Se, todavia, um homem ajuizado e de espírito – por que não os haveria na Lua? – comparar todos esses relatos incoerentes, chegará à seguinte conclusão, muito lógica: que na Terra existem regiões quentes e frias; que em certos países os homens se devoram entre si; que em outros eles matam os que não pensam do mesmo modo, tudo para a maior glória de sua divindade; finalmente, que cada um se pronuncia de acordo com os seus conhecimentos e exalta as coisas do ponto de vista de suas paixões e de seus interesses.
Em suma, em quem acreditará, de preferência?
Pela linguagem reconhecerá, sem dificuldade, o verdadeiro sábio do ignorante; o homem sério do leviano; o que tem juízo daquele que raciocina em falso; não confundirá os bons e os maus sentimentos, a elevação com a baixeza, o bem com o mal. E dirá a si mesmo: “Devo ouvir tudo, escutar tudo, porque mesmo na conversa do homem mais embrutecido posso aprender alguma coisa; minha estima e minha confiança, porém, não serão conquistadas senão por aqueles que delas se mostrarem dignos.” Se essa colônia terrena deseja implantar seus costumes e usos em sua nova pátria, os sábios repelirão os conselhos que lhes parecerem perniciosos e se confiarão àqueles que julgarem mais esclarecidos, neles não vendo nem falsidade, nem mentiras, mas, ao contrário, reconhecendo seu sincero amor do bem. Agiríamos de modo diferente, se uma colônia de selenitas viesse cair na Terra? Pois bem! O que é dado aqui como suposição, torna-se realidade no que concerne aos Espíritos; se não vêm entre nós em carne e osso, nem por isso estão menos presentes de maneira oculta, transmitindo-nos os pensamentos através de seus intérpretes, isto é, dos médiuns. Quando aprendermos a conhecê-los, julgá-los-emos por sua linguagem, por seus princípios, e suas contradições nada mais terão que nos deva surpreender, porquanto vemos saberem uns aquilo que os outros ignoram; que alguns estão colocados muito embaixo, ou são ainda muito materiais para compreender e apreciar as coisas de ordem mais elevada; tal é o homem que, no sopé da montanha, não vê senão alguns passos em volta dele, enquanto o que está no alto descortina um horizonte sem limites.
A primeira fonte das contradições decorre, pois, do grau de desenvolvimento intelectual e moral dos Espíritos; porém há outras, sobre as quais é útil chamar a atenção. Dirão que passamos sobre a questão dos Espíritos inferiores, desde que assim o é; compreende-se que possam enganar-se por ignorância; todavia, como se justifica que Espíritos superiores estejam em dissidência?
Que utilizem em certo país uma linguagem diferente da que empregam em outro? Finalmente, que o mesmo Espírito nem sempre seja coerente consigo mesmo?
A resposta a essa questão repousa sobre o conhecimento completo da ciência espírita, e essa ciência não pode ser ensinada em poucas palavras, porque é tão vasta quanto todas as ciências filosóficas.
Como todos os ramos do conhecimento humano, só é adquirida pelo estudo e pela observação. Não podemos repetir aqui tudo quanto já publicamos sobre o assunto; a ele, pois, remetemos nossos leitores, limitando-nos a um simples resumo. Todas essas dificuldades desaparecem para quem quer que lance sobre esse terreno um olhar investigador e sem prevenção.
Provam os fatos que os Espíritos enganadores se paramentam de nomes respeitáveis, sem o menor escrúpulo, a fim de que suas torpezas sejam aceitas com mais facilidade, o que por vezes também ocorre entre nós. Pelo fato de um Espírito apresentar-se sob um nome qualquer, não significa que seja realmente aquele que pretende ser; todavia, na linguagem dos Espíritos sérios há um cunho de dignidade com o qual não se poderia equivocar: só respira bondade e benevolência, e jamais se desmente. A dos Espíritos impostores, ao contrário, seja qual for o verniz com que se apresentem, deixa sempre a cauda exposta48, como se diz vulgarmente.
Nada há, pois, de espantoso em que os Espíritos inferiores, sob nomes usurpados, ensinem verdadeiros disparates. Compete ao observador procurar conhecer a verdade, e o pode fazer sem dificuldade, desde que queira compenetrar-se do que a esse respeito dissemos em nossa Instrução Prática.
Esses mesmos Espíritos geralmente lisonjeiam os gostos e as inclinações das pessoas, cujo caráter sabem bastante fraco e bastante crédulo para os ouvir. Fazem-se eco de seus preconceitos e, até mesmo, de suas idéias supersticiosas, por uma razão muito simples: os Espíritos são atraídos por suas simpatias pelo Espírito das pessoas que os chamam ou que os escutam com prazer.
Quanto aos Espíritos sérios, podem igualmente manter uma linguagem diferente, segundo as pessoas, mas com outro objetivo. Quando julgam útil e para melhor convencer, evitam chocar muito bruscamente as crenças enraizadas, e se exprimem segundo os tempos, os lugares e as pessoas. “Eis por que – dizem eles – não falamos a um chinês ou a um maometano, como a um cristão ou a um homem civilizado: jamais seríamos ouvidos. Algumas vezes, pois, parecemos entrar na maneira de ver das pessoas, a fim de conduzi-las pouco a pouco àquilo que queremos, desde que isso possa ser realizado sem alterar as verdades essenciais.” Não é evidente que se um Espírito quiser levar um muçulmano fanático a praticar a sublime máxima do Evangelho: “Não façais aos outros o que não gostaríeis que os outros vos fizessem”, seria repelido se dissesse que foi Jesus que a ensinou? Ora, o que vale mais, deixar ao muçulmano seu fanatismo ou torná-lo bom, fazendo com que momentaneamente acredite que fora Alá que havia falado? Eis um problema cuja solução transferimos ao leitor. Quanto a nós, parece-nos que, tornando-o mais doce e mais humano, seria ele menos fanático e mais acessível à idéia de uma nova crença do que se lha quiséssemos impor pela força. Há verdades que, para serem aceitas, não podem ser lançadas no rosto sem uma certa precaução.
Quantos males teriam os homens evitado se sempre houvessem agido assim!
Como se vê, os Espíritos também tomam precauções quando falam; nesse caso, porém, a divergência está no acessório, e não no principal. Induzir os homens ao bem, destruir o egoísmo, o ódio, a inveja, o ciúme, ensinar-lhes a praticar a verdadeira caridade cristã, eis para eles o essencial; o resto virá em seu devido tempo; e tanto pregam pela palavra quanto pelo exemplo, quando se trata de Espíritos verdadeiramente bons e superiores; tudo neles respira doçura e benevolência. A irritação, a violência, a aspereza e a dureza de linguagem, mesmo que seja para dizer boas coisas, jamais denotam um sinal de verdadeira superioridade. Os Espíritos realmente bons não se irritam nem jamais se encolerizam: se não são ouvidos, vão-se embora; eis tudo.
Existem ainda duas causas de aparentes contradições que não devemos deixar passar em silêncio. Como já dissemos em muitas ocasiões, os Espíritos inferiores dizem tudo o que se quer, sem se preocuparem com a verdade; os Espíritos superiores se calam ou se recusam a responder quando lhes fazem uma pergunta indiscreta ou sobre a qual não lhes é permitido dar explicações.
Dizem eles: “Neste caso, não insistais jamais, porque serão Espíritos levianos que responderão e vos enganarão; acreditais que somos nós e podeis pensar que entramos em contradição. Os Espíritos sérios não se contradizem jamais; sua linguagem é sempre a mesma com as mesmas pessoas. Se um deles diz coisas contrárias sob o mesmo nome, ficai certos de que não é o mesmo Espírito que fala ou, pelo menos, que não se trata de um Espírito bom. Reconhecereis o bom pelos princípios que ensina, pois todo Espírito que não prega o bem não é um Espírito bom, e devereis repeli-lo.”
Querendo dizer a mesma coisa em dois lugares diferentes, o mesmo Espírito não se servirá literalmente das mesmas palavras: para ele o pensamento é tudo; mas o homem, infelizmente, é levado mais a se prender à forma do que ao fundo, e é essa forma que muitas vezes interpreta ao sabor de suas idéias e paixões. Dessa interpretação podem originar-se contradições aparentes, que igualmente têm sua fonte na insuficiência da linguagem humana para exprimir as coisas extra-humanas. Estudemos o fundo, perscrutemos o pensamento íntimo e veremos analogia muitas vezes onde um exame superficial nos teria mostrado um disparate.
As causas das contradições na linguagem dos Espíritos podem, pois, ser assim resumidas: 1o O grau de ignorância ou de saber dos Espíritos aos quais nos dirigimos; 2o O embuste dos Espíritos inferiores que, tomando nomes sob empréstimo podem dizer, por malícia, ignorância e maldade, o contrário do que disse alhures o Espírito cujo nome usurparam; 3o Os defeitos pessoais do médium, que podem influir sobre a pureza das comunicações e alterar ou modificar o pensamento do Espírito; 4o A insistência para obter uma resposta que um Espírito recusa dar, e que é transmitida por um Espírito inferior; 5o A própria vontade do Espírito, que fala segundo os tempos, os lugares e as pessoas, e que pode julgar conveniente não dizer tudo a toda gente; 6o A insuficiência da linguagem humana para exprimir as coisas do mundo incorpóreo; 7o A interpretação que cada um pode dar a uma palavra ou explicação, conforme suas idéias e preconceitos, ou o ponto de vista sob o qual encaram as coisas.