O Espiritismo em Rochefort – Episódio da Viagem do Sr. Allan Kardec
Queremos mesmo acreditar que o Sr. Tony dele não precise, que tenha uma fé viva, uma religião sincera, pois toma a defesa do Cristianismo contra o Espiritismo, apesar de algumas más línguas o acusarem de ser um pouco materialista. Queremos mesmo acreditar que ele pratique a caridade como verdadeiro cristão; que, a exemplo do Cristo, seja brando e humilde; que não tenha orgulho, nem vaidade, nem ambição; que seja bom e indulgente para com todos, mesmo para com seus inimigos; numa palavra, que tenha todas as virtudes do divino modelo e, ao menos, que não aborreça os outros por isso. Prossegue ele: Tem o Espiritismo a pretensão de evocar os Espíritos. É verdade que os Espíritos não se submetem a caprichos e exigências. Se necessário, podem revestir um corpo reconhecível, inclusive roupas e só entram em relação com os médiuns sob a condição de serem envolvidos numa camada de fluidos da mesma natureza... e por que não de natureza contrária, como na eletricidade? A ciência do Espiritismo não o explica. Lede e vereis. Não sei se os adeptos se retiraram satisfeitos. Mas, com toda a certeza os ignorantes, sinceramente desejosos de instruir-se, nada lucraram com essa sessão, a não ser que o Espiritismo não se demonstra. É culpa do professor ou o Espiritismo só desvenda os seus arcanos aos fiéis? Não vo-lo diremos... e com razão! Tony Conclusão – O Espiritismo não se demonstra. O Sr. Tony deveria ter explicado claramente, já que gosta tanto de explicações claras, a razão pela qual o Espiritismo é demonstrado a milhões de homens que nem são tolos nem ignorantes. Que se dê ao trabalho de estudar e saberá se, como diz, está com tanto desejo de instruir-se. Mas, desde que se julgou no dever de dar explicações ao público de uma reunião que nada tinha de pública, como se fizesse a apreciação crítica de um espetáculo aonde se vai atraído pelos cartazes, deveria, para ser imparcial, ter-se referido às palavras que dissemos no início. Seja como for, estamos muito satisfeitos com a urbanidade que presidiu à reunião e aproveitamos o ensejo para dirigir ao eminente funcionário, Sr. La Maison, os nossos agradecimentos pela acolhida cheia de benevolência e de cordialidade e a iniciativa de pôr o salão à nossa disposição. Pareceu-nos útil demonstrar-lhe, assim como à elite reunida em sua casa, as tendências morais do Espiritismo e a natureza do ensino que ministramos nos centros visitados. O Sr. Tony ignora se os adeptos ficaram satisfeitos. Em seu ponto de vista, evidentemente, a sessão não deu resultado. Quanto a nós, preferimos ter deixado em alguns ouvintes a impressão de um moralista enfadonho à idéia de um produtor de espetáculos. Um fato indubitável é que nem todos partilharam de sua opinião. Sem falar dos adeptos que lá se encontravam, e dos quais recebemos calorosos testemunhos de simpatia, citaremos dois senhores que, ao fim da sessão, perguntaram se as instruções que tínhamos lido seriam publicadas, acrescentando que haviam feito do Espiritismo uma idéia completamente falsa, mas, agora, o viam sob outro prisma, compreendiam o lado sério e útil e se propunham estudá-lo profundamente. Tivéssemos obtido somente esse resultado e nos daríamos por satisfeito. É pouco, dirá o Sr. Tony. Seja. Mas ele ignora que dois grãos que frutificam se multiplicam. Aliás, não sabemos se todos os que semeamos nessa circunstância estarão perdidos e se o vento provocado pelo Sr. Tony não terá levado alguns a uma terra fértil. O Sr. Florentin Blanchard, livreiro de Marennes, sentiu-se no dever de responder ao artigo do Sr. Tony, por uma carta que foi inserida nas Tablettes des deux Charentes, edição de 25 de outubro. Responde o Sr. Tony, assim concluindo: “O Espiritismo superexcita o espírito dos crédulos, agrava o estado das mulheres dotadas de grande irritabilidade nervosa, enlouquece-as ou as mata, caso persistam em suas aberrações. “O Espiritismo é uma doença e, como tal, deve ser combatido. Além disso, entra no quadro das coisas... malsãs, estudadas pela higiene pública e moral.” Aqui surpreendemos o Sr. Tony em flagrante delito de contradição. No primeiro artigo, acima referido, disse que vinha à sessão “movido por um sentimento de curiosidade muito compreensível e que nada tinha de hostil.” Como compreender que não fosse hostil a uma coisa que diz ser uma doença, uma coisa malsã, etc.? Mais adiante diz que esperava explicações claras ou mesmo elementares para facilitar a experimentação dos profanos. Como podia desejar iniciar-se, ele e os profanos, na experimentação de uma coisa que, diz, pode enlouquecer e matar? Por que veio? Por que não convenceu os amigos a que não viessem assistir ao ensino de uma coisa tão perigosa? Por que lamenta não tenha o ensino correspondido à sua expectativa, nem sido tão completo quanto desejava? Desde que, em sua opinião, esta coisa é tão perniciosa, em vez de nos censurar por termos sido pouco explícitos, deveria ter-nos parabenizado. Outra contradição. Já que veio à reunião para saber o que é, o que quer e o que pode o Espiritismo; uma vez que nos censura por não o termos instruído, é que não o conhecia. Ora, desde que não o estudou, como sabe que é tão perigoso? Então julgou sem conhecimento. Assim, estribado na própria autoridade, decide que uma coisa é má, malsã e pode matar, quando acaba de declarar que não sabe o que ela é. Isto é linguagem de um homem sério? Há críticas que se refutam por si mesmas de tal maneira que basta assinalá-las, sendo supérfluo ligar-lhes importância. Em outras circunstâncias, uma alegação como a de matar poderia ensejar uma ação judicial por calúnia, pois a acusação é de extrema gravidade contra nós e contra uma classe hoje imensamente numerosa de homens honradíssimos. Isto não é tudo. O segundo artigo foi seguido de vários outros, nos quais desenvolve sua tese. Ora, eis o que se lê no Spectateur de 26 de outubro, por ocasião da primeira carta do Sr. Blanchard: A redação do Spectateur recebeu de Marennes, assinada por Florentin Blanchard, uma carta em resposta ao nosso primeiro artigo do dia 12, quando este já estava composto. A redação lamenta que a exigüidade de seu formato não lhe permita abrir suas colunas para uma controvérsia sobre o Espiritismo. A pedido expresso do Spectateur, as Tablettes publicaram a carta in-extenso. Reservamo-nos o direito de responder oportunamente e procuraremos não ceder, como seu autor, às inspirações de um Espírito inconveniente. Tony Depois de uma segunda carta do Sr. Blanchard, desta vez publicada no Spectateur, lê-se: Concedemo-vos hospitalidade com prazer, Sr. Florentin Blanchard, mas seria bom que não abusasse. Vossa carta de hoje me acusa de não ter estudado o Espiritismo. Como sabeis? Por certo não quereis discutir senão com iluminados e, a esse título, não sou a pessoa mais indicada. De acordo? Por que não respondeis, senhor, a algumas proposições que terminam minha última carta... em vez de me acusar vagamente? Esta correspondência prolongada não oferece interesse; permiti-me, pois, não a continuar. Em breve retomarei minha série de artigos sobre o Espiritismo, mas só ocasionalmente, pois o pequeno formato do Spectateur não permite a publicação de longos estudos sobre este assunto pitoresco. Por mais que façais, senhor, não levaremos os espíritas a sério nem poderemos considerar o Espiritismo como uma ciência. Tony Assim, está muito claro que o Sr. Tony quer atacar o Espiritismo, arrastá-lo na lama, qualificá-lo de malsão, dizer que mata, sem, contudo, dizer quantas pessoas matou. Mas não quer controvérsia. Seu jornal é bastante grande para os seus ataques, mas muito pequeno para as réplicas. Falar sozinho é mais cômodo. Ele esqueceu que, em razão da natureza e do caráter de seus ataques a lei poderia obrigá-lo à inserção de uma resposta de dupla extensão, em que pese a exigüidade de seu jornal. Ao relatar as particularidades de nossa estada em Rochefort, quisemos mostrar que não buscamos nem solicitamos aquela reunião e, conseqüentemente, não atraímos ninguém para nos ouvir. Também tivemos o cuidado de dizer sem rodeios, logo de início, qual era a nossa intenção. Os que se sentissem desapontados tinham liberdade de retirar-se. Agora nós nos congratulamos pela circunstância fortuita, ou, melhor, providencial, que nos levou a ficar, pois provocou uma polêmica que apenas serve à causa do Espiritismo, dando-o a conhecer pelo que ele é: uma coisa moral, e não pelo que não quer ser: um espetáculo para satisfação dos curiosos; e por dar à crítica, uma vez mais, ocasião de mostrar a lógica de seus argumentos. Agora, Sr. Tony, mais duas palavras, por favor. Para adiantar publicamente coisas como as que escrevestes, é preciso estar bem seguro dos fatos e deveis empenhar-vos em as provar. É muito cômodo discutir sozinho. No entanto, não pretendo estabelecer convosco nenhuma polêmica. Não tenho tempo para isto e, por outro lado, vossa folha é muito pequena para admitir a crítica e a refutação. Além disso – seja dito sem vos ofender – sua influência não se estende muito longe. Ofereço-vos coisa melhor: vinde a Paris, ante a Sociedade que presido, isto é, perante cento e cinqüenta pessoas, sustentar e provar o que adiantais. Se tendes certeza de estar com a verdade, nada deveis recear e eu vos prometo, sob palavra de honra, que, através da Revista Espírita, vossos argumentos e os efeitos que tiverdes produzido irão da China ao México, passando por todas as capitais da Europa.
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Mês Dezembro
Ano 1862