A Vida de Jesus, pelo Sr. Renan (2o artigo)
Sem idéia preconcebida e sem plano definitivo, vendo que não teria êxito junto aos ricos, procurou seu ponto de apoio nos proletários, naturalmente animados contra os ricos; lisonjeando-os, deveria transformá-los em seus amigos. Se disse que o reino dos céus é para as crianças, foi para agradar às mães, que tomava por seu lado fraco e fazê-las partidárias. Assim, sob muitos aspectos, a religião nascente foi um movimento de mulheres e crianças. Numa palavra, nele tudo era cálculo e combinação e, auxiliado pelo amor do maravilhoso, triunfou. Aliás, não muito austero, porque amou muito Madalena, pela qual foi amado. Várias mulheres ricas proviam às suas necessidades. Ele e seus apóstolos eram folgazões e não desdenhavam os banquetes. Vede antes o que ele diz: “Três ou quatro galiléias devotadas acompanhavam sempre o jovem mestre e disputavam o prazer de o escutar e dele cuidar, cada uma por sua vez. Traziam para a seita nova um elemento de entusiasmo e de maravilhoso, cuja importância já se apreende. Uma delas, Maria de Magdala, que celebrizou no mundo o nome de seu pobre vilarejo, parece ter sido uma pessoa muito exaltada. Segundo a linguagem da época, tinha sido possessa de sete demônios, isto é, tinha sido afetada de doenças nervosas, aparentemente inexplicáveis. Jesus, por sua beleza pura e suave, acalmou essa organização perturbada. Madalena lhe foi fiel até ao Gólgota e, no dia seguinte à sua morte, representou um papel de primeira ordem, por ter sido o elemento principal pelo qual se estabeleceu a fé na ressurreição, como veremos mais tarde. Joana, mulher de Cusa, um dos intendentes de Antipas, Suzana e outras, que ficaram desconhecidas, o seguiam sem cessar e o serviam. Algumas eram ricas e punham, por sua fortuna, o jovem profeta em condição de viver sem exercer o ofício que professara até então.” (Cap. IX, página 151). “Jesus compreendeu bem depressa que o mundo oficial de seu tempo não se prestaria absolutamente para o seu reino. Ele tomou seu partido com extrema petulância. Deixando lá toda essa gente de coração empedernido e estreitos preconceitos, voltou-se para os simples. O reino de Deus é feito para as crianças e para os que se lhes assemelham; para os desprezados deste mundo, vítimas da arrogância social, que repele o homem bom, mas humilde... O puro ebionismo, isto é, que os pobres (ebionin) são os únicos a serem salvos e o reino dos pobres vai chegar, foi, pois, a doutrina de Jesus. (Cap. XI, página 178). “Ele não apreciava os estados da alma senão na proporção do amor que aí se mistura. Mulheres com o coração cheio de lágrimas e dispostas por suas faltas aos sentimentos de humildade, estavam mais perto de seu reino do que as naturezas medíocres, as quais muitas vezes têm pouco mérito por não terem falido. Por outro lado, concebe-se que essas almas ternas, achando em sua conversão à seita um meio fácil de reabilitação, a ele se ligavam com paixão. “Longe de buscar atenuar os murmúrios provocados por seu desdém às suscetibilidades sociais do tempo, parecia ter prazer em os excitar. Jamais foi confessado mais altivamente esse desprezo do mundo, que é a condição das grandes coisas e da grande originalidade. Só perdoava ao rico quando este, por força de algum preconceito, era malvisto pela sociedade. Preferia claramente as pessoas de vida equívoca e de pouca consideração aos notáveis ortodoxos. Dizia: ‘Publicanos e cortesãs vos precederão no reino de Deus. Veio João; publicanos e cortesãs creram nele e, apesar disto, não vos convertestes.’ Compreende-se que a censura por não terem seguido o bom exemplo que lhes davam as filhas do prazer deveria ser cruel para gente que fazia profissão de austeridade e de uma moral rígida. “Não tinha qualquer afetação exterior, nem dava mostras de severidade. Não fugia à alegria e ia de bom grado às festas de casamento. Um de seus milagres foi feito para distrair as bodas de um vilarejo. As bodas no Oriente se dão à noite. Cada um leva uma lâmpada; as luzes que vão e vêm têm um efeito muito agradável. Jesus gostava deste aspecto alegre e animado e daí tirava as suas parábolas. (Cap. XI, página 187). “Os fariseus e os doutores gritavam, escandalizados. Diziam: Vede com que gente ele come! Jesus tinha, então, finas respostas, que exasperavam os hipócritas: Não são os sadios que precisam de médico.” (Cap. XI, página 185). O Sr. Renan tem o cuidado de indicar, em notas de chamada, as passagens do Evangelho a que faz alusão, para mostrar que se apóia no texto. Não é a verdade das citações que se lhe contesta, mas a interpretação que lhes dá. É assim que a profunda máxima deste último parágrafo é travestida numa simples tirada espirituosa. Tudo se materializa no pensamento do Sr. Renan; em todas as palavras de Jesus nada vê além do terra-a-terra, porque ele próprio nada enxerga fora da vida material. Depois de uma idílica descrição da Galiléia, de seu clima delicioso, de sua fertilidade luxuriante, do caráter doce e hospitaleiro de seus habitantes, dos quais faz verdadeiros pastores da Arcádia, acha, na disposição de espírito que daí devia resultar, a fonte do Cristianismo. “Esta vida contente e facilmente satisfeita não levava ao grosseiro materialismo do nosso camponês, à grande alegria de uma normanda generosa, à pesada alegria dos flamengos. Ela se espiritualizava em sonhos etéreos, numa espécie de misticismo poético, confundindo o Céu e a Terra... A alegria fará parte do reino de Deus. Não é a filha dos humildes de coração, dos homens de boa vontade?” “Toda a história do Cristianismo nascente tornou-se uma espécie de deliciosa pastoral. Um Messias em repasto de bodas, a cortesã e o bom Zaqueu chamados a seus festins, os fundadores do reino do céu, como um cortejo de paraninfos: eis o que a Galiléia ousou e fez aceitar.” (Cap. IV, pág. 67). “Jesus foi dominado por um sentimento de admirável profundidade, bem como o grupo de crianças alegres que o acompanhavam e dele fez para a eternidade o verdadeiro criador da paz da alma, o grande consolador da vida.” (Cap. X, pág. 176). “Utopias de vida bem-aventurada, fundadas na fraternidade dos homens e o culto puro do verdadeiro Deus preocupavam as almas elevadas e em toda parte produziam ensaios ousados, sinceros, mas de pouco futuro.” (Cap. X, pág. 172). “No Oriente, a casa onde entra um estrangeiro torna-se, em seguida, um lugar público. O vilarejo inteiro aí se reúne; os meninos a invadem; os criados se afastam; eles voltam sempre. Jesus não suportava que maltratassem esses ingênuos ouvintes; aproximava-os de si e os abraçava. As mães, encorajadas por tal acolhida, traziam-lhe seus bebês para que ele os tocasse... As mulheres e as crianças igualmente o adoravam... “Assim, a religião nascente foi, sob vários aspectos, um movimento de mulheres e de crianças. Estes últimos o rodeavam à feição de uma jovem guarda para a inauguração de sua inocente realeza e lhe faziam pequenas ovações, que muito lhe agradavam, chamando-o filho de Davi, gritando: Hosana! e agitando palmas ao seu redor. Como Savanarola, talvez Jesus os fizesse servir de instrumento a missões piedosas. Ele estava bem à vontade para ver esses jovens apóstolos, que não o comprometiam, lançar-se à frente e conferir-lhe títulos que ele próprio não ousava tomar.” (Cap. XI, pág. 190). Jesus é, desse modo, apresentado como um ambicioso vulgar, de paixões mesquinhas, que age às escondidas e não tem coragem de se confessar. Em falta de uma realeza efetiva, contenta-se com a mais inocente e menos perigosa que lhe conferem os meninos. A passagem seguinte dele faz um egoísta: “Mas de tudo isto não resultou uma Igreja estabelecida em Jerusalém, nem um grupo de discípulos hierosolimitas. O encantador doutor, que a todos perdoava, contanto que o amassem, não podia achar muito eco nesse santuário de disputas vãs e sacrifícios antiquados.” “Sua família parece não o ter amado e, por momentos, ele é duro para com ela. Como todos os homens exclusivamente preocupados com uma idéia, chegava a ter em pouca conta os laços de sangue... Logo, em sua audaciosa revolta contra a Natureza, devia ir ainda mais longe e o veremos espezinhando tudo quanto é do homem, o sangue, o amor, a pátria, não guardando ressentimento senão para a idéia que se lhe apresentava como forma absoluta do bem e do verdadeiro.” (Cap. III, pág. 42 e 43). Eis o que o Sr. Renan intitula: Origens do Cristianismo. Quem alguma vez teria acreditado que um grupo de pessoas alegres, um bando de mulheres, de cortesãs e de crianças, tendo à frente um idealista, que não possuía a menor noção da alma, pudesse, auxiliado por uma utopia, pela quimera de um reino celeste, mudar a face do mundo religioso, social e político? Em outro artigo examinaremos o modo pelo qual ele encara os milagres e a natureza da pessoa do Cristo.
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Mês Junho
Ano 1864