecer a saúde comprometida. Como tecelão e oleiro anônimos, Paulo e Barnabé deixaram -se ficar em Derbe longo tempo, sem despertar a curiosidade pública. Só depois de refeitos dos abalos sofridos, recomeçaram a Boa Nova do Reino de Jesus. Visitando os arredores, provocaram grande interesse da gente sim ples, pelo Evangelho da redenção. Pequenas comunidades cristãs foram fundadas em ambiente de muitas alegrias. Após muito tempo de labor, resolveram regressar ao núcleo original do seu esforço. Vencendo etapas difíceis, visitaram e encorajaram todos os irmãos escalonados nas diversas regiões da Licaônia, Pisídia e Panfília.